Presidente relembra antiga rivalidade com o vice e diz que experiência como governador de São Paulo pesou na escolha para o Ministério da Indústria e Comércio
Da Redação
Durante visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Presidente Lula fez um amplo elogio ao vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin. Ao falar sobre a escolha do antigo adversário para integrar seu governo, Lula destacou a experiência administrativa do vice e sua capacidade de negociação com empresários e trabalhadores.
Lula recorreu à antiga disputa entre PT e PSDB para explicar por que considera Alckmin um político de peso. Antes da aliança construída para a eleição presidencial de 2022, os dois estiveram durante décadas em campos políticos adversários. Alckmin, inclusive, disputou a Presidência contra Lula em 2006.
“Quando eu levei esse moço aqui para vice-presidente, o cara foi governador de São Paulo 16 anos e ele não ganhou da direita. É igual a mim, do PT. Então deve ter valor, porque se o PT pensa que é o bom e ele ganhou de nós é porque ele tem valor”, afirmou Lula.
Em tom bem-humorado, o Presidente contou que, depois de convidar Alckmin para ser vice, decidiu que precisava aproveitar sua experiência também no governo.
“Eu tenho que dar serviço para o Alckmin porque ele, com a experiência dele, sem atividade, o cara vai planejar contra Lulinha”, brincou.
Lula relatou que inicialmente buscava outro perfil para comandar o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A intenção era encontrar alguém especialmente familiarizado com inovação, novas tecnologias e setores industriais de alta complexidade.
“Eu fiquei procurando um gênio para ser ministro da Indústria e Comércio. Eu queria alguém que fosse bom, que pensasse muito em inovação, que falasse de novas tecnologias, química fina, essas coisas, porque de vez em quando se inventam umas coisas novas que eu falo sem saber o que é, mas eu falo bem”, disse.
Segundo o Presidente, diferentes nomes chegaram a ser considerados. Lula contou que entrevistou candidatos ao cargo e que uma dessas conversas acabou ajudando a mudar sua avaliação sobre qual deveria ser o perfil do ministro.
Após cerca de uma hora ouvindo as propostas de um dos possíveis escolhidos, Lula perguntou ao interlocutor se ele já havia colocado alguma das ideias apresentadas em prática. Diante da resposta negativa, concluiu que deveria privilegiar a experiência administrativa.
“Eu falei: vou chamar o Alckmin para ser ministro de Comércio, porque ele é a própria prática. Ele é o cara que teve experiência de governar o estado mais importante da Federação e, portanto, ele vai saber dirigir”, relatou.
Ao concluir o relato, Lula fez seu elogio mais enfático ao desempenho do vice no ministério. Para o Presidente, a capacidade política de Alckmin diferencia sua atuação da de empresários que anteriormente ocuparam a pasta.
“O Brasil já teve muitos empresários no Ministério da Indústria e Comércio, mas vou dizer para vocês: nenhum nunca chegou aos pés da habilidade política que o Alckmin tem para fazer negociação e para conversar com os trabalhadores”, afirmou.
A declaração feita no Inpe também relaciona a escolha de Alckmin à política de desenvolvimento defendida pelo atual governo. Ao recordar que buscava inicialmente um especialista em inovação e tecnologia, Lula situou a discussão sobre o comando do ministério dentro de uma preocupação mais ampla com a retomada da indústria brasileira e com a incorporação de conhecimento científico à produção.
Nesse sentido, o local da declaração acrescentou significado à fala. O Inpe é uma das principais instituições científicas brasileiras e atua em áreas estratégicas como pesquisa espacial, monitoramento por satélite, meteorologia e observação da Terra. Diante de pesquisadores e representantes de uma instituição ligada ao desenvolvimento tecnológico nacional, Lula apresentou a experiência política e administrativa de Alckmin como instrumento para transformar projetos de desenvolvimento em políticas efetivamente executadas.
Ao recuperar a trajetória que levou um antigo adversário político à Vice-Presidência e ao comando de uma pasta estratégica, Lula também voltou a defender, na prática, a aliança construída em 2022. Quatro anos depois daquela eleição, o Presidente apresentou Alckmin não apenas como parceiro eleitoral, mas como um dos integrantes de seu governo cuja experiência considera decisiva para a interlocução entre Estado, setor produtivo e trabalhadores.


