Formada por oito mulheres, a banda Capotas Lunares nasceu dos encontros no Maracatu Solar e transforma música, amizade e ancestralidade em espaço de criação coletiva
Da Redação
O que começou como uma roda de amigas batucando durante uma comemoração de aniversário tornou-se uma banda formada por oito mulheres, com repertório dedicado ao coco, ao samba, ao forró e às manifestações musicais de matriz africana. Próximas de completar o primeiro ano de atividade, as Capotas Lunares já preparam composições autorais e conquistam espaços culturais de Fortaleza.
A trajetória do grupo foi apresentada por Monalisa Tavares, produtora, cantora e percussionista, e Rosana Braga, responsável pelas mídias sociais, cantora e percussionista, durante entrevista ao programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, na sexta-feira, 14 de agosto. A conversa foi conduzida pelo cientista político e radialista Luiz Regadas.
Além da criação musical, as integrantes definem a banda como uma rede de apoio entre mulheres. Os ensaios e apresentações permitem que elas desenvolvam suas habilidades, compartilhem experiências e ocupem um ambiente ainda atravessado por desigualdades de gênero.
“Existe uma luta ao mesmo tempo silenciosa e barulhenta para a gente estar em todos os lugares”, afirmou Rosana Braga.
Uma banda que nasceu sem planejamento
Segundo Monalisa Tavares, nenhuma das integrantes havia planejado formalmente a criação de uma banda. As mulheres se conheceram no Maracatu Solar, coletivo pelo qual todas passaram em diferentes momentos.
O encontro decisivo aconteceu durante o aniversário de Germana Santos, uma das futuras integrantes. Algumas delas chegaram à comemoração com instrumentos porque vinham de uma atividade do Maracatu Solar. A batucada começou de maneira espontânea e revelou uma conexão que ultrapassava a música.
“A gente nunca pensou tão vivamente em fazer uma banda como acabou acontecendo. A gente se conheceu no Maracatu Solar. Todas nós, em algum momento, entramos no Maracatu Solar e acabamos nos cruzando”, relatou Monalisa.
Enquanto tocavam, as participantes percebiam que também surgia uma relação de amizade e confiança. Psicóloga, Monalisa já refletia sobre coletividade, comunidades e redes de apoio, sobretudo entre mulheres. Ao observar a roda formada naquele aniversário, ela sugeriu que criassem uma banda.
“A gente foi formando amizade enquanto tocava. Era muito bonito ver a relação que estava sendo construída ali. Cada música que surgia trazia aquele sentimento de que havia alguma coisa muito bonita acontecendo”, recordou.
A sugestão, inicialmente recebida como uma brincadeira, continuou sendo discutida nos dias seguintes. As participantes criaram um grupo, organizaram encontros e passaram a ensaiar sem uma definição rígida sobre os resultados que pretendiam alcançar.
“Começamos a nos encontrar de uma maneira despretensiosa, vendo o que ia dar. Em algum momento, decidimos que aquilo também era um grupo de amigas, uma rede de apoio, de suporte e de trocas”, explicou Monalisa.
Capotes, renascimento e ligação com o Maracatu Solar
O nome Capotas Lunares surgiu a partir das galinhas-d’angola, também conhecidas como capotes, que circulavam pelo local onde ocorreu o encontro inicial. Enquanto as mulheres tocavam, o canto das aves acompanhava a roda.
O grupo começou a pesquisar os significados associados aos capotes e encontrou referências às religiões de matriz africana e à ideia de renascimento. A escolha estabeleceu uma ligação com a origem das integrantes no Maracatu Solar. Se todas eram “solares”, a nova formação seria lunar.
“Pensamos nesse contraponto e colocamos ‘lunares’. Ficaram as Capotas Lunares, um grupo de mulheres que, além de serem amigas e rede de apoio umas para as outras, também batucam juntas”, explicou Monalisa.
A banda é formada por Monalisa Tavares, Rosana Braga Reis, Carol Braga, Germana Santos, Lila Mendes, Mariana Souza, Najara Braga Reis e Val Freire. As integrantes dividem vocais e instrumentos de percussão, como alfaia, pandeiro e agbê.
O Beco do Tambor como espaço de formação
A consolidação do grupo ocorreu em espaços já frequentados pelas integrantes, principalmente no chamado Beco do Tambor, nas proximidades da Praça dos Leões, no Centro de Fortaleza. A área reúne músicos, grupos percussivos e manifestações ligadas às culturas afro-brasileiras.
Rosana Braga destacou o Macumbá, também conhecido como Bar Literário, como um local importante para a convivência e para as primeiras apresentações das Capotas Lunares. O estabelecimento recebe atividades culturais, rodas musicais e eventos como a Quarta de Ancestralidade e o Fundamento do Coco.
“O Beco do Tambor é um lugar onde a cultura afrodiaspórica está acontecendo. Tem muitos eventos e festas que já são tradicionais”, explicou Rosana.
De acordo com a cantora, as Capotas Lunares começaram a trajetória no aniversário de Germana, mas se consolidaram nos encontros, ensaios e apresentações realizados no Macumbá. Como as integrantes já conheciam e frequentavam aquele ambiente, a estreia ocorreu em um espaço no qual se sentiam acolhidas.
