Da Redação
Aos 80 anos, Luiz Inácio Lula da Silva retorna ao estádio que o projetou para a história política brasileira para iniciar a campanha por um quarto mandato. Quase meio século depois das grandes greves do ABC, o antigo líder metalúrgico enfrenta um desafio de outra dimensão: conduzir o Brasil em um mundo marcado pela disputa entre grandes potências e preservar a capacidade do país de decidir soberanamente o próprio futuro.
Há lugares que deixam de ser apenas pontos no mapa e passam a guardar a memória de um povo. A Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, é um deles. Foi naquele espaço, hoje oficialmente Estádio 1º de Maio, que dezenas de milhares de metalúrgicos se reuniram no final dos anos 1970 para desafiar patrões, enfrentar a repressão da ditadura e exigir melhores salários e condições de trabalho. Foi também ali que um torneiro mecânico pernambucano chamado Luiz Inácio Lula da Silva começou a deixar os limites do sindicalismo para se transformar em um dos personagens mais importantes da história política brasileira.
Neste domingo, 16 de agosto de 2026, Lula volta à Vila Euclides. Aos 80 anos, três vezes presidente da República, ele retorna ao lugar onde sua trajetória política ganhou dimensão nacional para iniciar oficialmente uma nova campanha ao Palácio do Planalto. Busca aquilo que nenhum outro brasileiro conquistou pelo voto: um quarto mandato presidencial. A escolha do cenário não é apenas sentimental. Há uma mensagem política cuidadosamente construída no retorno às origens. Lula começa esta campanha no mesmo chão onde, quase meio século atrás, aprendeu que organização popular e poder político eram partes de uma mesma disputa.
A distância entre aqueles dois momentos mede também a transformação do próprio Brasil. No fim da década de 1970, o ABC paulista era um dos grandes corações industriais da América Latina. As fábricas concentravam milhares de trabalhadores, o país vivia sob uma ditadura e fazer greve significava desafiar simultaneamente empresas poderosas e um regime que restringia direitos políticos e sindicais. As mobilizações de 1978, 1979 e 1980 transformaram a região em laboratório da reorganização dos trabalhadores brasileiros e ajudaram a abrir caminho para o chamado novo sindicalismo, para a criação do Partido dos Trabalhadores e para a própria redemocratização.
Lula era um produto daquele Brasil industrial. Sua força política nasceu da fábrica, do sindicato e da capacidade de traduzir questões econômicas aparentemente complexas em uma linguagem compreensível para milhares de trabalhadores. Antes de discursar na ONU, participar de reuniões do G20 ou sentar-se diante dos líderes das maiores potências do planeta, Lula falava para metalúrgicos sobre salário, inflação, jornada de trabalho e dignidade. Antes do Palácio do Planalto, houve Vila Euclides.
O caminho entre um lugar e outro foi extraordinário. Lula participou da fundação do PT em 1980, disputou a Presidência três vezes sem vencer e finalmente chegou ao Planalto em 2003, depois da histórica vitória eleitoral de 2002. Governou por dois mandatos, deixou a Presidência com enorme popularidade, viu sua sucessora Dilma Rousseff ser eleita duas vezes, acompanhou o impeachment, tornou-se alvo da Operação Lava Jato, foi preso, recuperou a liberdade, teve suas condenações anuladas e protagonizou um retorno político que poucos imaginavam possível. Em 2022, derrotou Jair Bolsonaro e voltou à Presidência vinte anos depois de sua primeira vitória nacional.
Agora, retorna novamente à Vila Euclides. Mas o mundo que o cerca já não é o mesmo — e talvez essa seja a chave para compreender o significado político da candidatura de 2026.
Uma eleição em um mundo muito mais perigoso
Quando Lula venceu sua primeira eleição presidencial, em 2002, a globalização ainda era apresentada pelas principais potências como uma marcha praticamente irreversível. A integração econômica avançava, a China entrava em um período de crescimento extraordinário e os Estados Unidos desfrutavam de uma supremacia internacional quase sem concorrentes. Vinte e quatro anos depois, aquele mundo desapareceu.
Estados Unidos e China disputam mercados, cadeias produtivas, semicondutores, inteligência artificial, telecomunicações, minerais críticos e influência política. Guerras e conflitos comerciais voltaram a ocupar o centro das relações internacionais. Tecnologia passou a ser tratada como questão de segurança nacional. Dados tornaram-se ativos estratégicos. Energia, sistemas financeiros, plataformas digitais, satélites, cabos submarinos e infraestrutura computacional passaram a fazer parte do arsenal de poder das nações.
