BRICS discutem conectar sistemas de pagamento e moedas digitais para reduzir custos e dependência financeira

Da RT

Brasil, China, Índia, Rússia e demais integrantes do bloco estudam interligar sistemas de pagamentos instantâneos e moedas digitais de bancos centrais. Proposta pode baratear transações internacionais e criar uma infraestrutura financeira menos dependente dos circuitos tradicionais dominados pelo dólar.

Os BRICS avançam em uma discussão que pode mexer com uma das estruturas mais estratégicas da economia mundial: a forma como o dinheiro atravessa fronteiras. Países do bloco estão analisando a possibilidade de interligar seus sistemas nacionais de pagamentos instantâneos e suas moedas digitais de bancos centrais, permitindo que transferências internacionais sejam realizadas com maior velocidade e custos menores.

A informação foi confirmada nesta terça-feira (11) pelo governador do Banco Central da Índia, Sanjay Malhotra. Segundo ele, pagamentos transfronteiriços constituem uma área de interesse comum aos BRICS e existem diferentes alternativas em discussão, entre elas a conexão dos sistemas rápidos de pagamento e das chamadas CBDCs — moedas digitais emitidas pelos bancos centrais.

O movimento é especialmente importante para o Brasil porque ocorre simultaneamente ao avanço da internacionalização do Pix. Nesta semana, o Banco Central brasileiro indicou intenção mais clara de buscar conexões entre o sistema brasileiro e infraestruturas estrangeiras, com o objetivo de reduzir custos e acelerar transferências internacionais.

Não significa que esteja sendo criada uma “moeda dos BRICS”.

O que está sendo discutido é algo potencialmente mais concreto: construir pontes entre infraestruturas financeiras que já existem nos diferentes países, permitindo que pagamentos internacionais circulem de maneira mais direta.

Do Pix brasileiro ao UPI indiano

A Índia possui uma experiência semelhante à brasileira com pagamentos instantâneos. Seu Unified Payments Interface (UPI) permite transferências em tempo real e tornou-se uma infraestrutura fundamental do sistema financeiro indiano.

Malhotra utilizou justamente essa experiência para explicar a lógica da proposta. Se transferências domésticas já podem ocorrer praticamente de maneira instantânea, questionou o dirigente do banco central indiano, não há razão tecnológica para que remessas internacionais continuem necessariamente levando horas ou dias.

O raciocínio tem enorme importância para países em desenvolvimento.

Pagamentos internacionais tradicionais podem envolver bancos correspondentes, conversões cambiais e diferentes intermediários. Cada etapa acrescenta custos e pode aumentar o tempo necessário para concluir uma operação.

Uma infraestrutura capaz de conectar sistemas nacionais poderia reduzir parte dessa fricção.

Para trabalhadores migrantes que enviam dinheiro às famílias, turistas, pequenas empresas e exportadores, alguns pontos percentuais a menos de custo em uma transferência podem representar uma diferença econômica concreta.

Índia quer colocar tema no centro da cúpula dos BRICS

A proposta já vinha sendo preparada antes da declaração desta semana.

Em janeiro, a Reuters revelou que o Banco Central da Índia havia proposto incluir na agenda da presidência indiana dos BRICS em 2026 a possibilidade de conectar moedas digitais oficiais dos países integrantes, especialmente para facilitar pagamentos relacionados ao comércio e ao turismo.

Agora, Malhotra confirma publicamente que a discussão envolve tanto CBDCs quanto sistemas rápidos de pagamento.

A questão deverá ganhar ainda mais importância na cúpula dos BRICS que a Índia sediará nos dias 12 e 13 de setembro.

O debate chega ao encontro em um momento de crescente fragmentação da economia internacional.

Sanções financeiras, guerras comerciais e disputas geopolíticas demonstraram que sistemas de pagamento, moedas de reserva e infraestrutura bancária não são instrumentos politicamente neutros. Eles constituem também formas de poder.

Não é uma moeda única dos BRICS

A distinção é fundamental.

A Índia deixou claro que prefere ampliar pagamentos internacionais utilizando moedas nacionais, em vez de construir neste momento uma moeda única para o bloco.

Essa posição coincide em parte com a estratégia defendida anteriormente pelo Brasil.

Durante a presidência brasileira dos BRICS em 2025, Brasília não priorizou a criação imediata de uma moeda comum. O esforço concentrou-se em facilitar pagamentos transfronteiriços e ampliar possibilidades de utilização das moedas nacionais no comércio internacional.

Isso muda bastante a natureza do projeto.

Criar uma moeda supranacional exigiria enfrentar questões extremamente complexas relacionadas a política monetária, reservas, governança, taxas de câmbio e coordenação entre economias profundamente diferentes.

Interligar sistemas existentes pode ser uma trajetória mais gradual.

Brasil poderia preservar o real e o Pix. A Índia continuaria utilizando a rupia e suas próprias infraestruturas. A China manteria o yuan e seus sistemas. O objetivo seria construir mecanismos para que essas redes consigam conversar diretamente umas com as outras.

Brasil chega à discussão com o Pix como ativo estratégico

Nesse cenário, o Brasil possui uma vantagem importante.

O Pix transformou-se em uma infraestrutura de enorme escala. Segundo dados do Banco Central citados pela Reuters, o sistema processou quase 80 bilhões de transações, movimentando mais de R$ 35 trilhões em 2025.

O Banco Central brasileiro também passou a estudar mais claramente conexões internacionais para o Pix.

Segundo a Reuters, a instituição já mantém acordos de compartilhamento de informações com 65 países, incluindo África do Sul, Alemanha, Canadá e Turquia, enquanto avalia caminhos para interoperabilidade internacional.

