Da Redação
Pesquisa realizada entre 17 e 20 de setembro registra o menor índice de aprovação de Donald Trump nas medições Reuters/Ipsos de seus dois mandatos. Apenas 17% dos entrevistados aprovam sua atuação diante do custo de vida, enquanto a guerra contra o Irã também encontra resistência. O levantamento mostra ainda queda do apoio dentro do Partido Republicano às vésperas das eleições legislativas de novembro.
A combinação entre aumento do custo de vida e prolongamento da guerra contra o Irã começa a produzir um problema político mais amplo para Donald Trump dentro dos Estados Unidos. Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada nesta segunda-feira, 21 de setembro, registrou aprovação de 32% para o presidente americano, o menor patamar encontrado pelo instituto durante seus dois mandatos. Uma semana antes, eram 35%.
O dado mais importante, porém, talvez não esteja apenas na queda nacional. Pela primeira vez nesta fase do governo, o desgaste aparece de maneira clara dentro da própria base republicana, especialmente quando a pesquisa pergunta sobre aquilo que os americanos sentem diariamente no orçamento doméstico.
Entre os republicanos, a aprovação geral do trabalho de Trump caiu para 73%. Em janeiro deste ano, estava em 86%, segundo a Ipsos. Na economia, a deterioração é ainda mais acentuada: a aprovação republicana caiu de 80% para 56%. Quando o assunto é especificamente o custo de vida, despencou de 70% para 44%.
No conjunto da população, somente 17% dos entrevistados aprovam a maneira como Trump está lidando com o custo de vida. É justamente essa questão que aparece como a principal preocupação dos americanos na hora de decidir seu voto nas eleições de meio de mandato marcadas para 3 de novembro.
Os números ajudam a explicar por que economia e guerra, que durante uma campanha eleitoral poderiam ser tratadas como assuntos separados, passaram a se encontrar no centro da política americana.
Trump voltou à Casa Branca em janeiro de 2025 prometendo controlar a inflação e encerrar conflitos externos. Na pesquisa Reuters/Ipsos realizada logo depois de sua posse, sua aprovação era de 47%. Vinte meses depois, o índice caiu 15 pontos.
A pesquisa atual não permite atribuir toda essa queda a uma única causa. Inflação, imigração, segurança, decisões políticas internas e guerra aparecem de maneiras diferentes nas avaliações dos entrevistados. Mas o levantamento mostra uma conexão especialmente forte entre a insatisfação econômica e o conflito com o Irã.
A guerra chegou ao bolso dos americanos
A guerra iniciada em fevereiro alterou os fluxos de petróleo e gás do Oriente Médio e pressionou os preços internacionais da energia. O impacto chegou aos Estados Unidos por meio dos combustíveis e dos custos de transporte, que se espalham posteriormente por outras cadeias econômicas.
É nesse ambiente que a percepção sobre a condução econômica do governo piorou.
Entre os próprios republicanos, 51% agora desaprovam a atuação de Trump diante do custo de vida, contra 44% que aprovam. Segundo a Reuters, é a primeira vez que a desaprovação supera a aprovação nesse quesito dentro do partido do presidente.
O conflito com o Irã também não possui apoio majoritário na pesquisa. Apenas 34% dos entrevistados aprovam os ataques americanos. Mais reveladora é a expectativa sobre sua duração: 82% acreditam que a guerra deverá continuar por um “período prolongado”. Essa percepção atravessa as divisões partidárias — é compartilhada por nove em cada dez democratas e aproximadamente três quartos dos republicanos.
O contraste com as expectativas criadas no início do conflito é significativo. Trump havia dito inicialmente que a guerra duraria algumas semanas e justificou os bombardeios como necessários para impedir o desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã. Em setembro, passou a afirmar que o conflito terminaria “imediatamente após” as eleições legislativas. Até agora, entretanto, não há um acordo capaz de encerrá-lo, e Teerã continua sinalizando disposição para responder militarmente caso os ataques prossigam.
