Estudo qualitativo realizado pelo instituto Travessia para o Estadão mostra que provocações sobre a deficiência física de Lula e a resposta do senador sobre a morte da menina Ana Clara produziram forte reprovação. Presidente recebeu 54,95% de avaliações positivas, contra 33,33% do adversário, na dinâmica realizada com 12 eleitores. Resultado evidencia o peso da postura dos candidatos, mas não representa uma pesquisa nacional de intenção de voto.
Da Redação
A tentativa de Flávio Bolsonaro (PL) de utilizar provocações pessoais e ataques ao histórico político de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante o último debate presidencial, realizado pela TV Globo na noite de sexta-feira (23), produziu reações negativas entre eleitores que acompanhavam o confronto sem ter definido seu voto. Uma pesquisa qualitativa conduzida pelo instituto Travessia, a pedido do jornal O Estado de S. Paulo, mostrou que cinco dos seis participantes inicialmente indecisos terminaram a transmissão mais inclinados a votar em Lula, enquanto uma eleitora permaneceu sem preferência definida. O resultado não possui representatividade estatística e não permite projetar o comportamento do eleitorado nacional, mas oferece um registro detalhado de como determinadas declarações repercutiram naquele grupo, especialmente quando o senador abordou a morte de uma criança durante uma operação policial e utilizou a deficiência física do presidente como provocação.
O levantamento reuniu 12 moradores da cidade de São Paulo, pertencentes às classes B, C e D. Metade deles declarou estar indecisa antes do debate; três afirmaram apoiar Lula e outros três, Flávio Bolsonaro. Os participantes acompanharam a transmissão em uma residência no bairro da Vila Mariana, na zona sul da capital paulista, enquanto pesquisadores observavam suas reações a partir de uma sala separada por um espelho. Durante o programa, cada pessoa utilizava cartões verdes, amarelos ou vermelhos para indicar, respectivamente, aprovação, neutralidade ou reprovação às declarações dos candidatos.
A metodologia foi desenhada para compreender percepções e reações, não para medir intenções de voto de uma população. Por isso, os cinco indecisos que demonstraram maior disposição para apoiar Lula representam cinco indivíduos concretos, e não uma estimativa de que proporção semelhante dos eleitores brasileiros tenha mudado de preferência.
Ainda assim, as informações reunidas oferecem elementos importantes para examinar o comportamento dos candidatos e a recepção de suas estratégias.
No conjunto de manifestações registradas durante a dinâmica, Lula recebeu 54,95% de cartões verdes, enquanto Flávio Bolsonaro alcançou 33,33%. A diferença de 21,62 pontos percentuais corresponde à proporção das avaliações positivas emitidas pelos integrantes daquele grupo, e não à intenção de voto dos participantes ou a uma amostra representativa da população brasileira.
A distribuição das manifestações negativas também apresentou diferença. Flávio recebeu 36,8% de cartões vermelhos, contra 28,71% atribuídos ao presidente. A observação demonstra que, naquele ambiente específico, o senador concentrou maior rejeição às suas intervenções.
O cientista político Renato Dorgan, responsável pelo estudo e diretor-executivo do instituto Travessia, avaliou que a aproximação dos indecisos em relação a Lula ocorreu principalmente em consequência de erros do adversário, e não de entusiasmo com o desempenho presidencial.
Segundo Dorgan, os eleitores que já apoiavam um dos candidatos mantiveram suas posições durante a transmissão. A movimentação observada ocorreu entre os indecisos, especialmente aqueles pertencentes às classes C e D, que reagiram negativamente a determinados episódios protagonizados por Flávio.
A interpretação do pesquisador é significativa porque distingue duas situações frequentemente confundidas no debate eleitoral: conquistar adesão por apresentar propostas convincentes e provocar o afastamento de eleitores em razão de comportamentos considerados inadequados.
Na dinâmica observada pelo Travessia, a segunda situação teve peso expressivo.
O episódio que produziu uma das reações mais intensas envolveu a morte de Ana Clara Gomes Machado, criança de cinco anos atingida por um disparo de fuzil durante uma operação policial em Niterói, no Rio de Janeiro, em 2021. Lula questionou Flávio sobre sua atuação profissional na defesa de um policial acusado no caso, trazendo ao confronto a discussão sobre responsabilização por mortes decorrentes de intervenções policiais.
