Convenções partidárias, pesquisas, alianças estaduais, disputa pelo Senado e guerra digital começam a definir a eleição que chegará às urnas em outubro
Da Redação
A eleição presidencial de 2026 entrou em uma nova etapa neste início de agosto. Depois de meses de pré-campanha, testes de nomes, negociações partidárias e disputas internas, as convenções começam a transformar possibilidades em candidaturas concretas. Ao mesmo tempo, a corrida presidencial se estreita em torno de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, enquanto a direita tenta organizar uma candidatura competitiva e o campo progressista enfrenta disputas internas, especialmente nos estados.
O quadro nacional é marcado por uma contradição importante: Lula chega à largada oficial da campanha com vantagem em parte dos levantamentos, mas Flávio Bolsonaro reduziu a distância e tornou a eleição novamente altamente competitiva. Pesquisa Nexus/BTG divulgada nesta segunda-feira (3) mostra uma aproximação entre os dois, enquanto levantamento AtlasIntel/Bloomberg divulgado na semana passada ainda apontava vantagem de Lula em um eventual segundo turno.
A diferença entre os levantamentos não deve ser lida como contradição absoluta. Ela revela justamente o estágio da disputa: há uma eleição aberta, com eleitorado ainda sujeito a mudanças e com a capacidade de cada campanha de consolidar alianças, ampliar rejeições e transformar acontecimentos políticos em voto ainda sendo testada.
O que está em jogo, portanto, não é apenas quem lidera uma pesquisa específica. É a formação de dois grandes campos políticos para outubro.
Lula oficializa a busca pelo quarto mandato
O Partido dos Trabalhadores confirmou oficialmente a candidatura de Lula à Presidência durante a convenção nacional da legenda realizada neste fim de semana.
Aos 80 anos, Lula parte para aquela que provavelmente será sua última disputa presidencial. Será sua sétima candidatura ao Palácio do Planalto, em uma trajetória que atravessa praticamente toda a história da democracia brasileira desde a redemocratização.
A campanha petista procura apresentar a eleição como uma disputa sobre soberania, desenvolvimento, políticas sociais e defesa da democracia.
No discurso de lançamento, Lula enfatizou a proteção dos recursos minerais estratégicos brasileiros, o fortalecimento da indústria de defesa e a necessidade de ampliar a autonomia do país diante das grandes potências. A fala ocorre justamente quando o governo enfrenta uma escalada de tensão com Washington e acusa setores ligados à direita internacional de tentar interferir na política brasileira.
A estratégia tem uma lógica política clara.
O PT pretende deslocar a eleição de uma simples disputa entre Lula e o sobrenome Bolsonaro para uma escolha entre dois projetos de país.
De um lado, a defesa de um Estado capaz de investir, regular e proteger setores estratégicos. Do outro, uma direita que busca apresentar o governo petista como símbolo de excesso de gastos, intervenção estatal e alinhamento ideológico.
A campanha de Lula também aposta em temas de forte impacto cotidiano, como mudanças no Imposto de Renda e programas de renegociação de dívidas. Segundo a Associated Press, essas propostas estão entre as iniciativas que o governo considera capazes de ampliar sua conexão com setores de baixa renda.
Flávio Bolsonaro cresce e transforma a eleição em disputa de verdade
A principal mudança no cenário nacional está na consolidação de Flávio Bolsonaro como candidato da direita.
O senador conseguiu superar uma fase inicial de incerteza em torno da sucessão do pai e passou a ocupar o espaço de principal adversário de Lula.
A pesquisa Nexus/BTG divulgada nesta segunda-feira mostra justamente essa aproximação. A Reuters descreve o levantamento como um sinal de forte encurtamento da distância entre os dois candidatos.
O dado precisa ser colocado em perspectiva.
No fim de julho, o AtlasIntel/Bloomberg registrava Lula com 49,2% contra 42,9% de Flávio em um eventual segundo turno. Em junho, os números eram 48,8% e 42,3%, respectivamente.
Ou seja, Lula ainda aparece à frente nesse levantamento, mas a diferença não é suficiente para transformar a eleição em um processo resolvido.
E há outro dado importante: pesquisas anteriores já haviam registrado empates técnicos entre os dois. A série de levantamentos mostra que a disputa Lula-Flávio passou por momentos de vantagem de um e de outro, indicando um eleitorado altamente polarizado.
