Monumento foi erguido em templo de quimbanda na Taíba, dentro de propriedade privada e com licenciamento dos órgãos públicos
Da Redação
Uma estátua de 11 metros de altura dedicada a uma entidade cultuada no Palácio Estrela Negra da Quimbanda, na Taíba, em São Gonçalo do Amarante, tornou-se alvo de ataques nas redes sociais e colocou em discussão os limites entre crítica religiosa e intolerância contra crenças minoritárias.
Segundo reportagem publicada nesta quinta-feira (6) pelo O POVO, o monumento foi inaugurado em 25 de julho, durante as comemorações pelos 29 anos do templo. A obra está instalada em propriedade privada e, de acordo com a Prefeitura de São Gonçalo do Amarante, recebeu Licença Ambiental e Alvará de Construção após cumprir as exigências urbanísticas e ambientais.
A imagem, popularmente apresentada como uma “estátua do Diabo”, ganhou ampla circulação nas redes sociais. A associação direta, porém, parte principalmente de uma interpretação cristã. O professor Bas’ilele Malomalo, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), explicou ao O POVO que a quimbanda possui diferentes vertentes e que, em parte delas, o culto se concentra em exus e pombagiras. Essas entidades possuem significados próprios dentro da religião e não podem ser compreendidas simplesmente pela concepção cristã do mal.
A responsável pelo templo, conhecida como Mãe Rainha das Trevas, afirmou que foram investidos mais de R$ 118 mil de recursos próprios na construção. Para ela, a entidade representada está associada a “bondade, prosperidade e luz”, e o monumento foi erguido como agradecimento pelas bênçãos recebidas.
A sacerdotisa também denunciou ataques de intolerância religiosa após a repercussão da obra. Segundo ela, sua religião passou inclusive a ser utilizada em manifestações de caráter político nas redes sociais. “As pessoas estão usando do nome da minha fé, do nome daquilo que é sagrado para mim, para poderem fazer campanhas políticas”, declarou ao jornal.
O Palácio Estrela Negra realiza atividades religiosas uma ou duas vezes por mês. Conforme a reportagem, o espaço também desenvolve trabalhos sociais e mantém atendimento destinado à ajuda espiritual da comunidade.
Prefeitura defende liberdade religiosa
Diante da repercussão, a Prefeitura de São Gonçalo do Amarante informou que a autorização para a construção observou os requisitos legais. A administração municipal ressaltou ainda que a análise dos órgãos públicos diz respeito à regularidade ambiental e urbanística da obra, não ao conteúdo da crença professada no local.
Em nota, o município reafirmou a defesa da liberdade religiosa, da liberdade de crença e do livre exercício dos cultos, garantias previstas no artigo 5º da Constituição Federal.
A controvérsia, portanto, ultrapassa a aparência ou o tamanho da estátua. O monumento está dentro de uma propriedade privada, pertence a um espaço religioso e, segundo o poder público, foi regularmente licenciado. A discussão passa pelo direito de uma religião minoritária manter seus próprios símbolos sem que eles precisem corresponder às concepções teológicas das religiões majoritárias.
A questão colocada pela repercussão é onde termina a discordância individual diante de uma crença e começa a tentativa de constranger o direito de outra comunidade religiosa existir e manifestar publicamente seus símbolos.


