Historiadora destaca o protagonismo feminino nas lutas pela terra, na resistência à ditadura e na organização das comunidades, além de cobrar reconhecimento histórico e políticas contra a desigualdade no campo
A participação das mulheres nas lutas pela terra, na agricultura familiar, na resistência à ditadura e na organização das comunidades foi o tema da entrevista concedida pela professora e historiadora Marcília Gama ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas e transmitido pela TV Atitude Popular nesta quarta-feira (8).
Doutora em História e especialista em Arquivologia, Marcília Gama chamou atenção para a permanência da invisibilidade feminina na historiografia brasileira e para a dificuldade de reconhecimento das mulheres que ocuparam posições decisivas em movimentos políticos, sindicais, camponeses e comunitários.
“Eu avalio como uma luta, uma necessidade de reconhecimento ainda, por conta dessa invisibilidade que há no cenário meramente masculino”, afirmou.
Para a historiadora, a exclusão das mulheres dos espaços de decisão não impediu sua participação concreta nos conflitos políticos e sociais que marcaram o país. Marcília lembrou que o direito feminino ao voto foi reconhecido nacionalmente apenas em 1932 e destacou que, muito antes e depois dessa conquista, mulheres já atuavam na defesa de melhores condições de vida e trabalho.
“Isso nunca foi impedimento para que as mulheres continuassem no espaço em que interagiam, continuassem lutando em defesa de um país mais justo e também de oportunidades para que a sociedade fosse mais equânime”, disse.
Ao abordar especificamente as mulheres nordestinas e trabalhadoras rurais, Marcília ressaltou que a luta pelo acesso à terra ocorreu em condições marcadas pela pobreza, pela desigualdade de gênero e pela concentração fundiária. Segundo ela, muitas mulheres tiveram atuação direta nas lutas camponesas, mas permaneceram durante décadas fora das narrativas mais difundidas sobre esses movimentos.
“A própria história, a historiografia, não faz justiça a estas mulheres, à presença dessas mulheres e a essa luta”, afirmou.
Entre os nomes lembrados durante a entrevista está Alexina Crespo, militante das Ligas Camponesas e companheira de Francisco Julião. Marcília destacou a dimensão internacional de sua trajetória política e lembrou que Alexina participou de contatos e articulações com importantes lideranças revolucionárias do século XX.
“Poucas pessoas sabem. Esteve à mesa negociando com Fidel Castro, com Che Guevara, com Mao Tsé-Tung”, relatou a historiadora.
Segundo Marcília, Alexina também teve treinamento de guerrilha e participou de articulações relacionadas às Ligas Camponesas, mas sua atuação recebeu pouco reconhecimento público durante décadas. A historiadora citou a exposição dedicada à militante na Fundação Joaquim Nabuco como uma iniciativa importante para a recuperação dessa memória.
A entrevista também recuperou a participação de mulheres como Júlia Santiago, operária que atuou nas lutas sociais e na defesa das questões relacionadas ao campo, e Ana Dalgiza Cavalcanti, ligada à atuação política do Partido Comunista em Pernambuco. Para Marcília, a presença feminina nas organizações políticas e no movimento operário demonstra que as mulheres já ocupavam posições de liderança em um período no qual sua participação pública sofria forte repressão social e institucional.
A violência da ditadura militar contra as militantes também ocupou parte significativa da entrevista. Marcília citou Amparo Araújo, militante da Ação Popular e integrante do Grupo Tortura Nunca Mais de Pernambuco. A historiadora lembrou que Amparo teve familiares e companheiros atingidos pela repressão e participou da busca por documentos e provas sobre crimes praticados por agentes do Estado.
“Nem direito a enterrar seus mortos essas pessoas tiveram”, afirmou.
Marcília também mencionou Maria Celeste Vidal e a médica e nutricionista Nair Teodósio. Esta última trabalhou com Josué de Castro e desenvolveu alternativas alimentares para o combate à fome, à anemia e à mortalidade infantil.
Segundo a historiadora, a violência sofrida pelas mulheres presas durante a ditadura incorporava formas específicas de tortura física, psicológica e sexual. A tentativa de destruir politicamente as militantes passava também pela violência dirigida à sua condição de mulheres.
Marcília relatou que, durante sua trajetória de trabalho com o acervo do Departamento de Ordem Política e Social, o DOPS, teve contato com familiares de vítimas e ex-militantes que compartilharam relatos sobre a repressão.
“Os relatos são terríveis. São relatos que realmente assustam e assombram”, afirmou.
A ex-presidenta Dilma Rousseff também foi mencionada pela historiadora ao tratar das mulheres perseguidas e torturadas durante a ditadura. Marcília destacou a resistência das militantes submetidas às sessões de interrogatório e tortura.
“Resistir a salas de tortura com todos os expedientes, com requinte de crueldade, perversidade e sadismo, é um mérito que não tem reconhecimento público que cubra”, declarou.
Outra personagem lembrada foi a atriz Bete Mendes, militante política presa e torturada durante a ditadura. Marcília relatou que teve contato com a atriz durante um evento realizado em 2005 no Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano, em Pernambuco.
Segundo a historiadora, as sequelas da violência sofrida acompanharam Bete Mendes por décadas. Marcília associou sua trajetória política à defesa de melhores condições sociais e à luta pela reforma agrária.
“A grande maioria dessas mulheres teve uma luta na reforma agrária. Reforma agrária essa que até hoje nunca saiu do papel”, afirmou.
