Acadêmico de Harvard diz que Trump fortaleceu ascensão da China

Da Redação

O professor Stephen Walt, da Universidade Harvard, afirma que erros estratégicos de Donald Trump enfraqueceram a posição global dos Estados Unidos e aceleraram a expansão econômica, tecnológica e diplomática da China.

O professor Stephen M. Walt, um dos mais influentes especialistas em relações internacionais da Universidade Harvard, afirmou que subestimou o impacto destrutivo da política externa de Donald Trump sobre a posição estratégica dos Estados Unidos no sistema internacional. Em análise publicada originalmente pela RT e repercutida pelo Brasil 247, Walt argumenta que as decisões adotadas por Trump acabaram fortalecendo justamente aquilo que Washington tentava conter: a ascensão global da China.

Segundo o acadêmico, havia uma expectativa dentro de parte do establishment norte-americano de que figuras consideradas “linha dura” em relação a Pequim, como Marco Rubio e Elbridge Colby, manteriam os Estados Unidos concentrados na contenção do avanço chinês na Ásia. Mas Walt afirma agora que esse cálculo estava profundamente equivocado diante da condução impulsiva e errática da política externa norte-americana sob Trump.

Para o professor de Harvard, o problema não se resume apenas à rivalidade geopolítica tradicional entre duas grandes potências. Na avaliação dele, os próprios Estados Unidos passaram a desmontar internamente os pilares estruturais que sustentavam sua hegemonia global.

Walt aponta que o governo Trump promoveu cortes em universidades, pesquisa científica e programas estratégicos de inovação tecnológica, justamente em áreas consideradas decisivas para a disputa do século XXI. Segundo ele, Washington estaria realizando uma espécie de “desarmamento unilateral” diante do avanço chinês em setores como inteligência artificial, baterias avançadas, energia limpa, semicondutores e veículos elétricos.

A crítica toca num dos principais eixos da disputa contemporânea entre China e Estados Unidos: a corrida tecnológica.

Nos últimos anos, Pequim consolidou enorme avanço em áreas ligadas à transição energética, minerais estratégicos, infraestrutura digital e cadeias produtivas industriais. A China já ocupa posição dominante em diversos segmentos ligados a baterias, painéis solares, veículos elétricos e refino de terras raras, componentes considerados fundamentais para a economia do futuro.

Enquanto isso, Walt avalia que os EUA passaram a desperdiçar capacidade científica e diplomática justamente no momento em que a competição global exige fortalecimento estrutural de longo prazo.

O professor também critica duramente a política tarifária implementada por Trump contra a China e outros parceiros comerciais. Segundo ele, as tarifas foram aplicadas de maneira improvisada, arbitrária e incapaz de revitalizar efetivamente a indústria norte-americana. Pelo contrário: acabaram produzindo tensões com aliados históricos dos Estados Unidos e ampliando o ressentimento internacional contra Washington.

Walt afirma ainda que a tentativa de pressionar economicamente parceiros comerciais enfraqueceu a confiança internacional na liderança americana. Em vez de construir coalizões sólidas para conter Pequim, os EUA passaram a desgastar simultaneamente relações com Europa, Índia e outros aliados estratégicos.

Outro ponto central da análise envolve o afastamento norte-americano de organismos multilaterais e instituições internacionais.

Segundo o acadêmico, esse movimento abriu espaço para que a China ampliasse sua influência diplomática global. Pequim passou a ocupar vácuos deixados pelos Estados Unidos em fóruns multilaterais, negociações comerciais, infraestrutura internacional e iniciativas de cooperação econômica.

Na visão de Walt, o problema central é estratégico: enquanto a China trabalha com planejamento estatal de longo prazo, os Estados Unidos passaram a operar de forma cada vez mais reativa, fragmentada e politicamente instável.

O professor também afirma que Trump desviou foco estratégico ao aprofundar tensões no Oriente Médio, especialmente em relação ao Irã. Segundo ele, Washington prometia priorizar a contenção chinesa, mas voltou a direcionar energia política, militar e diplomática para conflitos regionais que historicamente desgastaram os EUA nas últimas décadas.

Esse ponto dialoga diretamente com uma discussão mais ampla dentro da geopolítica contemporânea: a possibilidade de os Estados Unidos repetirem padrões históricos de sobrecarga imperial enquanto a China expande silenciosamente sua capacidade econômica, tecnológica e diplomática.

Mesmo assim, Walt deixa claro que ainda considera os Estados Unidos estruturalmente mais poderosos que a China em diversos aspectos. O problema, segundo ele, está menos na capacidade objetiva americana e mais na qualidade da liderança política e estratégica adotada nos últimos anos.

A análise ganha enorme peso porque Stephen Walt é um dos principais representantes da tradição realista nas relações internacionais e historicamente esteve longe de posições alarmistas sobre a China. Em textos anteriores, o professor chegou a argumentar que os temores sobre uma hegemonia chinesa absoluta eram exagerados e que coalizões regionais naturalmente tenderiam a equilibrar o poder de Pequim. Agora, porém, Walt afirma que os próprios erros estratégicos dos Estados Unidos podem acelerar justamente o cenário que Washington pretendia evitar.

O debate também ocorre num momento particularmente delicado das relações internacionais.

China e Estados Unidos atravessam simultaneamente disputas sobre semicondutores, inteligência artificial, minerais críticos, comércio internacional, Taiwan, infraestrutura digital e reorganização das cadeias produtivas globais. A forma como ambas as potências administrarão essa rivalidade poderá definir grande parte da economia mundial nas próximas décadas.

Recentemente, Xi Jinping chegou a afirmar a Donald Trump que China e Estados Unidos “devem ser parceiros, e não rivais”, em tentativa de reduzir tensões bilaterais e evitar aprofundamento da fragmentação geopolítica global.

Nesse contexto, a análise de Stephen Walt funciona também como alerta interno dentro dos próprios Estados Unidos: a maior ameaça à liderança americana talvez não esteja apenas no crescimento chinês, mas nos erros estratégicos produzidos pela própria política norte-americana.

E justamente por isso as declarações do acadêmico de Harvard passaram a repercutir internacionalmente como uma das críticas mais duras já feitas por um membro do establishment intelectual americano à condução geopolítica de Donald Trump.