É justamente por isso que a campanha presidencial começa a assumir uma característica cada vez mais semelhante à de 2022: o segundo turno começa a organizar o primeiro.
A direita tem candidato, mas ainda não tem uma coalizão consolidada
O problema de Flávio Bolsonaro não é apenas eleitoral.
É também político.
A direita brasileira possui uma base social extremamente sólida, mas não conseguiu até agora reproduzir automaticamente a coalizão que levou Jair Bolsonaro ao segundo turno em 2022.
Um dos principais sinais disso foi a decisão do Progressistas de permanecer neutro na disputa presidencial. O partido é uma das maiores forças conservadoras do Congresso e vinha sendo cortejado pela campanha de Flávio. A neutralidade representa um obstáculo para a tentativa do senador de ampliar sua base para além do núcleo bolsonarista.
A questão é estrutural.
Para vencer Lula, Flávio precisa fazer três coisas simultaneamente:
- preservar o eleitorado bolsonarista;
- atrair o centro-direita que não necessariamente se identifica com Jair Bolsonaro;
- reduzir a rejeição suficiente para ganhar uma eleição nacional.
A primeira tarefa parece mais simples.
A segunda é difícil.
A terceira é provavelmente a mais decisiva.
O bolsonarismo possui uma base eleitoral extremamente mobilizada, mas uma candidatura presidencial precisa ultrapassar os limites dessa base. É necessário conquistar eleitores que não participam organicamente da militância e que podem rejeitar tanto Lula quanto o sobrenome Bolsonaro.
A internacionalização da disputa
A eleição brasileira também adquiriu uma dimensão internacional incomum.
Flávio Bolsonaro recebeu manifestações públicas de apoio de atores estrangeiros de grande peso político, incluindo setores ligados ao governo de Donald Trump, Javier Milei e Benjamin Netanyahu.
A aproximação com Washington ganhou importância depois da escalada das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos.
O governo Lula passou a denunciar aquilo que considera uma tentativa de pressão externa sobre o país, enquanto aliados de Trump sustentam uma narrativa de defesa de Bolsonaro e fazem críticas às instituições brasileiras.
A situação chegou a envolver acusações de possível interferência sobre o processo eleitoral e discussões envolvendo redes sociais, desinformação e campanhas automatizadas.
A Casa Branca nega intenção de interferência.
Mas, politicamente, o conflito produz um efeito importante: a eleição brasileira passou a ser apresentada também como uma disputa pela soberania nacional.
Isso interessa particularmente ao governo Lula porque permite ao presidente transformar uma eventual pressão externa em elemento de mobilização nacionalista.
A mensagem é simples: o eleitor não estaria escolhendo apenas entre Lula e Flávio, mas entre diferentes concepções sobre a posição do Brasil no mundo.
A guerra digital será uma das principais frentes da campanha
A dimensão digital deverá ser ainda mais importante em 2026 do que foi nas eleições anteriores.
Documentos e pesquisas citados em material produzido para a discussão eleitoral apontam para o aumento do uso político de inteligência artificial, especialmente na produção de conteúdos falsos e manipulados. Uma pesquisa mencionada no material registra crescimento de 308% na disseminação de conteúdos falsos produzidos com IA entre 2024 e 2025 no Brasil.
O problema não é apenas a existência de deepfakes.
É a escala.
A inteligência artificial permite produzir simultaneamente milhares de imagens, vídeos, áudios e textos adaptados a diferentes públicos.
A campanha deixa de produzir uma mensagem única para milhões de pessoas e passa a produzir milhões de mensagens potencialmente diferentes para grupos específicos.
Esse é um salto qualitativo.
Pesquisas mencionadas no mesmo material apontam que usuários têm dificuldade crescente para identificar conteúdos produzidos artificialmente.
A consequência eleitoral é profunda.
A disputa deixa de ser apenas por atenção.
Passa a ser também uma disputa pela percepção da realidade.
O eleitor pode não saber mais apenas em quem votar — pode não saber no que acreditar
A eleição de 2026 deverá ser marcada por uma espécie de batalha permanente pela credibilidade.
Um vídeo pode parecer autêntico.
Um áudio pode parecer verdadeiro.
Uma declaração pode ter sido realmente pronunciada, mas editada de maneira a produzir um significado completamente diferente.
Uma fotografia pode ser verdadeira e, ainda assim, ser apresentada fora de contexto.
