Lula planeja manter “Exército do Lula” após eleições e transformar rede digital em instrumento permanente de mobilização política

Estrutura coordenada por André Janones poderá continuar ativa nos próximos quatro anos, independentemente do resultado presidencial. Articulação prevê comunicação direta com apoiadores, divulgação de iniciativas governamentais ou organização de manifestações na oposição. Bolsonaristas também pretendem preservar seus canais.

Da Redação

A experiência de mobilização digital construída durante o segundo turno das eleições presidenciais de 2026 poderá se transformar em uma estrutura permanente de organização política no Brasil. Dirigentes ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discutem manter em funcionamento o “Exército do Lula”, canal de WhatsApp coordenado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), mesmo depois da votação de domingo, 25 de outubro. A proposta prevê utilizar a rede nos próximos quatro anos, tanto para manter a comunicação com os apoiadores de uma eventual nova administração petista quanto para organizar manifestações e atividades de oposição caso o senador Flávio Bolsonaro (PL) seja eleito. As informações foram divulgadas nesta sexta-feira (23) pelo jornalista Gustavo Uribe, da CNN Brasil, e repercutidas pelo Brasil 247.

A iniciativa representa uma possível mudança no funcionamento das estruturas digitais utilizadas pelas campanhas eleitorais. Tradicionalmente, parte dos grupos e mecanismos de comunicação organizados durante uma disputa perde atividade depois da votação. A estratégia agora discutida por dirigentes partidários procura preservar a audiência, os vínculos estabelecidos entre os participantes e a capacidade de comunicação direta desenvolvida ao longo do processo eleitoral.

A avaliação é compartilhada por integrantes dos dois campos políticos que disputam a Presidência. Segundo a CNN Brasil, dirigentes ligados a Flávio Bolsonaro também pretendem manter a chamada “Tropa do Flávio”, canal associado ao senador eleito Gustavo Gayer (PL-GO). Somadas, as duas estruturas reúnem quase dez milhões de seguidores, número que demonstra a dimensão adquirida pelas plataformas de mensagens na organização política brasileira.

A continuidade das redes não depende necessariamente da vitória de seus respectivos candidatos. No campo de Lula, dirigentes consideram que, em caso de reeleição, os canais poderão funcionar como instrumentos de comunicação política com os apoiadores, permitindo divulgar informações sobre medidas adotadas pelo governo e manter a participação de cidadãos nas discussões públicas. Se Flávio Bolsonaro vencer, a estrutura poderá ser utilizada para organizar manifestações e ações de oposição às políticas de sua eventual administração.

Entre os bolsonaristas, o planejamento segue lógica semelhante: preservar uma estrutura de comunicação capaz de apoiar um possível governo de Flávio ou organizar atividades oposicionistas caso Lula permaneça na Presidência.

Trata-se, portanto, de uma transformação que ultrapassa os interesses imediatos de uma candidatura. Os aplicativos de mensagens deixam de ser utilizados exclusivamente como ferramentas eleitorais e passam a ser considerados meios de organização política de caráter continuado, capazes de reunir apoiadores em torno de posições, reivindicações e debates que permanecem depois das eleições.

O “Exército do Lula” ganhou projeção nacional durante o segundo turno, quando Janones ampliou sua atuação na articulação digital dos apoiadores do presidente. A iniciativa utiliza a infraestrutura de canais do WhatsApp para distribuir mensagens, vídeos e orientações de engajamento, alcançando uma audiência de milhões de usuários.

A dimensão adquirida pelo canal também provocou disputas judiciais. A campanha de Flávio Bolsonaro apresentou pedidos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) questionando o funcionamento da estrutura e alegando a divulgação de informações falsas contra o senador. Algumas decisões determinaram a suspensão temporária do canal, enquanto outras permitiram sua reativação.

Em 12 de outubro, uma análise realizada pela equipe técnica do próprio TSE não identificou, entre as publicações examinadas no período de 2 a 11 de outubro, reproduções das afirmações falsas apontadas no processo. O relatório registrou, entretanto, a existência de comunicação coordenada e de linguagem polarizadora. A constatação técnica não resolveu todas as controvérsias, que também passaram a envolver as regras de registro de canais vinculados formalmente às campanhas.

O tribunal discutiu a necessidade de distinguir manifestações espontâneas de apoiadores e estruturas que recebem recursos ou apoio institucional de organizações eleitorais. Essa diferenciação é importante porque o direito de expressão política dos cidadãos não se confunde integralmente com as obrigações legais impostas à propaganda financiada ou administrada por partidos e candidaturas.

A campanha de Lula chegou a registrar o endereço do canal na Justiça Eleitoral para cumprir determinação judicial, mas ressalvou que o procedimento não significava assumir diretamente sua administração. O episódio evidencia a complexidade jurídica de iniciativas organizadas por parlamentares ou apoiadores que atuam em favor de uma candidatura sem necessariamente integrar sua estrutura formal.

A discussão deverá continuar depois do segundo turno. Conforme a CNN Brasil, o TSE pretende examinar uma proposta de regulamentação específica dos aplicativos de mensagens. Entre os pontos discutidos está a possibilidade de estabelecer limites para grandes canais políticos em períodos próximos à votação.