A dimensão econômica começa a interferir inclusive no comportamento de candidatos republicanos.
Nesta segunda-feira, dois candidatos do partido ao Senado — Mike Rogers, em Michigan, e Ashley Hinson, em Iowa — pediram publicamente que a guerra termine rapidamente. Ambos haviam apoiado anteriormente a atuação de Trump contra o Irã. Hinson chegou a votar repetidamente contra medidas destinadas a restringir os poderes presidenciais para continuar o conflito. Agora, defende também suspensão de impostos sobre gasolina e interrupção temporária das exportações de diesel.
Rogers adotou posição semelhante. Em um anúncio de campanha gravado dentro de um supermercado, afirmou que as famílias de Michigan não podem esperar pelo fim da guerra para obter redução dos custos de energia. Seus adversários democratas acusaram os dois candidatos de mudar de posição por conveniência eleitoral; Rogers e Hinson relacionam a nova postura ao impacto econômico do conflito.
A movimentação revela como uma questão inicialmente tratada como política externa entrou diretamente nas campanhas estaduais.
Em Iowa, onde agricultura, máquinas e transporte rodoviário dependem intensamente de diesel, o preço do combustível possui consequências econômicas imediatas. Em Michigan, energia e custo de vida também aparecem entre as preocupações centrais da disputa pelo Senado.
A guerra, portanto, deixou de ser apenas uma discussão sobre estratégia americana no Oriente Médio. Tornou-se também uma questão de preço no posto, transporte, produção agrícola e supermercado.
Eleições de novembro aumentam a pressão
O levantamento Reuters/Ipsos foi realizado com 1.277 adultos americanos entre 17 e 20 de setembro, por meio do painel probabilístico KnowledgePanel da Ipsos. A margem de erro para o conjunto da amostra é de aproximadamente três pontos percentuais.
Quando a pesquisa restringe a pergunta aos eleitores registrados e questiona em qual partido pretendem votar para o Congresso, 43% escolhem os democratas e 35% os republicanos. A diferença de oito pontos é a maior observada pela Reuters/Ipsos neste ano.
Esse número, entretanto, precisa ser lido corretamente.
Ele não é uma previsão de quem controlará o Congresso depois das eleições de 3 de novembro. Câmara e Senado não são decididos por uma votação nacional única. Deputados são escolhidos distrito por distrito, enquanto as disputas senatoriais acontecem nos estados que elegem senadores neste ciclo. Distribuição geográfica dos eleitores, características locais das candidaturas e diferenças entre as disputas podem produzir resultados diferentes do retrato nacional apresentado por uma pesquisa.
O levantamento mostra, portanto, o ambiente político nacional no momento em que foi realizado, não o resultado futuro das eleições. A própria Reuters faz essa ressalva.
Ainda assim, o dado ajuda a entender por que parlamentares republicanos começam a demonstrar preocupação.
As eleições de meio de mandato decidirão o controle do Congresso durante os dois últimos anos do atual mandato presidencial. Uma mudança na composição de qualquer uma das Casas alteraria as condições políticas sob as quais Trump tentará aprovar orçamento, legislação e outras partes de sua agenda.
É nesse contexto que a queda da aprovação entre republicanos merece atenção particular.
Trump continua contando com forte apoio de seu partido. Uma aprovação de 73% entre republicanos está muito distante de representar abandono de sua base. Mas a queda em relação aos 82% registrados pela Reuters/Ipsos apenas uma semana antes, somada à deterioração das avaliações econômicas, indica que a insatisfação já não está restrita aos democratas e independentes.
A Ipsos mostra uma trajetória ainda mais clara quando amplia a comparação: em janeiro de 2026, 86% dos republicanos aprovavam o desempenho geral do presidente. Agora são 73%.
Imigração ainda sustenta Trump dentro da base republicana
Há, no entanto, áreas nas quais o presidente mantém apoio elevado entre seus eleitores.