E um conteúdo falso pode circular simultaneamente em dezenas de plataformas, fazendo com que a repetição seja confundida com confirmação.
Estudos sobre eleições brasileiras anteriores já identificaram a presença de redes automatizadas e comportamentos coordenados em ambientes digitais. Uma pesquisa acadêmica analisou centenas de milhões de publicações relacionadas às eleições brasileiras de 2018 e 2022 e encontrou padrões de atividade associados à utilização de bots e redes coordenadas.
A eleição de 2026 acrescenta uma variável nova: a capacidade da IA de baratear e acelerar a fabricação desses conteúdos.
Ceará: a disputa que concentra parte das contradições nacionais
Se a eleição presidencial é nacional, o Ceará funciona como uma espécie de laboratório das contradições políticas brasileiras.
O estado reúne uma disputa entre Ciro Gomes e Elmano de Freitas, a reorganização do campo petista após a saída de Luizianne Lins, a aproximação de setores do bolsonarismo com Ciro e a disputa pelas duas vagas ao Senado.
Ciro confirmou sua candidatura ao governo pelo PSDB e adotou segurança pública e combate às facções como elementos centrais do discurso. Pesquisa Genial/Quaest anterior mostrou o ex-ministro à frente de Elmano em determinado cenário, embora a vantagem dependa fortemente da composição da disputa.
Outra pesquisa, da AtlasIntel, havia apontado Ciro com 46,2% e Elmano com 42,6% no primeiro turno, tecnicamente próximos dentro da margem de erro. No cenário com Camilo Santana no lugar de Elmano, Camilo aparecia à frente de Ciro.
O quadro demonstra que a eleição estadual não está definida.
A ruptura de Luizianne altera o campo progressista
A saída de Luizianne Lins do PT e sua candidatura pelo PSOL/Rede introduziram uma variável importante.
Luizianne possui uma trajetória política própria e mantém vínculos históricos com setores da esquerda cearense.
Sua presença na disputa pelo Senado significa que parte do eleitorado progressista terá uma alternativa diretamente identificada com uma esquerda mais autônoma em relação à composição governista.
Isso altera o cálculo da chapa de Elmano.
Durante meses, a candidatura de Luizianne ao Senado foi defendida por movimentos sociais, setores sindicais e militantes do PT.
A escolha de Gabriella Aguiar para a vice-governadoria também reorganizou o argumento sobre a presença feminina na chapa.
A política cearense passou, assim, a ser atravessada por uma questão que extrapola o simples preenchimento de cargos: quem representa a esquerda e quem controla sua representação institucional?
Gabriella Aguiar e a nova arquitetura da chapa governista
A escolha de Gabriella Aguiar como candidata a vice-governadora fortaleceu a presença do PSD na coalizão governista e resolveu uma parte da equação eleitoral.
Ao mesmo tempo, deixou aberta a discussão sobre as vagas ao Senado.
Chiquinho Feitosa afirmou que abriu mão da candidatura ao Senado para preservar a unidade da base, mencionando também o recuo de Eunício Oliveira.
Esse movimento mostra a dificuldade de construir uma chapa majoritária quando vários partidos precisam ser contemplados simultaneamente.
O problema não é apenas ideológico.
É matemático.
São poucos espaços para muitos interesses.
E cada vaga ocupada por um partido deixa de estar disponível para outro.
O Senado se transforma em uma eleição dentro da eleição
No Ceará, a disputa pelo Senado possui uma característica própria.
As candidaturas majoritárias precisam disputar simultaneamente diferentes segmentos:
- eleitorado governista;
- esquerda histórica;
- centro político;
- grupos empresariais;
- lideranças municipais;
- movimentos sociais;
- eleitorado evangélico;
- setores conservadores;
- eleitorado independente.
Por isso, a composição da chapa estadual não é um detalhe.
Ela pode definir a capacidade de cada grupo de transferir votos.
A presença de Luizianne torna esse cálculo ainda mais complexo, porque ela pode disputar diretamente uma parcela do eleitorado que, em outras circunstâncias, poderia ser incorporada integralmente pela chapa governista.
Uma pesquisa Real Time Big Data de maio já mostrava Luizianne aparecendo competitivamente em diferentes cenários para o Senado no Ceará, embora com variações importantes conforme os nomes incluídos.
Ciro: da disputa estadual à tentativa de ocupar o campo antipetista
Ciro Gomes também representa uma questão nacional.