Isso significa que o Brasil não chega à discussão dos BRICS apenas como participante diplomático.

Chega com uma tecnologia pública de pagamentos que já funciona em escala continental.

A experiência brasileira pode, portanto, tornar-se uma das peças de uma futura arquitetura de pagamentos do Sul Global.

A discussão também envolve moedas digitais

Existe uma segunda frente ainda mais profunda: as CBDCs.

China, Índia, Rússia e Brasil já realizaram experiências ou projetos-piloto envolvendo moedas digitais emitidas ou desenvolvidas por seus bancos centrais.

Essas moedas são diferentes de criptomoedas privadas como Bitcoin.

Uma CBDC representa uma forma digital de moeda oficial associada à autoridade monetária do país. Dependendo do modelo adotado, ela pode permitir liquidações programáveis e novas formas de integração entre instituições financeiras.

A possibilidade estudada pelos BRICS seria fazer com que diferentes moedas digitais nacionais conseguissem operar de maneira interoperável.

Na prática, isso poderia criar novas rotas para pagamentos internacionais sem exigir uma única moeda supranacional.

Mas o projeto está em fase de discussão. Não existe neste momento uma plataforma integrada dos BRICS pronta para substituir os sistemas financeiros internacionais existentes.

O ponto estratégico é reduzir intermediários

A discussão ganha dimensão geopolítica porque grande parte da arquitetura financeira internacional construída no pós-guerra está associada ao dólar e a instituições sob forte influência dos Estados Unidos e de seus aliados.

A Rússia vem defendendo de maneira mais explícita a criação de sistemas alternativos capazes de funcionar mesmo diante de sanções ocidentais. Moscou já apresentou propostas de uma plataforma de pagamentos dos BRICS menos vulnerável à exclusão de países das redes financeiras tradicionais.

Brasil e Índia, porém, adotam uma formulação geralmente mais pragmática.

O objetivo declarado não precisa ser “derrubar o dólar”, mas reduzir custos, diversificar opções e diminuir vulnerabilidades decorrentes da dependência excessiva de uma única infraestrutura financeira internacional.

Essa diferença importa.

O dólar continua sendo a principal moeda do sistema financeiro internacional, e nenhuma conexão entre pagamentos dos BRICS alterará essa realidade rapidamente.

Mas sistemas financeiros globais não precisam funcionar segundo uma lógica de tudo ou nada.

A criação de alternativas pode reduzir gradualmente a necessidade de utilizar o dólar como intermediário em determinadas transações entre países que comercializam diretamente entre si.

A verdadeira disputa é pela infraestrutura

É nesse ponto que o tema ganha uma dimensão que vai além da moeda.

Quem controla uma infraestrutura financeira controla parte das condições pelas quais a economia funciona.

Sistemas de pagamento determinam custos, velocidade, dados disponíveis, intermediários necessários e capacidade de excluir determinados participantes.

As sanções impostas nos últimos anos demonstraram que redes financeiras internacionais também podem ser utilizadas como instrumentos de pressão geopolítica.

Por isso, construir alternativas não significa necessariamente romper com as estruturas existentes.

Significa reduzir a dependência delas.

Para o Sul Global, essa diferença pode ser decisiva.

Pix pode se tornar parte de uma arquitetura financeira multipolar

O Brasil está diante de uma oportunidade particularmente interessante.

Em poucos anos, o país construiu uma infraestrutura pública de pagamentos que alcançou enorme escala doméstica. Agora, simultaneamente, aparecem duas possibilidades de internacionalização: conexões bilaterais do Pix com sistemas estrangeiros e uma discussão multilateral dentro dos BRICS.

Se esses processos avançarem, o Pix poderá deixar de ser apenas uma inovação brasileira para tornar-se parte de uma arquitetura internacional mais ampla.

Isso não significa entregar o sistema brasileiro a outros países.

Ao contrário: a lógica da interoperabilidade é permitir que sistemas nacionais preservem sua autonomia enquanto criam mecanismos técnicos para realizar operações entre si.

É justamente aí que tecnologia e soberania podem caminhar juntas.

Uma infraestrutura financeira do Sul Global começa a sair do discurso

Durante anos, propostas de “desdolarização” dos BRICS foram apresentadas como projetos distantes ou como uma disputa sobre a criação de uma moeda comum.

O debate atual é diferente.

Em vez de começar pela construção de uma nova moeda mundial, os países discutem conectar aquilo que já possuem.

Pix no Brasil. UPI na Índia. Sistemas chineses de pagamentos. Moedas digitais de bancos centrais. Liquidações em moedas nacionais.

Cada peça isoladamente parece apenas uma inovação financeira.

Conectadas, podem formar algo muito maior: uma infraestrutura capaz de permitir que uma parcela crescente do comércio e dos pagamentos entre países do Sul Global seja realizada diretamente, com menor custo e menor dependência de intermediários externos.

A transformação não acontecerá de uma vez e enfrenta enormes desafios técnicos, regulatórios, cambiais e políticos. O próprio governador do Banco Central indiano deixou claro que diferentes alternativas ainda estão sendo discutidas.

Mas a direção do movimento começa a ficar visível.

A questão estratégica para o Brasil não é escolher entre relacionar-se com Estados Unidos, China, Índia ou qualquer outro parceiro. É possuir infraestrutura e autonomia suficientes para relacionar-se com todos sem depender exclusivamente de nenhum.

Se a conexão dos sistemas dos BRICS avançar, o bloco poderá começar a construir uma das peças que faltavam para transformar a multipolaridade política em multipolaridade econômica: uma rede financeira na qual países do Sul Global consigam pagar uns aos outros de forma mais rápida, barata e soberana.