No Democracia no Ar, sociólogo e presidente do PSB de Fortaleza defende que Lula apresente um projeto de futuro para conquistar eleitores indecisos, destaca a mobilização da juventude e alerta para o peso internacional da disputa eleitoral
A mobilização nas ruas, a influência das redes sociais e a necessidade de apresentar propostas concretas para o futuro do país estiveram entre os principais temas do Democracia no Ar desta quarta-feira. Em conversa com a apresentadora Sara Goes, o sociólogo, professor e presidente do PSB de Fortaleza, Osmar de Sá Ponte, analisou os desafios da campanha do Presidente Lula na reta final do segundo turno e defendeu uma estratégia capaz de dialogar com os eleitores que ainda não decidiram seu voto.
A entrevista foi transmitida pela Rádio e TV Atitude Popular, integrante da Rede Cearense de Comunicação Popular. As reflexões do professor abordaram a relação entre mobilização popular e pesquisas eleitorais, as mudanças nas expectativas da juventude, o significado político do empreendedorismo e a importância de o Presidente Lula apresentar uma agenda para o país no debate televisivo previsto para os últimos dias da campanha.
Para Osmar, a disputa exige que a campanha compreenda as transformações da sociedade brasileira e consiga traduzir suas propostas em perspectivas concretas de melhoria de vida. “Ninguém faz política sem esperança”, afirmou. Na avaliação do sociólogo, a capacidade de apresentar um horizonte de futuro pode ser decisiva para mobilizar os eleitores que ainda hesitam entre votar, anular o voto ou se abster.
Mobilização nas ruas não elimina a incerteza eleitoral
Osmar chamou a atenção para a dimensão das manifestações de apoio ao Presidente Lula em diferentes cidades brasileiras. Durante o programa, foram comentados os atos realizados em Porto Alegre e em Fortaleza, onde a mobilização popular ocorreu mesmo sem a presença do presidente em todas as atividades mencionadas.
O professor ponderou, contudo, que a participação nas ruas, embora importante, não garante o resultado das urnas. Para ele, as manifestações expressam principalmente a disposição de setores politizados da sociedade e podem contribuir para estimular outros eleitores a participar da decisão eleitoral.
“A manifestação cidadã nas ruas é muito forte do segmento mais politizado da sociedade”, observou. O desafio, segundo ele, é transformar essa participação em votos, alcançando os brasileiros que ainda não se sentem convencidos por nenhuma das candidaturas.
Osmar também destacou a necessidade de interpretar as pesquisas eleitorais com cautela. Ao comentar levantamentos que apontavam uma disputa apertada, sustentou que um cenário de empate técnico mantém a eleição aberta até a apuração dos votos.
Na avaliação do sociólogo, a campanha precisa reconhecer que a presença de apoiadores nas ruas e o desempenho nas plataformas digitais são dimensões importantes, mas insuficientes para dispensar o trabalho de convencimento. Cada voto pode ter peso decisivo em uma disputa equilibrada.
Juventude quer participar do futuro no presente
Um dos momentos centrais da entrevista foi a discussão sobre a participação da geração Z nas mobilizações políticas. Osmar avaliou que a juventude possui expectativas diferentes das gerações que cresceram sob a perspectiva de empregos duradouros e trajetórias profissionais mais previsíveis.
Para ele, compreender essas mudanças é indispensável para formular propostas políticas capazes de dialogar com os jovens. A geração que ingressa no mercado de trabalho em condições de maior instabilidade tende a valorizar a autonomia e a possibilidade de modificar suas escolhas conforme as circunstâncias.
“Eles não vivem o futuro, eles praticam o futuro hoje”, afirmou o professor, ao explicar como percebe o comportamento dessa parcela da população.
Osmar relacionou essa característica à disposição de jovens para participar de manifestações e defender mudanças políticas. Em sua leitura, a juventude não precisa necessariamente compartilhar as mesmas expectativas de transformação de gerações anteriores para se envolver na vida pública. Suas demandas podem aparecer em decisões imediatas, na busca por independência e na recusa a situações que consideram incompatíveis com suas aspirações.