O exercício da advocacia constitui uma atividade legítima e está protegido pela Constituição, inclusive quando envolve pessoas acusadas de crimes graves. A participação de Flávio na defesa do agente não demonstra responsabilidade do senador pela morte da criança.
O interesse público do questionamento está relacionado às posições do candidato sobre segurança pública, uso da força e responsabilização de agentes estatais.
Ao responder, entretanto, Flávio confundiu o nome da mãe da menina com o da própria vítima. O erro provocou forte reação entre os integrantes da pesquisa que não apoiavam o senador. Os participantes levantaram cartões vermelhos e manifestaram desconforto com a maneira como o episódio foi tratado.
Uma das eleitoras questionou o desconhecimento demonstrado pelo candidato sobre a identidade da criança. Outro participante interpretou a resposta como demonstração de falta de empatia.
Essas avaliações representam percepções dos entrevistados, não conclusões sobre os sentimentos ou as motivações pessoais do senador. O que a pesquisa permite estabelecer é que a resposta foi recebida negativamente por quase todos os integrantes do grupo que não haviam declarado apoio prévio a Flávio.
Uma das participantes, que terminou o encontro ainda indecisa, afirmou que esperava uma explicação sobre o exercício profissional da advocacia. Segundo ela, a confusão entre os nomes tornou a justificativa insatisfatória.
A observação revela que o problema identificado pelos participantes não estava necessariamente na existência de uma defesa jurídica, mas na qualidade da resposta oferecida diante de um episódio de violência que resultou na morte de uma criança.
A discussão sobre segurança pública exige propostas capazes de enfrentar o crime organizado, melhorar as condições de trabalho dos policiais e assegurar mecanismos de investigação quando agentes estatais são acusados de cometer crimes. A referência a casos concretos permite avaliar como os candidatos compreendem essas responsabilidades.
No debate, porém, a confusão de Flávio acabou se tornando mais marcante para parte do grupo do que os argumentos apresentados sobre o sistema de segurança.
Outro episódio de grande repercussão ocorreu quando o senador se referiu a Lula como “nove dedos”, mencionando a amputação sofrida pelo presidente durante um acidente de trabalho na juventude.
A provocação inicialmente provocou risadas entre alguns participantes, mas sua recepção mudou quando Lula respondeu lembrando as circunstâncias do acidente, ocorrido quando trabalhava na indústria metalúrgica.
A resposta presidencial aproximou o episódio de uma experiência conhecida por famílias trabalhadoras: o risco de acidentes profissionais e suas consequências permanentes sobre a vida das pessoas.
Um dos indecisos considerou a provocação desnecessária. Outro afirmou que a referência era desrespeitosa com trabalhadores e pessoas com deficiência.
Até mesmo uma participante que declarava apoio a Flávio criticou a expressão utilizada pelo senador, embora tenha mantido sua preferência política.
O pedido de desculpas apresentado posteriormente por Flávio não eliminou a percepção negativa entre os indecisos e os apoiadores de Lula que participavam da dinâmica.
Renato Dorgan relacionou a reação à história social da Região Metropolitana de São Paulo, marcada pela presença de trabalhadores industriais e pela memória de famílias ligadas às fábricas.
A explicação acrescenta uma dimensão importante ao episódio. Em um confronto eleitoral, uma provocação pessoal pode adquirir significados muito diferentes daqueles pretendidos por quem a utiliza. Uma deficiência decorrente de acidente de trabalho não constitui apenas característica individual; pode remeter a experiências familiares, riscos profissionais e desigualdades nas condições de trabalho.
A pesquisa não demonstra que todos os trabalhadores ou pessoas com deficiência tenham reagido da mesma maneira. Mostra, porém, que essa associação foi relevante para os participantes observados.
A recepção dos dois episódios ajuda a compreender por que a estratégia confrontacional de Flávio não produziu o resultado esperado entre aqueles eleitores específicos.
O senador procurava questionar a trajetória do adversário e reforçar seu próprio discurso sobre segurança e mudança administrativa. Entretanto, as reações registradas indicam que a forma utilizada para apresentar determinadas críticas passou a ocupar mais espaço na percepção dos participantes do que o conteúdo político pretendido.
O resultado também demonstra que ataques pessoais não são necessariamente interpretados pelo público como demonstração de autoridade ou capacidade política. Sua recepção depende das circunstâncias, das experiências dos espectadores e da maneira como o adversário responde.