A principal é imigração.
Entre republicanos, 79% aprovam a política migratória de Trump. Quando a mesma pergunta é feita ao conjunto dos americanos, o quadro muda: 36% aprovam sua abordagem e 55% desaprovam.
A diferença mostra uma característica importante da atual situação política. O desgaste de Trump não ocorre de maneira uniforme em todas as áreas. Economia e guerra aparecem como pontos particularmente frágeis, enquanto imigração continua mobilizando apoio expressivo dentro do Partido Republicano.
Mesmo nessa área, porém, surgiram sinais de preocupação eleitoral. Segundo a Reuters, aliados republicanos no Congresso têm alertado que a política agressiva de deportações pode afastar segmentos de eleitores cujas famílias possuem histórico recente de imigração, incluindo parcelas do eleitorado hispânico.
Na segurança pública, os números também são desfavoráveis ao governo no conjunto da população: 35% aprovam a maneira como Trump enfrenta o crime e 50% desaprovam.
O resultado geral é um presidente que conserva forte controle sobre parcelas importantes da base republicana, mas enfrenta dificuldades crescentes para transformar essa fidelidade partidária em aprovação majoritária no conjunto do país.
O dado de 32% é especialmente significativo porque fica abaixo do menor índice registrado pela Reuters/Ipsos para Joe Biden. O antecessor democrata chegou a 35% em outubro de 2024, durante um período também marcado por forte insatisfação com inflação e custo de vida. A comparação se refere especificamente às pesquisas Reuters/Ipsos e não significa que todos os institutos tenham registrado os mesmos patamares para os dois presidentes.
É uma distinção metodológica importante. Pesquisas de institutos diferentes utilizam amostras, métodos e formulações próprias. Por isso, séries históricas são mais úteis quando comparadas dentro do mesmo levantamento.
No caso da Reuters/Ipsos, a tendência atual é inequívoca: Trump passou de 47% logo após assumir a Presidência, em janeiro de 2025, para 32% em setembro de 2026.
O teste político agora está na economia
A nova pesquisa aparece justamente quando Trump chega à Assembleia Geral das Nações Unidas com grande parte de sua agenda internacional concentrada em guerras e crises externas.
Nesta terça-feira, o presidente americano tem encontros previstos com dirigentes de diferentes regiões, incluindo líderes dos países do Golfo, enquanto Irã e Ucrânia permanecem entre os principais temas diplomáticos de sua passagem por Nova York.
A política externa, porém, está cada vez mais conectada à política doméstica.
A guerra contra o Irã pressiona os mercados energéticos. Energia mais cara aumenta custos de transporte e produção. Empresas podem repassar parte desses custos aos consumidores. E o custo de vida aparece justamente como a área em que a avaliação de Trump está mais deteriorada.
É esse encadeamento que ajuda a explicar a preocupação crescente dentro do Partido Republicano.
A pesquisa não demonstra que a guerra seja responsável sozinha pela queda da popularidade presidencial, nem permite prever o resultado das eleições legislativas. Mostra algo mais específico: o ponto de maior vulnerabilidade política de Trump neste momento está na percepção dos americanos sobre seu próprio orçamento doméstico, enquanto o prolongamento do conflito iraniano acrescenta pressão a esse problema.
O dado de 17% de aprovação sobre o custo de vida talvez seja, por isso, mais revelador que os próprios 32% de aprovação geral.
Trump construiu parte importante de sua campanha de retorno à Casa Branca prometendo inflação menor e encerramento de guerras externas. Agora chega à reta final das eleições de meio de mandato enfrentando simultaneamente preços elevados e um conflito no Oriente Médio que a grande maioria dos entrevistados acredita que ainda vai durar.
E a mudança mais relevante registrada pela Reuters/Ipsos não acontece apenas entre seus adversários.
Ela começa a aparecer dentro do próprio Partido Republicano.