A manutenção dessas redes depois das eleições acrescenta uma questão distinta: quais regras devem orientar estruturas permanentes de comunicação política quando a disputa eleitoral formal termina?

A resposta depende da natureza de cada atividade. A divulgação de opiniões, a articulação de movimentos e a convocação de manifestações pacíficas integram o exercício regular das liberdades políticas e de associação. Já a utilização de recursos públicos, a propaganda institucional de governos e o financiamento de estruturas partidárias obedecem a regras próprias de transparência e controle.

Essa distinção será especialmente importante se os canais passarem a divulgar iniciativas de uma futura administração federal. A comunicação política realizada por apoiadores não é automaticamente equivalente à publicidade institucional custeada pelo Estado. Misturar essas duas atividades sem a identificação de responsabilidades e fontes de financiamento poderia produzir conflitos jurídicos.

Por outro lado, o simples fato de uma rede apoiar ou criticar um governo não significa que sua atividade seja irregular. A organização de cidadãos em plataformas digitais constitui uma forma contemporânea de participação política, sujeita às garantias constitucionais de expressão, reunião e associação.

A possibilidade de transformar o “Exército do Lula” em uma estrutura permanente também permite examinar mudanças na relação entre partidos, movimentos sociais e seus apoiadores. Durante décadas, a organização política brasileira esteve concentrada em diretórios partidários, sindicatos, associações comunitárias, entidades estudantis e movimentos sociais que dependiam de espaços físicos para realizar assembleias, encontros e manifestações.

As plataformas digitais criaram outra dimensão dessa atividade. Um canal pode alcançar milhões de pessoas em poucos segundos, distribuir informações e facilitar convocações em diferentes regiões do país. Sua velocidade e abrangência, entretanto, não substituem automaticamente a capacidade de organização territorial, a representação coletiva ou os processos de deliberação política.

A comunicação digital permite estabelecer contato com uma grande audiência, mas o número de seguidores não demonstra quantas pessoas participariam efetivamente de uma manifestação ou de outra atividade organizada fora da plataforma.

Há também uma diferença entre receber mensagens e participar da construção de decisões coletivas. A transformação de canais em instrumentos permanentes de organização dependerá de como seus responsáveis pretendem envolver os participantes, estabelecer prioridades e relacionar a comunicação digital às atividades políticas realizadas em comunidades, instituições e espaços públicos.

Nesse sentido, a discussão sobre a continuidade dessas estruturas vai além da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Envolve a possibilidade de que partidos e movimentos passem a utilizar redes de mensagens como parte regular de suas relações com a sociedade, combinando comunicação, participação e mobilização.

Esse modelo apresenta oportunidades e problemas. Pode facilitar a circulação de informações e ampliar a capacidade de organização de grupos sociais, mas também concentra poder nos administradores dos canais, que decidem quais mensagens serão distribuídas e quais temas receberão destaque.

A transparência sobre a administração, o financiamento e os critérios de funcionamento torna-se importante para que os participantes compreendam a natureza dos espaços que acompanham.

Outro ponto envolve o tratamento de dados pessoais. Embora os canais do WhatsApp possuam características diferentes das antigas listas de transmissão e dos grupos convencionais, a utilização política de plataformas digitais exige atenção à privacidade e às normas aplicáveis ao tratamento de informações dos usuários.

A construção de redes permanentes de comunicação também poderá modificar a atuação das oposições. Em vez de reorganizar estruturas exclusivamente durante as eleições, grupos políticos terão a possibilidade de manter contato contínuo com seus apoiadores, acompanhar debates legislativos e convocar atividades públicas ao longo de todo o mandato.

Essa perspectiva ajuda a explicar por que dirigentes das duas candidaturas demonstram interesse na permanência dos canais.

A votação presidencial de domingo definirá qual campo político ocupará o Executivo federal a partir de 2027, mas não encerrará as disputas sobre políticas econômicas, direitos sociais, funcionamento das instituições e prioridades governamentais.

As redes digitais construídas durante a campanha poderão continuar participando dessas discussões, desde que respeitem as regras legais aplicáveis a suas atividades.

Até o momento, a proposta divulgada pela CNN Brasil corresponde a uma estratégia discutida entre dirigentes políticos. Não foram apresentados um modelo definitivo de governança, uma estrutura formal de financiamento ou regras detalhadas para o funcionamento do “Exército do Lula” durante os quatro anos seguintes.

A importância da informação está na intenção de preservar a capacidade de organização adquirida durante a campanha, independentemente de quem vença a eleição presidencial.

A continuidade do “Exército do Lula” e da “Tropa do Flávio” indica que os dois campos políticos passaram a considerar a comunicação direta por aplicativos uma infraestrutura relevante não apenas para conquistar votos, mas também para sustentar posições, fiscalizar governos, divulgar propostas e organizar manifestações.

O que começou como uma disputa pelo alcance das mensagens eleitorais poderá, assim, integrar uma transformação mais duradoura das formas de participação e organização política no Brasil. Sua contribuição para a vida democrática dependerá das condições de transparência, legalidade e liberdade com que essas redes funcionarem depois das urnas.