Sua estratégia no Ceará parece buscar uma posição que combine crítica ao PT com independência relativa em relação ao bolsonarismo.
Mas esse espaço é estreito.
A direita precisa decidir se Ciro é um aliado potencial ou um adversário.
O próprio conflito entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro teve como pano de fundo a aproximação do PL cearense com Ciro Gomes. Michelle defendia Eduardo Girão e criticava a aproximação com o ex-ministro.
Isso demonstra que Ciro não é apenas um candidato regional.
Sua candidatura interfere no processo de reorganização da direita brasileira.
A crise entre Michelle e Flávio revela uma disputa maior
A família Bolsonaro também enfrenta suas próprias contradições.
O conflito público entre Michelle Bolsonaro e Flávio sobre os rumos do PL no Ceará expôs uma divergência estratégica: até onde o bolsonarismo deve negociar com setores políticos tradicionais para ampliar sua capacidade eleitoral?
Michelle tem defendido uma postura mais rígida em relação a determinadas alianças.
Flávio, por sua vez, precisa ampliar sua base.
Essa diferença revela um dilema central da candidatura presidencial.
O bolsonarismo nasceu como força de ruptura com o sistema político tradicional.
Para vencer uma eleição nacional, porém, precisa fazer acordos com parte desse mesmo sistema.
É uma contradição que acompanha a candidatura desde sua formação.
A eleição também será decidida pelos governadores
Uma característica da disputa de 2026 é a importância crescente das eleições estaduais.
Governadores controlam máquinas administrativas, possuem redes municipais, exercem influência sobre parlamentares e ajudam a organizar palanques presidenciais.
Por isso, o resultado no Ceará interessa diretamente à eleição nacional.
O mesmo ocorre em Bahia, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco, Paraná e Rio Grande do Sul.
A eleição presidencial não acontece em um vazio.
Ela é construída em milhares de negociações locais.
Bahia: Rui Costa, Jaques Wagner e Jerônimo no mesmo palanque
Na Bahia, o grupo governista chega à campanha tentando apresentar unidade.
Rui Costa, Jaques Wagner e Jerônimo Rodrigues aparecem integrados ao projeto político associado ao presidente Lula.
Ao mesmo tempo, a direita procura ampliar sua presença em um estado historicamente importante para o petismo.
A Bahia também tem importância simbólica porque representa uma das principais bases eleitorais de Lula no Nordeste.
No último levantamento Atlas citado anteriormente, o Nordeste aparecia com vantagem expressiva para Lula em eventual segundo turno: 59% contra 32% de Flávio Bolsonaro.
Esse número ajuda a compreender a estratégia das duas campanhas.
Para Lula, preservar o Nordeste é fundamental.
Para Flávio, reduzir a diferença na região pode ser decisivo para tornar viável uma vitória nacional.
O Nordeste continua sendo uma peça estratégica
O levantamento BTG/Nexus citado acima mostra uma fotografia bastante reveladora da polarização social.
Naquele levantamento, Lula aparecia com 59% contra 32% de Flávio no Nordeste.
Já entre eleitores com renda superior a cinco salários mínimos, Flávio chegava a 51%, contra 44% de Lula. Entre os que ganhavam até um salário mínimo, Lula alcançava 55%, contra 32% de Flávio.
Isso mostra que a eleição continua atravessada por fatores econômicos.
A disputa não é apenas ideológica.
É também uma disputa sobre renda, emprego, custo de vida, impostos, serviços públicos e percepção de futuro.
A economia será o verdadeiro campo de batalha
O governo Lula tentará transformar indicadores econômicos e políticas de transferência de renda em argumentos eleitorais.
A oposição tentará fazer o contrário: transformar inflação, custo de vida, impostos e percepção de deterioração econômica em instrumentos de desgaste.
A disputa pelo eleitor indeciso passará muito menos pelas grandes formulações ideológicas do que por uma pergunta simples:
A vida melhorou ou piorou?
Essa avaliação subjetiva pode decidir milhões de votos.
O eleitor pode ignorar indicadores macroeconômicos se sentir que perdeu poder de compra.
Da mesma maneira, pode relativizar problemas fiscais se perceber aumento de renda e emprego.
É nesse terreno que a campanha será travada.
A esquerda também enfrenta uma questão de organização
O campo progressista possui uma vantagem eleitoral importante: Lula ainda dispõe de uma estrutura partidária e social muito ampla.