A historiadora relacionou a questão agrária às disputas políticas que antecederam o golpe de 1964 e às reformas de base defendidas pelo governo João Goulart. Para ela, mulheres participaram diretamente dessas mobilizações e, posteriormente, tiveram atuação importante também na campanha pela anistia.
Elizabeth Teixeira e as mulheres que sustentaram famílias inteiras
Ao discutir a agricultura familiar, Marcília Gama destacou a trajetória de Elizabeth Teixeira, liderança das Ligas Camponesas na Paraíba. Viúva de João Pedro Teixeira, assassinado em 1962, Elizabeth continuou sua atuação política e precisou viver na clandestinidade durante a ditadura.
“Elizabeth Teixeira foi uma grande batalhadora na Paraíba. Teve o marido assassinado e depois teve que espalhar seus filhos com identidade desconhecida, e ela mesma também, para estar viva, para poder sobreviver”, afirmou.
Para Marcília, a participação das mulheres na agricultura não pode ser compreendida apenas por meio das lideranças mais conhecidas. Processos trabalhistas, documentos públicos e arquivos históricos mostram trabalhadoras que assumiram integralmente o sustento das famílias após a morte ou o desaparecimento de seus companheiros.
A historiadora citou o caso de Benedita Ramos, uma trabalhadora rural viúva, mãe de oito filhos, que procurou a Justiça do Trabalho para pedir a redução de sua carga de trabalho no corte da cana.
Segundo o relato apresentado na entrevista, Benedita precisava cortar a cana, organizar e amarrar os feixes. Aos 53 anos, o desgaste provocado pelas condições de trabalho fazia com que aparentasse ser muito mais velha.
Marcília utilizou o caso para mostrar uma dimensão frequentemente ausente dos relatos sobre o trabalho rural: mulheres que conciliavam o cuidado dos filhos com jornadas exaustivas no campo, sob alimentação precária e forte exposição ao sol.
“Elas saem para prover o alimento de sua família. Elas vão para o campo, limpam, afofam a terra, escavam a terra, plantam”, descreveu.
A professora também destacou a presença feminina contemporânea em movimentos sociais, especialmente no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, e na expansão da agricultura familiar e da produção orgânica.
“Essas mulheres estão à frente disso e são poucas, são invisibilizadas”, afirmou.
Para Marcília, uma das contribuições mais importantes das mulheres foi romper com a concepção de que seu espaço social estaria restrito ao trabalho doméstico.
“A primeira grande contribuição é essa mudança de paradigma, de que mulher foi feita para o lar, mulher foi feita para cuidar dos filhos e da casa. Não só para isso. As mulheres podem estar em qualquer lugar”, declarou.
Reconhecimento histórico, direitos e participação política
Questionada sobre as políticas e ações necessárias para enfrentar a desigualdade de gênero e a violência no campo, Marcília defendeu a valorização da história das mulheres nas escolas e nos livros didáticos.
Para a historiadora, é necessário retirar do silêncio as trajetórias femininas e apresentar às novas gerações a participação das mulheres nos movimentos sociais, nas lutas trabalhistas, na política institucional e na resistência democrática.
“É preciso acabar com esse silenciamento e essa invisibilidade feminina”, afirmou.
Marcília também defendeu a garantia efetiva de direitos e proteção jurídica para as trabalhadoras, além de mudanças na educação e na formação social diante da persistência do machismo e da misoginia.
A professora destacou ainda a distância entre o peso das mulheres no eleitorado brasileiro e sua presença nos parlamentos municipais, estaduais e no Congresso Nacional.
“Somos a maior representação de votos no país. No entanto, esse não é um percentual igual nos parlamentos”, observou.
Entre as mulheres com trajetória na política institucional, Marcília destacou Luiza Erundina, primeira mulher eleita para a Prefeitura de São Paulo. A historiadora ressaltou a longa trajetória parlamentar da deputada e sua vinculação com as lutas sociais.
A organização das mulheres nas periferias
Na parte final da entrevista, Marcília Gama relacionou a luta das mulheres do campo à organização feminina nas periferias urbanas. A historiadora relatou a experiência de um projeto de recuperação da memória das comunidades da zona oeste do Recife.
Segundo ela, o levantamento revelou a importância das mulheres nas associações de moradores e nas mobilizações por transporte, habitação, abastecimento de água, saúde e saneamento.
Marcília citou comunidades e localidades como Alto José do Pinho, Córrego do Jenipapo, Sítio dos Pintos e Dois Irmãos. O trabalho de pesquisa, segundo ela, será transformado em uma publicação coletiva.
A historiadora recordou as condições enfrentadas por moradoras de áreas de morro, que carregavam latas de água por ladeiras sem infraestrutura para garantir as necessidades básicas de suas famílias.
“A conquista que se tem hoje nos morros da cidade do Recife deve-se ao papel dessas mulheres invisíveis, mas que lutaram por melhores condições de vida, de habitação e de saúde”, afirmou.
Ao deixar uma mensagem para jovens mulheres que pretendem assumir posições de liderança em suas comunidades, Marcília apontou a organização coletiva como condição fundamental para conquistar direitos e ampliar a participação feminina.
“A organização, para mim, é a melhor forma de você conseguir conquistar um lugar ao sol num cenário extremamente masculino”, concluiu.
O programa Café com Democracia é apresentado por Luiz Regadas e transmitido de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 8h, pela TV Atitude Popular.
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