“Quando a gente pensou em fazer uma banda, já estava presente essa ideia de que tocaríamos naquele espaço e em outros lugares parecidos”, afirmou.
Outros estabelecimentos independentes passaram a receber o grupo. Entre os locais citados estão a Casinha Vermelha, na Rua Luiz Gentil, no Benfica, o Bike Bar e o Trupizup. Algumas dessas atividades são organizadas como ensaios abertos, nos quais o público pode acompanhar o processo criativo e participar da roda.
“A gente entende que o espaço que ocupa é o espaço onde já está. Aos poucos, outros lugares e outras casas foram abrindo as portas para nós”, disse Rosana.
Convites surgiram de forma espontânea
As integrantes afirmaram que a banda não nasceu de um projeto voltado para a fama ou para a busca imediata por reconhecimento. A prioridade era criar uma atividade que proporcionasse prazer, convivência e fortalecimento coletivo.
A conexão demonstrada durante as apresentações, entretanto, despertou o interesse de amigos, frequentadores dos espaços culturais e outros grupos. Os primeiros convites apareceram sem que as Capotas Lunares precisassem procurar intensamente por oportunidades.
“A gente não estava pensando exatamente em fama ou em conquistar muita coisa. Era algo que estávamos fazendo por nós, porque fazia muito bem para a gente”, explicou Monalisa.
Segundo ela, o bem-estar experimentado pelas integrantes também era percebido por quem assistia. “Fez tão bem para a gente que as pessoas, quando viam a gente tocar, sentiam essa energia, essa conexão e o prazer de estarmos tocando juntas. Os convites foram surgindo quase sem que a gente procurasse.”
Com a aproximação do primeiro aniversário do grupo, as integrantes começaram a tratar a atuação musical com novas perspectivas. A intenção agora é buscar eventos e locais identificados com o repertório e com os princípios defendidos pela banda.
Monalisa revelou que o grupo iniciou o desenvolvimento de músicas próprias. Uma das integrantes, Carol Braga, já apresentou uma composição em ritmo de xote que entrou no processo de ensaio.
Coco, samba, forró e composições autorais
O repertório das Capotas Lunares reúne forrós, sambas e cocos. Embora a formação das integrantes esteja ligada ao maracatu cearense, Rosana considera o coco uma das principais bases musicais do grupo.
“Além de a gente ter surgido dessa relação com o maracatu cearense, o coco está muito na base do que a gente canta e do que a gente é. O nosso lugar mais confortável de improviso hoje é o coco de roda”, explicou.
Durante o programa, as convidadas apresentaram um trecho de Mãe da Lua, composição de Bárbara Xavier que integra o repertório das Capotas Lunares. Rosana definiu a artista como uma grande letrista e multi-instrumentista ligada aos encontros realizados no Beco do Tambor.
As composições autorais representam uma nova etapa. Sem abandonar as rodas e a espontaneidade que deram origem à banda, o grupo começa a organizar uma produção própria e a pensar na ampliação de sua presença na cena cultural de Fortaleza.
Uma roda segura para aprender e errar
Para as integrantes, uma banda composta somente por mulheres oferece condições específicas para a formação musical. Rosana afirmou que a convivência permite experimentar instrumentos, reconhecer dificuldades e aprender sem a cobrança encontrada em alguns espaços tradicionalmente dominados por homens.
“Coincidentemente ou não, buscamos esse lugar de várias mulheres tocando juntas porque isso nos faz sentir mais confortáveis. É um espaço onde temos a possibilidade de aprender com muito mais segurança, inclusive para errar, aprender juntas, acertar e bater palma para a outra”, explicou.
Essa segurança também atrai mulheres que assistem às apresentações e aos ensaios abertos. Rosana descreveu a aproximação de pessoas interessadas não apenas em ouvir, mas em tocar e participar da roda.
“Quando uma mulher escuta que existe um grupo de mulheres tocando, ela se aproxima com vontade de ouvir, tocar junto e se sentir confortável em uma roda onde sabe que não será desrespeitada”, afirmou.
Monalisa acrescentou que a banda mantém conversas constantes sobre o repertório e as razões pelas quais escolhe determinadas músicas. A reflexão prepara o grupo para responder a eventuais manifestações de intolerância religiosa ou discriminação de gênero.
“O fato de a gente conversar muito sobre o que toca e por que quer cantar aquilo ajuda a entender o que faz sentido para nós. Se alguma situação de preconceito acontecer, poderemos conduzi-la da melhor forma”, disse.
Preconceito também pode aparecer como elogio
Embora as integrantes não tenham relatado agressões abertas durante a curta trajetória da banda, Rosana observou que o preconceito nem sempre aparece de maneira explícita. Comentários aparentemente elogiosos podem reproduzir a ideia de que determinadas funções musicais pertencem a homens.
Como exemplo, ela citou a afirmação de que muitos grupos de mulheres estariam precisando de pandeiristas. A cantora respondeu que bandas femininas, masculinas ou mistas precisam de instrumentistas profissionais e que mulheres devem ser reconhecidas como musicistas aptas a ocupar qualquer formação.