É nesse cenário que a palavra soberania assume papel central na campanha de Lula.
O conceito deixa de representar apenas a defesa abstrata das fronteiras brasileiras. Soberania, no século XXI, significa possuir capacidade tecnológica, industrial, energética, alimentar, científica e financeira suficiente para que decisões fundamentais sobre o destino do país não sejam tomadas em Washington, Pequim, Wall Street, no Vale do Silício ou nas diretorias de grandes conglomerados internacionais.
A conjuntura torna essa discussão ainda mais concreta. O Brasil chega à eleição enfrentando novas barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos e uma relação mais tensa com Washington. As sobretaxas aplicadas pelo governo norte-americano aumentaram a pressão sobre produtos brasileiros e colocaram novamente no centro do debate a vulnerabilidade de economias excessivamente dependentes de determinados mercados. Ao mesmo tempo, a expansão dos BRICS, o crescimento da China, a reorganização das cadeias globais e a disputa por minerais críticos colocam o Brasil em uma posição estratégica rara.
O país possui petróleo, água, alimentos, biodiversidade, energia renovável, território continental, minerais estratégicos e uma das maiores populações do planeta. Tem também uma base científica relevante, instituições públicas importantes e capacidade industrial que, embora enfraquecida ao longo de décadas, ainda pode servir de fundamento para um novo ciclo de desenvolvimento. A questão que se apresenta é o que fazer com tudo isso.
É aqui que a candidatura de Lula procura encontrar sua justificativa histórica. Não se trata simplesmente de repetir os primeiros governos. O desafio de um eventual quarto mandato seria diferente: reconstruir capacidades nacionais em uma época na qual possuir tecnologia própria voltou a ser sinônimo de possuir poder.
Da fábrica aos data centers
Talvez exista uma ironia histórica particularmente poderosa no retorno de Lula ao ABC. O movimento que o projetou nasceu no coração industrial brasileiro. Hoje, uma das maiores perguntas que o país enfrenta é justamente se será capaz de voltar a produzir aquilo que consome.
Durante décadas, a participação da indústria de transformação na economia brasileira perdeu espaço. Cadeias produtivas foram desmontadas ou internacionalizadas, segmentos tecnológicos estratégicos passaram a depender fortemente do exterior e o país aprofundou sua posição como grande exportador de produtos agrícolas, minerais e outras commodities. Essa estrutura permitiu enorme capacidade exportadora, mas deixou vulnerabilidades cada vez mais evidentes em uma época na qual as potências voltaram a utilizar comércio e tecnologia como instrumentos geopolíticos.
O problema aparece de maneira particularmente clara na revolução digital. O Brasil é um dos maiores mercados digitais do mundo, mas depende de empresas estrangeiras para grande parte das plataformas, sistemas operacionais, serviços de nuvem, semicondutores e equipamentos que sustentam essa economia. A inteligência artificial tende a ampliar ainda mais essa dependência se não houver uma política nacional de ciência, infraestrutura computacional e desenvolvimento tecnológico.
Um eventual quarto governo Lula teria, portanto, diante de si uma questão que conecta diretamente o passado industrial da Vila Euclides ao futuro digital brasileiro. A soberania que no século XX dependia de siderúrgicas, refinarias, hidrelétricas, fábricas e infraestrutura pesada passa a depender também de chips, algoritmos, satélites, redes de telecomunicações, supercomputadores, data centers e capacidade nacional de proteger dados e sistemas críticos.
Não significa buscar uma autarquia impossível, como se o Brasil pudesse produzir sozinho tudo aquilo de que necessita. Nenhuma grande potência funciona dessa maneira. Significa reduzir dependências capazes de limitar decisões estratégicas e construir autonomia suficiente para negociar com diferentes polos de poder sem submissão automática a nenhum deles.
Essa mesma questão aparece na energia. O debate sobre a Margem Equatorial, a Petrobras e as possibilidades de novas reservas de petróleo coloca diante do país um dilema real: como utilizar recursos energéticos estratégicos e, simultaneamente, conduzir uma transição ambiental compatível com a emergência climática? Como impedir que novas riquezas reproduzam a velha lógica de exportar recursos brutos enquanto se importam produtos industrializados e tecnologia? Como transformar petróleo, minerais críticos, biodiversidade e energia limpa em ciência, indústria, empregos qualificados e desenvolvimento?
Não existem respostas fáceis. Mas são justamente essas perguntas que diferenciam uma eleição sobre administração de uma eleição sobre projeto nacional.