A reflexão levou o sociólogo a recuperar sua experiência política durante a ditadura militar. Ele recordou manifestações estudantis realizadas em Fortaleza, quando a reunião de grupos numerosos era alvo de restrições e a repressão policial fazia parte da realidade dos movimentos de oposição ao regime.
Ao estabelecer essa relação entre diferentes gerações, Osmar defendeu que dirigentes políticos e organizações sociais estejam dispostos a ouvir os jovens, em vez de interpretar suas escolhas exclusivamente a partir de referências do passado.
Para ele, a campanha do Presidente Lula precisa incorporar essa compreensão. O debate sobre o futuro, argumentou, deve incluir oportunidades de trabalho, acesso à educação e condições para que a juventude desenvolva seus próprios projetos de vida.
Eleição brasileira tem consequências internacionais
Osmar também ampliou a análise para o cenário internacional. Segundo ele, o resultado da eleição brasileira terá consequências que ultrapassam as fronteiras nacionais, especialmente em um contexto de tensões geopolíticas e disputas comerciais.
O professor considera que a continuidade do governo Lula representa a possibilidade de o Brasil manter uma atuação diplomática voltada à negociação e à construção de entendimentos entre diferentes países.
“A eleição brasileira não atinge só o Brasil”, afirmou. Para ele, o país ocupa uma posição relevante no equilíbrio das relações internacionais, tanto pela dimensão de sua economia quanto pela capacidade de estabelecer relações com diferentes polos de poder.
Osmar criticou a utilização de instrumentos econômicos como mecanismos de pressão política, citando a política tarifária do governo de Donald Trump. Em sua avaliação, medidas comerciais aplicadas de maneira discriminatória podem comprometer a previsibilidade das relações econômicas e ampliar tensões entre países.
O sociólogo também apontou os efeitos da crise energética e do aumento dos custos de vida sobre sociedades europeias. Nesse cenário, avaliou que o Brasil tem importância como fornecedor de produtos agrícolas, matérias-primas e energia, além de exercer um papel diplomático que pode contribuir para a estabilidade internacional.
A disputa eleitoral, portanto, envolve diferentes concepções sobre o lugar do Brasil no mundo. De um lado, Osmar identifica a possibilidade de fortalecer relações multilaterais e soluções diplomáticas. De outro, vê o risco de uma orientação mais alinhada a políticas de pressão econômica e confrontação internacional.
Políticas sociais e redução das desigualdades
A discussão sobre o futuro também levou o professor a defender o papel das políticas públicas na redução das desigualdades. Osmar argumentou que o acesso à educação, à saúde e à alimentação depende de uma atuação do Estado capaz de compensar diferenças econômicas e ampliar as oportunidades disponíveis à população.
Ao abordar a trajetória das políticas educacionais brasileiras, ele lembrou que a ampliação do acesso à escola precisa ser acompanhada de condições para a permanência dos estudantes. A merenda escolar, nesse contexto, é parte de uma política que reconhece os obstáculos enfrentados por crianças que chegam à sala de aula sem alimentação adequada.
Osmar também citou o Sistema Único de Saúde (SUS) como uma conquista da democracia brasileira. Embora reconheça a necessidade de aperfeiçoamento dos serviços, destacou que a existência de um sistema público de saúde garante atendimento a pessoas que não poderiam arcar com os custos da assistência privada.
Na mesma linha, defendeu a importância de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, e de políticas que ampliem o acesso ao ensino superior. Para o professor, essas iniciativas não devem ser tratadas como privilégios, mas como instrumentos para reduzir desigualdades e criar condições de desenvolvimento social.
A crítica foi dirigida à concepção de que cada indivíduo deve resolver sozinho suas necessidades, independentemente das condições em que nasceu ou das oportunidades às quais teve acesso. Osmar argumentou que as diferenças sociais afetam diretamente as possibilidades de desenvolvimento das pessoas e, por isso, precisam ser consideradas na formulação das políticas públicas.
