Conversa entre os presidentes ocorre em meio à escalada das tensões comerciais globais e amplia a coordenação entre Brasília e Pequim em comércio, investimentos, BRICS e reforma da governança internacional.
Da Redação
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a reforçar a parceria estratégica entre Brasil e China em conversa telefônica com o presidente Xi Jinping, consolidando um movimento que vem redefinindo a inserção internacional brasileira desde o início do terceiro mandato. O diálogo ocorre em um momento de forte reorganização da geopolítica mundial, marcado pela intensificação da disputa entre Estados Unidos e China, pela expansão dos BRICS e pelo aumento das pressões comerciais entre as grandes potências.
Segundo informações divulgadas após a conversa, Lula reiterou o interesse brasileiro em aprofundar a cooperação econômica, tecnológica e política com Pequim, reafirmando que a relação bilateral permanece uma das prioridades da política externa nacional. Os dois líderes também discutiram temas relacionados ao fortalecimento dos BRICS, ao comércio internacional e à defesa do multilateralismo diante do atual cenário de fragmentação da economia global.
A China permanece como principal parceiro estratégico
Há mais de quinze anos, a China ocupa a posição de maior parceiro comercial do Brasil. A relação ultrapassa amplamente o intercâmbio de commodities e hoje envolve investimentos em infraestrutura, energia, tecnologia, telecomunicações, logística, mineração, indústria automotiva e transição energética.
Nos últimos anos, empresas chinesas ampliaram significativamente sua presença no país em setores considerados estratégicos, como transmissão de energia, produção de veículos elétricos, ferrovias, portos, redes digitais e fabricação de equipamentos industriais.
Essa aproximação ganhou novo impulso a partir de 2023, quando Lula promoveu uma retomada das relações diplomáticas após um período de forte desgaste entre Brasília e Pequim durante o governo anterior. Desde então, dezenas de acordos vêm sendo firmados nas áreas de ciência, tecnologia, agricultura, energia, indústria e inovação.
BRICS ganha ainda mais importância
Outro tema central da conversa foi o fortalecimento dos BRICS.
O bloco deixou de ser apenas um fórum de coordenação entre economias emergentes e passou a desempenhar papel crescente na construção de mecanismos financeiros alternativos às estruturas tradicionais dominadas pelo Ocidente.
A ampliação do grupo e o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) fazem parte dessa estratégia de diversificação das fontes de financiamento, ampliação do comércio em moedas nacionais e redução da dependência de instituições multilaterais criadas no pós-Segunda Guerra Mundial.
Para o Brasil, essa agenda representa também uma oportunidade de ampliar investimentos em infraestrutura, indústria e inovação tecnológica.
Comércio internacional atravessa período de reorganização
A conversa entre Lula e Xi acontece em um contexto de crescente instabilidade no comércio global.
Nos últimos anos, aumentaram disputas envolvendo tarifas, sanções econômicas, restrições tecnológicas e políticas industriais voltadas para a relocalização de cadeias produtivas.
Nesse ambiente, Brasil e China vêm defendendo maior previsibilidade nas regras do comércio internacional e criticando medidas consideradas unilaterais que dificultam a circulação de mercadorias, investimentos e tecnologias.
A cooperação bilateral ganha ainda mais relevância diante da necessidade de garantir segurança alimentar, estabilidade energética e acesso a minerais estratégicos para a nova economia digital e de baixo carbono.
Uma política externa baseada na multipolaridade
A aproximação com Pequim também reflete uma orientação mais ampla da diplomacia brasileira.
Desde o início do atual governo, Lula tem defendido uma política externa baseada na diversificação de parceiros, na ampliação das relações com o Sul Global e na defesa de uma ordem internacional multipolar.
Essa estratégia busca ampliar a autonomia do Brasil, evitando alinhamentos automáticos com qualquer grande potência e fortalecendo espaços multilaterais como BRICS, G20 e ONU.
Dentro dessa visão, a parceria com a China não substitui outras relações estratégicas, mas amplia a capacidade brasileira de negociar em um cenário internacional cada vez mais competitivo.
Uma parceria que tende a crescer
Os sinais emitidos pelos dois governos indicam que a cooperação bilateral continuará se aprofundando nos próximos anos.
Além do comércio, novos investimentos devem concentrar-se em infraestrutura logística, inteligência artificial, energia renovável, semicondutores, conectividade digital, pesquisa científica e desenvolvimento industrial.
Em um mundo marcado pela reorganização das cadeias globais de produção, Brasil e China procuram consolidar uma relação que ultrapassa a dimensão comercial e passa a ocupar posição central na arquitetura geopolítica do século XXI.