Soberania começa na vida concreta
Existe ainda outra dimensão, talvez a mais importante, dessa ideia. Um país não se torna soberano apenas porque possui petróleo, território, Forças Armadas ou tecnologia. A soberania nacional perde parte de seu significado quando milhões de cidadãos não possuem condições materiais para exercer plenamente a própria liberdade.
Para a tradição política que levou Lula da Vila Euclides ao Palácio do Planalto, a questão nacional sempre esteve ligada à questão social. Soberania também está no salário capaz de sustentar uma família, no emprego, na comida sobre a mesa, na escola pública, no SUS, na universidade, na moradia e na possibilidade de os filhos de trabalhadores ocuparem lugares que durante décadas lhes foram negados.
Essa foi uma das marcas dos primeiros governos Lula. Houve valorização real do salário mínimo, expansão do emprego, ampliação das universidades e institutos federais, fortalecimento de políticas de transferência de renda e redução da fome e da pobreza. Houve também contradições, crises e escândalos que fazem parte do balanço histórico daqueles governos e não podem ser apagados por nenhuma narrativa eleitoral. A experiência brasileira mostrou, inclusive, os limites de promover inclusão social sem alterar suficientemente algumas das estruturas produtivas e financeiras que condicionam o desenvolvimento do país.
É precisamente aí que um eventual quarto mandato teria de provar que aprendeu com a própria história. Recuperar soberania não significa simplesmente reeditar políticas de vinte anos atrás. Exigiria pensar a nova estrutura do trabalho, enfrentar a precarização, compreender o impacto da inteligência artificial sobre empregos, reconstruir capacidade industrial, ampliar investimentos científicos, formar milhões de jovens para uma economia tecnológica e garantir que os ganhos de produtividade não sejam apropriados exclusivamente por grandes corporações.
A fábrica que formou Lula mudou. O trabalhador brasileiro também mudou. Há motoristas e entregadores governados por algoritmos, trabalhadores remotos conectados a plataformas internacionais, milhões de pequenos empreendedores e uma geração que nunca entrou numa grande linha de montagem. Se o lulismo quiser falar novamente em nome do mundo do trabalho, terá de compreender esse novo trabalhador.
O peso de uma última grande batalha
Lula chega a essa disputa aos 80 anos carregando uma força e uma fragilidade que nascem do mesmo lugar: sua própria longevidade.
Poucos líderes democráticos atravessaram tantos períodos distintos da história de um país mantendo tamanho protagonismo. Lula conheceu presidentes norte-americanos de diferentes gerações, negociou com líderes chineses, europeus, africanos e latino-americanos, participou da criação do G20 político, esteve na formação original dos BRICS e acompanhou a transformação de um mundo unipolar em uma ordem internacional cada vez mais multipolar e conflitiva.
Ao mesmo tempo, sua permanência no centro da política brasileira expõe uma dificuldade de seu próprio campo. Depois de quase meio século, nenhuma liderança progressista alcançou capacidade eleitoral nacional comparável à sua. Lula continua sendo, simultaneamente, a maior força eleitoral da esquerda brasileira e a demonstração mais evidente de sua dificuldade de produzir uma sucessão.
Há ainda um país profundamente polarizado. A oposição chega competitiva a 2026, e a eleição não está decidida. Uma parcela expressiva da sociedade rejeita Lula e o PT. Novas gerações possuem referências políticas diferentes daquelas que viveram a redemocratização. O próprio Nordeste atravessa transformações sociais, religiosas, econômicas e culturais que desafiam antigas fidelidades eleitorais. E o ABC que produziu Lula já não é o mesmo ABC das grandes fábricas e assembleias multitudinárias.
Por isso, a escolha da Vila Euclides contém também um risco. A memória só possui força política quando consegue conversar com o futuro. Uma campanha baseada exclusivamente na biografia de Lula poderá emocionar aqueles que viveram sua trajetória, mas talvez não seja suficiente para uma geração que nasceu quando ele já era presidente.
A pergunta decisiva de 2026 não será apenas o que Lula fez pelo Brasil. Será o que pretende fazer com o Brasil que existirá em 2030.
É nesse ponto que soberania, desenvolvimento e democracia precisam deixar de ser palavras e se transformar em projeto.
O homem volta ao lugar onde tudo começou
Há algo profundamente humano na imagem deste domingo em São Bernardo do Campo. O homem que retorna à Vila Euclides não é aquele metalúrgico de pouco mais de 30 anos que segurava um microfone diante de dezenas de milhares de operários. Entre aquele Lula e o de hoje existem quase cinquenta anos de história brasileira.