Mas enfrenta um problema: a fragmentação das esquerdas.
O caso de Luizianne no Ceará é um exemplo.
A saída de uma liderança histórica do PT para disputar o Senado por outra federação cria uma competição dentro do próprio campo progressista.
Esse fenômeno pode aparecer em outros estados.
A eleição presidencial tende a produzir uma concentração nacional em torno de Lula, mas as eleições proporcionais e estaduais podem continuar fragmentadas.
O desafio será impedir que essa fragmentação se transforme em conflito destrutivo.
Mulheres entram no centro da disputa
A questão de gênero também ganhou centralidade.
Ataques de Ciro Gomes a mulheres petistas provocaram reação de setores da esquerda e de movimentos feministas, que passaram a denunciar aquilo que classificam como misoginia e tentativa de deslegitimação da atuação política feminina.
O episódio é significativo porque ocorre justamente em uma eleição na qual várias disputas importantes são protagonizadas por mulheres.
Luizianne Lins é um exemplo.
Michelle Bolsonaro é outro.
Gabriella Aguiar também ocupa posição estratégica.
E a presença feminina deixa de ser apenas uma questão de representatividade para se transformar em componente da própria disputa pelo poder.
O Congresso será tão importante quanto o Planalto
Uma eventual vitória de Lula não significará automaticamente maioria política no Congresso.
Esse é um dos grandes problemas que a campanha começa a enfrentar.
O material produzido para o debate eleitoral da Atitude Popular registra a avaliação do deputado Acrísio Sena de que o Congresso brasileiro está mais próximo dos interesses do grande capital do que dos interesses populares.
A avaliação expressa uma preocupação concreta do campo progressista.
Temas como:
- escala 6×1;
- regulamentação das plataformas;
- direitos trabalhistas;
- segurança pública;
- tributação;
- orçamento;
- emendas parlamentares;
- políticas sociais;
- proteção ambiental;
dependem da correlação de forças no Legislativo.
Por isso, a eleição de 2026 será simultaneamente uma eleição presidencial e uma eleição parlamentar.
A batalha pelas emendas e pelo fundo partidário
Outro eixo da campanha será a disputa sobre o financiamento da política.
O debate em torno das emendas parlamentares, do fundo partidário e do financiamento eleitoral deverá ganhar força à medida que os candidatos tentarem se apresentar como representantes de uma política mais próxima da população.
Ao mesmo tempo, os parlamentares defenderão os instrumentos que lhes garantem capacidade de investimento em suas bases eleitorais.
O problema é que o eleitor costuma enxergar a política por meio de uma contradição:
quer investimentos em sua cidade, mas desconfia dos mecanismos usados para distribuí-los.
Esse paradoxo estará no centro da disputa parlamentar.
O eleitorado idoso também ganha peso
A campanha de Lula já começou a incorporar políticas específicas para a população idosa.
A proposta de criar espaços públicos de convivência, cultura e cuidados mostra que a campanha percebeu uma transformação demográfica com enorme consequência eleitoral.
O eleitorado com mais de 60 anos cresceu muito mais rapidamente do que o conjunto do eleitorado brasileiro.
O material utilizado pela Atitude Popular registra estimativa de crescimento de 20,8 milhões de idosos em 2010 para 36,2 milhões em 2026.
Esse eleitorado não é politicamente homogêneo.
Mas possui características importantes: maior comparecimento eleitoral, preocupação com aposentadoria, saúde, medicamentos, segurança, mobilidade e proteção familiar.
A eleição terá de falar com esse Brasil que envelhece.
O voto será disputado também pelo sentimento
Talvez a principal característica da eleição seja a combinação entre política material e política emocional.
Lula fala em soberania, desenvolvimento, renda e proteção social.
Flávio Bolsonaro mobiliza o legado do pai, a oposição ao PT e o discurso de segurança e conservadorismo.
Ciro aposta na crítica ao sistema político, na segurança pública e na experiência administrativa.
As campanhas precisarão transformar essas ideias em sentimentos.
Esperança. Medo. Orgulho nacional. Revolta. Segurança. Mudança. Continuidade.
É isso que organiza o comportamento eleitoral em eleições altamente polarizadas.
A eleição brasileira será também uma disputa sobre quem controla a narrativa
A batalha política de 2026 acontece simultaneamente em três espaços:
nas ruas, nas instituições e nas plataformas digitais.