No caso da provocação sobre o acidente de Lula, a resposta do presidente recebeu nove avaliações positivas, um dos melhores resultados registrados durante o estudo.
Lula também alcançou nove cartões verdes quando abordou investimentos do governo no agronegócio e a importância econômica da região Centro-Oeste.
Essas manifestações indicam que os participantes reagiram favoravelmente a momentos nos quais o presidente apresentou informações sobre políticas públicas ou relacionou sua trajetória a experiências sociais reconhecíveis.
Flávio também teve intervenções bem avaliadas. Sua proposta de cooperação com governadores nordestinos no enfrentamento ao crime organizado recebeu nove cartões verdes, demonstrando que a rejeição registrada em determinados momentos não significou desaprovação automática de todas as suas posições.
O senador também obteve manifestações positivas ao discutir melhorias para o Sistema Único de Saúde e apresentar propostas relacionadas à maioridade penal. A defesa da redução para 14 anos, contudo, foi considerada excessiva por parte dos presentes.
A existência desses momentos favoráveis demonstra que a pesquisa não identificou uma divisão mecânica entre aprovação integral de Lula e rejeição absoluta de Flávio.
O comportamento dos participantes variou conforme os assuntos abordados e a qualidade percebida das respostas.
Os três apoiadores de Flávio, entretanto, apresentaram cartões vermelhos em todas as avaliações de Lula, indicando elevada resistência ao presidente. Entre os eleitores previamente favoráveis ao petista, o comportamento foi diferente: Flávio chegou a receber avaliações positivas em determinadas intervenções.
Esse contraste ajuda a compreender a intensidade da polarização política observada no grupo, embora não permita afirmar que o mesmo padrão se repita entre todos os eleitores brasileiros.
A pesquisa também registrou críticas substantivas às propostas e à atuação dos candidatos.
Parte dos indecisos afirmou considerar Lula mais experiente e familiarizado com os temas administrativos discutidos durante o confronto. Os participantes mencionaram sua trajetória de governo e a apresentação de iniciativas consideradas mais concretas.
Flávio, por sua vez, foi criticado por apresentar respostas genéricas, evitar determinados questionamentos e recorrer repetidamente ao tema da segurança pública mesmo quando outros assuntos estavam em discussão.
Um dos eleitores observou que a preocupação com a violência é legítima, mas considerou insuficiente utilizar o tema como resposta recorrente a perguntas sobre políticas distintas.
Essas percepções representam avaliações individuais sobre o desempenho observado, não uma medição objetiva da capacidade profissional ou intelectual do senador.
O problema substantivo identificado nas críticas está na necessidade de que um candidato presidencial apresente propostas relacionadas a diferentes áreas da administração pública.
A Presidência envolve responsabilidades sobre orçamento, saúde, educação, infraestrutura, desenvolvimento econômico, relações internacionais e coordenação institucional. A concentração excessiva em um único tema pode deixar dúvidas sobre a capacidade de responder aos demais desafios.
A pesquisa indica que parte dos indecisos sentiu falta de esclarecimentos mais completos nessas áreas.
Lula, entretanto, também enfrentou resistências significativas. Uma das avaliações mais negativas ocorreu durante uma discussão sobre o elevado endividamento das famílias brasileiras. Os participantes consideraram sua resposta insuficiente e levantaram sucessivos cartões vermelhos.
A dificuldade é relevante porque o endividamento interfere diretamente na renda disponível, no consumo e na segurança econômica das famílias. Uma proposta voltada à renegociação de dívidas precisa esclarecer condições de acesso, taxas, participação das instituições financeiras e mecanismos capazes de evitar o retorno dos consumidores ao endividamento excessivo.
O presidente também recebeu críticas relacionadas ao longo período em que participa da política nacional. Alguns indecisos manifestaram a percepção de que Lula deveria abrir espaço para novas lideranças, enquanto outros questionaram sua idade e sua capacidade de responder às transformações recentes do país.
Essas manifestações são percepções dos entrevistados e não permitem concluir algo sobre a aptidão pessoal do presidente para exercer suas funções. Mostram, contudo, que a experiência administrativa, apresentada por Lula como uma de suas principais referências, também foi interpretada de maneiras diferentes pelos participantes.
Entre os apoiadores de Flávio, a resistência ao governo concentrou-se principalmente no custo de vida, nos preços dos alimentos e na violência. São questões concretas que atravessaram o debate presidencial e continuam exigindo respostas independentemente da posição política dos eleitores.