“É bom educar o ouvido para entender que algumas frases parecem elogios, mas estão atravessadas naquele contexto”, alertou.
Rosana também rejeitou a utilização depreciativa da palavra “macumba” para atacar as manifestações culturais e religiosas de matriz africana. Para ela, o problema não está no termo, mas na carga negativa atribuída por quem o emprega com intenção discriminatória.
“Eu não tenho problema nenhum em falar essa palavra. O preconceito aparece quando alguém fala de macumba como se fosse uma coisa negativa”, declarou.
Projetos de mulheres não devem ser confinados
Monalisa defendeu a importância de iniciativas artísticas criadas por mulheres, mas observou que a atuação feminina não pode ficar restrita a eventos ou ambientes específicos. Os grupos próprios oferecem proteção, aprendizado e fortalecimento, enquanto a presença das mulheres precisa alcançar todos os espaços profissionais e culturais.
“É importante que a gente tenha os nossos projetos porque se fortalece, se une e constrói muita coisa boa junta. Mas isso não pode ficar restrito apenas aos lugares de mulheres”, afirmou.
Na avaliação da produtora, a necessidade de criar espaços próprios decorre das dificuldades encontradas pelas mulheres para serem reconhecidas em atividades profissionais, políticas e culturais. A banda funciona como acolhimento, mas também como preparação para ocupar ambientes dos quais elas foram historicamente afastadas.
“O que nos uniu nesse movimento foi o sentimento de precisar ocupar um lugar na sociedade onde parece que estamos lutando o tempo todo. A união nos fortalece, acolhe e dá força para continuar buscando esses espaços”, completou.
Ensaio aberto também é participação
As Capotas Lunares utilizam as redes sociais para divulgar apresentações e mostrar etapas do trabalho. No perfil @capotaslunares, o público encontra informações sobre a agenda e registros dos ensaios.
Rosana ressaltou que a banda permanece em construção e que compartilhar o processo é parte da relação estabelecida com quem acompanha o grupo. Os ensaios abertos também permitem um contato que não se limita à posição tradicional entre artistas e espectadores.
Ao ser questionada sobre a possibilidade de transmitir os ensaios pela internet, Rosana disse que a proposta poderia ser considerada, mas destacou a experiência presencial. Nas rodas, quem chega pode sentar, pegar um instrumento e tocar com as integrantes.
“O ensaio aberto tem uma tecnologia melhor ainda do que a transmissão, que é o público chegar, sentar na roda com a gente, pegar um instrumento e tocar junto”, afirmou.
A observação não excluiu a possibilidade de futuras transmissões. Luiz Regadas ressaltou que o conteúdo digital permitiria apresentar a banda a pessoas de outros estados e países, ampliando a circulação do trabalho. As convidadas acolheram a sugestão e manifestaram interesse em organizar uma atividade desse tipo.
Capotas Lunares projetam uma trajetória coletiva
Ainda em seu primeiro ano, a banda começou a participar de conversas sobre políticas culturais e as necessidades dos grupos percussivos de Fortaleza. As integrantes foram convidadas para uma roda de conversa da Bienal Percussiva, evento organizado com a participação de coletivos ligados à cultura do tambor.
A discussão inclui condições para a continuidade das manifestações percussivas, disponibilidade de espaços e políticas públicas de incentivo. A participação amplia a atuação das Capotas Lunares para além das apresentações e insere o grupo no debate sobre o reconhecimento da produção cultural independente.
Ao concluir a entrevista, Rosana agradeceu o espaço concedido pelo Café com Democracia e avaliou que, mesmo recente, a banda já proporcionou resultados afetivos e artísticos importantes.
“É um grupo tão recente, mas que já dá tantos frutos e tantas alegrias. Acho que a gente tem um bonito caminho pela frente”, afirmou.
Entre o desejo de produzir músicas próprias, participar de festivais e ampliar as apresentações, as Capotas Lunares preservam o princípio que levou à criação do grupo: mulheres reunidas para tocar, aprender e sustentar umas às outras.
Referências citadas no programa
Bárbara Xavier
Cantora, compositora e multi-instrumentista cearense citada pelas integrantes como uma artista ligada à cena cultural do Beco do Tambor. Nas redes sociais, apresenta seu trabalho por meio do perfil Invasões Bárbaras.
Mãe da Lua
Composição de Bárbara Xavier interpretada pelas Capotas Lunares e apresentada em um breve trecho durante o programa. A música integra o repertório atual da banda e está disponível nas plataformas digitais.
Maracatu Solar
Grupo de maracatu cearense no qual as oito integrantes das Capotas Lunares se conheceram e iniciaram parte de sua formação percussiva. A experiência compartilhada no coletivo está diretamente relacionada ao surgimento da banda.
Zeca Pagodinho
Cantor e compositor citado durante a conversa como referência para o ambiente descontraído das rodas de música, nas quais artistas e participantes se reúnem ao redor de uma mesa e compartilham o repertório.
📺 Programa Café com Democracia
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