Nas ruas, estão sindicatos, movimentos sociais, igrejas, associações, prefeitos, vereadores e lideranças comunitárias.
Nas instituições, estão partidos, Congresso, governos estaduais, Justiça Eleitoral e tribunais.
Nas plataformas, estão influenciadores, canais políticos, páginas anônimas, campanhas profissionais e redes automatizadas.
O problema é que esses três ambientes se retroalimentam.
Uma publicação viral pode virar pauta jornalística.
Uma declaração parlamentar pode virar vídeo.
Um discurso de campanha pode ser transformado em meme.
Uma decisão judicial pode virar argumento eleitoral.
A eleição, portanto, não terá um único palco.
Terá milhares.
A soberania digital entra definitivamente no debate eleitoral
O debate sobre tecnologia também coloca uma questão mais profunda: quem controla as infraestruturas através das quais os brasileiros recebem informação?
Material utilizado em debates eleitorais da Atitude Popular aponta que grande parte da comunicação pública e eleitoral brasileira depende de empresas estrangeiras, responsáveis por armazenar dados e controlar sistemas de distribuição de conteúdo.
Isso significa que uma campanha eleitoral contemporânea não disputa apenas votos.
Disputa infraestrutura.
Quem controla os dados possui capacidade de conhecer públicos.
Quem controla os algoritmos possui capacidade de distribuir mensagens.
Quem controla as plataformas possui capacidade de definir as condições em que o debate acontece.
Essa é uma questão que ultrapassa Lula e Flávio.
É uma questão sobre a própria democracia brasileira.
O grande paradoxo de 2026
A eleição chega a agosto com uma situação aparentemente contraditória.
Lula continua competitivo e lidera em vários cenários, mas Flávio Bolsonaro consolidou uma candidatura capaz de ameaçá-lo.
A direita possui uma base eleitoral forte, mas enfrenta dificuldades para construir uma coalizão ampla.
O PT controla a Presidência, mas enfrenta disputas internas e precisa ampliar sua presença parlamentar.
A esquerda possui uma liderança nacional consolidada, mas está fragmentada em alguns estados.
O bolsonarismo perdeu Jair Bolsonaro como candidato, mas preservou uma identidade política capaz de ser transferida para o filho.
A disputa eleitoral é nacional, mas será decidida em grande medida pelos estados.
E, acima de tudo, a eleição ainda não está decidida.
Da pré-campanha à campanha de verdade
O que muda a partir de agora é que as candidaturas deixam de poder se comportar apenas como hipóteses.
A campanha entra no período em que cada erro terá custo.
Cada declaração poderá virar manchete.
Cada aliança poderá provocar reação.
Cada pesquisa poderá alterar o comportamento dos partidos.
Cada vídeo poderá viralizar.
Cada ataque poderá produzir contra-ataque.
Cada voto conquistado no Nordeste poderá ser compensado por outro perdido no Sul.
E cada ponto percentual poderá significar milhões de eleitores.
O calendário eleitoral passa, portanto, a ser acompanhado por uma pergunta central:
qual dos dois grandes campos conseguirá transformar mobilização política em maioria eleitoral?
Lula aposta na continuidade, na experiência de governo, na política social e, cada vez mais, na soberania nacional.
Flávio Bolsonaro aposta na continuidade do bolsonarismo sem Jair Bolsonaro na urna, na mobilização conservadora e na capacidade de transformar a insatisfação com o governo em voto de mudança.
No Ceará, Ciro tenta construir uma terceira via estadual com forte discurso de segurança, enquanto Elmano busca defender a continuidade do projeto governista. Luizianne reorganiza o campo da esquerda ao disputar o Senado fora do PT. Gabriella Aguiar fortalece o PSD na chapa governista. E as negociações para o Senado revelam como cada espaço da coalizão será disputado até o último momento.
Na Bahia, o grupo de Lula procura preservar uma das suas principais bases regionais.
No Congresso, a disputa será por uma nova correlação de forças.
Nas redes, a batalha será pela atenção e pela confiança.
E no exterior, a eleição brasileira começa a ser tratada como peça importante da disputa geopolítica latino-americana.
É essa combinação — voto, dinheiro, território, tecnologia, mídia, alianças, soberania e emoção — que começa a definir a eleição de 2026.
E, embora o segundo turno ainda esteja distante, a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro já funciona como eixo organizador de praticamente todo o sistema político brasileiro.



