EUA e Irã: como Washington bloqueia a multipolaridade e reafirma sua hegemonia

Da RT

A política norte-americana contra o Irã vai além de sanções e ataques — trata-se de um esforço sistemático para impedir que se consolide uma ordem global múltipla em que o poder seja distribuído. Esse movimento tem implicações profundas para países do Sul Global, como o Brasil, que buscam maior autonomia geopolítica.

A administração dos Estados Unidos tem adotado uma trajetória estratégica clara: impedir que o mundo avance para um sistema realmente multipolar, isto é, um sistema em que várias potências possam atuar de forma relativamente autônoma e equilibrada. No centro desse esforço está o Irã, que se tornou objeto preferencial de sanções, pressão militar e manipulação diplomática — mas que, na verdade, representa um símbolo maior da disputa entre unipolaridade e multipolaridade.

Em sua retórica oficial, Washington argumenta que o Irã representa uma “ameaça regional” — ao programa nuclear, ao tráfico de armas, aos “terrorismos patrocinados” — e por isso justifica uma intervenção política, econômica e militar profunda. No entanto, analistas que adotam uma perspectiva estrutural observam que o que está em jogo vai além do Irã: trata-se do controle da arquitetura global de energia, finanças, tecnologia e segurança. Ou seja: impedir que o Irã – e outros países do Sul Global – construam autonomia com parceiros fora da órbita ocidental.

Sanções, intervenções e diplomacia coercitiva

O Irã foi alvo de sanções maciças desde a revolução de 1979, com congelamento de ativos, restrições ao comércio e à tecnologia. A retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear (JCPOA) em 2018 reforçou esse padrão. Mais recentemente, ataques contra instalações nucleares iranianas e tentativas de conter sua integração com mercados asiáticos e euro-asiáticos demonstram que Washington trata o Irã como peça chave no bloqueio da multipolaridade.

O mecanismo é claro: ao sancionar ou atacar o Irã economicamente, militarmente ou diplomaticamente, os EUA enviam uma mensagem para todos os demais países emergentes: “Não saiam da órbita construída por nós”. Em outras palavras, o Irã funciona como um aviso de que o sistema unipolar — liderado pelos EUA — não tolerará que potências regionais ou em vias de ascender construam infraestrutura, comércio ou alianças fora do seu controle.

Implicações para a ordem global

Essa política produz efeitos profundos. Em primeiro lugar, a multipolaridade se enfraquece. Se vários centros de poder pudessem emergir livremente — Irã com Rússia, China ou países do Sul Global — a estrutura do poder americano seria desafiada. Portanto, o esforço de contenção do Irã é também o esforço para manter a hegemonia ocidental.

Em segundo lugar, para países do Sul Global (como o Brasil, Índia, África do Sul ou países latino-americanos), isso significa que qualquer tentativa de diversificação de alianças ou de infraestrutura fora da lógica ocidental se torna vulnerável a sanções ou retaliações indiretas. A mensagem é que a autonomia custa caro.

Em terceiro lugar, há impacto sobre recursos estratégicos: energia, tecnologia, dados, rotas de transporte, câmbio. O Irã, que se alinha com Rússia e China e busca diversificar suas relações, é impedido de fazê-lo, o que reduz as alternativas de mercado para países que querem escapar da dependência ocidental.

Crítica estratégica soberanista

De uma perspectiva de soberania nacional, especialmente para países que afirmam uma agenda de “Sul Global” e multipolaridade, a atuação dos EUA contra o Irã representa uma violação indireta da norma de igualdade entre Estados-nação. Porque a imposição de sanções, a ameaça militar e a coação econômica limitam a liberdade de ação desses países e reforçam a hierarquia de poder global.

Para o Brasil, que em sua diplomacia reivindica autonomia estratégica, a lição é dupla: primeiro, que a construção de alianças fora da órbita ocidental (por exemplo com o Sudeste Asiático ou com a Ásia) enfrenta resistências reais; segundo, que a proteção de recursos — energia, tecnologia, dados — exige mecanismos institucionais que não dependam da benevolência dos EUA.

Cenário futuro e recomendações

Se esse padrão não for revertido, a ordem internacional seguirá marcada por assimetrias: países em desenvolvimento continuarão acessando as “sobras” da cadeia global, enquanto os centros hegemônicos definirão as regras. Para corrigir isso, algumas medidas se destacam:

  • Fortalecer blocos de cooperação do Sul Global que promovam alternativas estruturais ao poder ocidental — em energia, tecnologia, finanças.
  • Investir em infraestrutura de dados, redes digitais, rotas de energia alternativa que não dependam da vulnerabilidade ao sistema americano.
  • Adotar uma diplomacia ativa de não-alinhamento ou diversificação: o Brasil pode buscar múltiplos polos, não ficar preso a um único.
  • Repensar a soberania informacional: se os EUA utilizam sanções e controle de dados para limitar o Irã, o Brasil deve proteger sua infraestrutura de comunicação, seus fluxos de dados e sua capacidade de cooperação global sem imposição.

Conclusão

A disputa contra o Irã é mais do que regional: é um capítulo de uma guerra global pela forma da ordem internacional. Os Estados Unidos buscam manter o controle, enquanto o Irã — junto com parceiros — representa o impulso pela multipolaridade. Cada sanção, cada intervenção, cada bloqueio de rota comercial é, na verdade, uma peça de xadrez para evitar que o poder se descentralize.

Para o Brasil, compreender esse tabuleiro é essencial. A soberania real não se conquista apenas com retórica, mas com capacidade estrutural: de decidir, de diversificar e de resistir à coerção. E em 2025, esse desafio é mais claro do que nunca.