Existem vitórias eleitorais e derrotas devastadoras. Existem greves, prisões, palácios, funerais, campanhas, crises, encontros com reis e presidentes, multidões nas ruas, processos judiciais, erros, conquistas e reviravoltas que pareceriam exageradas se pertencessem ao roteiro de um filme.
Mas existe também uma continuidade.
Em 1979, o problema colocado diante daquele dirigente sindical era saber quanto poder possuía um trabalhador diante de uma grande empresa. Em 2026, a questão que se apresenta ao presidente é saber quanto poder possui uma nação como o Brasil diante de uma ordem mundial novamente organizada pela força econômica, tecnológica e militar das grandes potências.
As escalas são incomparáveis. A pergunta fundamental, porém, permanece surpreendentemente parecida: quem tem o poder de decidir?
É isso que torna o retorno à Vila Euclides maior do que uma fotografia eleitoral.
Quase meio século atrás, trabalhadores ocuparam aquele estádio porque queriam recuperar uma parcela de poder sobre suas próprias vidas. Não aceitavam que salários, jornadas e condições de trabalho fossem definidos sem que pudessem falar. Aquelas assembleias ajudaram a produzir um movimento sindical, um partido político e uma liderança que acabaria chegando à Presidência da República.
Agora, o personagem que nasceu politicamente naquele estádio volta ao ponto de partida para defender uma ideia semelhante em escala nacional: o Brasil precisa conservar o direito de decidir o próprio destino.
Esse é o tamanho da missão que Lula pretende assumir ao pedir um quarto mandato. Não uma missão providencial nem uma tarefa pertencente a um único homem — porque nenhuma democracia pode depender de salvadores —, mas uma responsabilidade histórica que, caso receba novamente o voto da maioria, cairá sobre seus ombros em circunstâncias excepcionalmente difíceis.
Defender a soberania brasileira significará dialogar com os Estados Unidos sem aceitar tutela. Manter relações estratégicas com a China sem substituir uma dependência por outra. Fortalecer os BRICS sem abandonar outras pontes. Reconstruir a indústria. Proteger a Amazônia. Desenvolver tecnologia. Controlar infraestruturas críticas. Defender o sistema democrático. Combater a desigualdade. Formar uma nova geração de cientistas e trabalhadores. Garantir energia e segurança alimentar. E fazer tudo isso em uma ordem internacional na qual os países que não possuem estratégia própria acabam fazendo parte da estratégia de alguém.
Talvez seja por isso que o cenário escolhido para começar a campanha seja tão poderoso.
No Estádio 1º de Maio, passado e futuro encontram-se neste domingo. De um lado está o jovem metalúrgico cercado de trabalhadores durante os últimos anos da ditadura. Do outro, um presidente de 80 anos tentando convencer uma nova geração de brasileiros de que ainda possui energia, experiência e projeto para conduzir o país por mais quatro anos.
Entre os dois existe uma vida inteira.
Existe também um Brasil inteiro.
O Brasil das fábricas e o dos algoritmos. O das grandes greves e o das plataformas digitais. O país que lutava para recuperar a democracia e aquele que agora precisa protegê-la. O Brasil industrial que ajudou a produzir Lula e o Brasil que precisa decidir se pretende reconstruir sua capacidade de produzir tecnologia, conhecimento e poder.
A eleição dirá se os brasileiros querem entregar a Lula mais esse capítulo.
Mas a imagem deste 16 de agosto de 2026 já pertence à história política do país.
Quarenta e sete anos depois das grandes assembleias que o projetaram nacionalmente, Lula volta à Vila Euclides. Volta mais velho, marcado pelas batalhas de uma vida inteira e carregando todas as contradições de quem ocupou o centro do poder durante décadas.
Volta para tentar chegar ao Palácio do Planalto pela quarta vez.
E volta dizendo, essencialmente, que a batalha que começou naquele chão ainda não terminou.
Antes, tratava-se de conquistar voz para os trabalhadores.
Agora, trata-se de garantir voz a uma nação.
Porque, em um século no qual território, tecnologia, energia, dados, indústria e democracia voltaram a ser instrumentos de uma disputa brutal pelo poder mundial, talvez a questão fundamental colocada diante dos brasileiros seja tão simples quanto aquela que ecoava nas assembleias da Vila Euclides:
quem decidirá o nosso futuro?
Se depender da mensagem que Lula leva ao velho estádio neste domingo, a resposta será uma só:
o Brasil.