O levantamento também revelou desgaste diante de confrontos pessoais e acusações envolvendo escândalos financeiros.
O último bloco do debate, marcado pela troca de acusações relacionadas ao Banco Master, recebeu algumas das avaliações mais negativas do grupo.
Os participantes demonstraram menor interesse por uma discussão centrada em acusações recíprocas do que por momentos nos quais os candidatos apresentavam propostas ou respondiam a questões diretamente relacionadas à vida cotidiana.
Essa reação não significa que investigações sobre corrupção ou irregularidades financeiras sejam irrelevantes. A fiscalização de relações entre empresas, autoridades e recursos públicos constitui uma dimensão essencial da democracia.
O que a pesquisa sugere é que a utilização de escândalos como instrumento de confronto pode produzir desgaste quando os candidatos deixam de esclarecer responsabilidades, distinguir investigações de condenações ou apresentar medidas de prevenção.
A análise do Travessia revela, portanto, uma combinação de fatores: forte polarização entre eleitores já decididos, críticas aos dois presidenciáveis, maior número de avaliações positivas para Lula e reações particularmente negativas a determinados episódios envolvendo Flávio.
O resultado mais destacado foi a mudança de disposição de cinco dos seis indecisos presentes, que terminaram a dinâmica mais inclinados à reeleição do presidente.
Essa observação tem valor qualitativo porque permite conhecer argumentos e reações específicas dos participantes, mas não estabelece uma tendência estatística nacional nem demonstra que o debate tenha provocado movimento equivalente em outros grupos sociais.
A distinção é indispensável a dois dias da votação presidencial.
Pesquisas quantitativas, realizadas com amostras planejadas para representar o eleitorado, possuem finalidade diferente daquela de uma dinâmica com 12 participantes. Mesmo levantamentos representativos possuem margens de erro, limitações metodológicas e diferenças relacionadas ao período de coleta.
O estudo do Travessia não pretende substituir esses instrumentos. Sua contribuição está em mostrar como determinados comportamentos podem ser interpretados pelos eleitores e quais argumentos despertam aprovação, resistência ou desconforto.
Nesse sentido, a principal conclusão da observação é que os ataques pessoais utilizados por Flávio Bolsonaro tiveram consequências negativas entre os indecisos acompanhados, especialmente quando envolveram uma criança morta durante operação policial e uma deficiência decorrente de acidente de trabalho.
As reações também indicam que Lula conseguiu apresentar respostas favoravelmente recebidas em momentos específicos, mas não eliminou dúvidas sobre endividamento, custo de vida e sua trajetória prolongada na política.
A avaliação de Renato Dorgan foi particularmente clara ao atribuir o deslocamento dos indecisos mais aos erros de Flávio do que a um entusiasmo espontâneo com Lula.
Essa leitura não constitui uma sentença sobre o desempenho nacional das candidaturas nem antecipa o resultado das urnas. Representa a interpretação do pesquisador sobre uma dinâmica qualitativa realizada com eleitores paulistanos.
O episódio demonstra, entretanto, que a maneira como candidatos tratam questões humanas sensíveis pode adquirir grande importância na recepção de suas mensagens.
A morte de uma criança, a responsabilidade do Estado pela atuação policial e as consequências de acidentes de trabalho não são assuntos que possam ser reduzidos sem consequências a recursos de provocação eleitoral.
A pesquisa identificou reações negativas precisamente quando os participantes entenderam que esses temas não estavam recebendo tratamento adequado.
Na reta final da disputa presidencial, a experiência observada pelo Travessia acrescenta elementos ao debate sobre responsabilidade pública, qualidade das propostas e comportamento dos candidatos.
O estudo não demonstra que Lula tenha conquistado o eleitorado indeciso brasileiro. Demonstra que, entre seis indecisos acompanhados durante o debate da Globo, cinco terminaram mais inclinados a apoiá-lo, em um ambiente no qual declarações de Flávio receberam forte reprovação.
A diferença entre esses dois enunciados é a diferença entre uma observação jornalística fundamentada e uma generalização que a pesquisa não autoriza.
No domingo, 25 de outubro, a definição da Presidência ocorrerá nas urnas. Até lá, a avaliação do debate permanece como parte de uma discussão mais ampla sobre o que os candidatos apresentaram, como responderam aos questionamentos e de que maneira suas atitudes foram percebidas pelo público.