Ele também advertiu para o risco de discursos que associam vulnerabilidade a incapacidade individual. Em sua avaliação, uma sociedade democrática precisa assegurar direitos às pessoas em situações de fragilidade, incluindo crianças, idosos e pessoas com deficiência.
Para o sociólogo, a maneira como um país trata os grupos mais vulneráveis revela aspectos centrais de seu projeto de sociedade.
Empreendedorismo também pode ser uma prática coletiva
Outro ponto da entrevista foi a necessidade de atualizar o debate sobre o empreendedorismo e sua relação com as ideias de esquerda. Osmar questionou a interpretação que restringe o conceito à atividade empresarial individual e à busca de lucro.
Ao recordar sua experiência na Universidade Federal do Ceará (UFC), o professor relatou sua participação na implantação de uma incubadora de cooperativas, em 1997, e o trabalho de apoio a empreendimentos coletivos.
Ele contou que a proposta de empreendedorismo cooperativo enfrentou resistência em ambientes acadêmicos, onde parte dos interlocutores associava o termo exclusivamente ao capitalismo. Segundo seu relato, o economista Paul Singer manifestou apoio à iniciativa durante uma discussão na qual o projeto era criticado.
Osmar defendeu que empreender também pode significar organizar uma cooperativa, desenvolver um projeto cultural, construir uma trajetória profissional ou participar de uma iniciativa política. A palavra, nessa perspectiva, não precisa estar limitada à abertura de empresas ou à acumulação individual de recursos.
O professor citou a trajetória do Presidente Lula como exemplo de empreendedorismo político, relacionando a organização sindical, a criação de um partido e a chegada ao governo federal à capacidade de desenvolver um projeto de transformação social.
A discussão, segundo ele, exige que a esquerda reavalie conceitos e compreenda as mudanças nas relações de trabalho e nas expectativas dos trabalhadores. O desafio é reconhecer a busca por autonomia sem abandonar o compromisso com a proteção social e com a ampliação de direitos.
Essa leitura também dialoga com as expectativas da geração Z, para a qual a independência profissional pode ter importância semelhante à busca por estabilidade. Para Osmar, ignorar essa realidade dificulta a comunicação política e limita a capacidade de formular respostas para os problemas contemporâneos.
Debate televisivo exige estratégia e propostas concretas
Na parte final do programa, Osmar analisou o desempenho do Presidente Lula no debate da TV Bandeirantes e discutiu a preparação para o encontro previsto na TV Globo.
O sociólogo avaliou que a campanha precisa estabelecer com clareza o público que pretende alcançar e evitar que a disputa seja conduzida exclusivamente pelas provocações do adversário. Na sua avaliação, o candidato à reeleição deve utilizar o tempo disponível para apresentar propostas e explicar o que pretende realizar em um eventual novo mandato.
“Tem que ter uma estratégia e a estratégia é falar com a sociedade”, afirmou.
Osmar defendeu que o Presidente Lula direcione sua comunicação aos eleitores indecisos, apresentando compromissos relacionados ao desenvolvimento econômico, à geração de empregos, à educação e às políticas públicas. Para ele, o debate precisa ser uma oportunidade de expor diferenças entre os projetos de país em disputa.
O professor também criticou a concentração da campanha em acusações morais. Na sua leitura, a estratégia de responder a cada provocação pode deslocar a atenção dos eleitores das questões que afetam diretamente suas condições de vida.
O caminho proposto é apresentar uma agenda de governo compreensível, com objetivos definidos e respostas para os problemas enfrentados pela população. Osmar argumentou que a experiência administrativa do Presidente Lula pode ser mobilizada para demonstrar o que foi realizado e o que ainda precisa ser feito.
A campanha, segundo ele, deve tratar o debate como um espaço de prestação de contas e de apresentação de compromissos, evitando que o confronto pessoal ocupe todo o tempo disponível.
Osmar também considerou importante que o Presidente Lula apresente uma visão de futuro capaz de dialogar com os eleitores descontentes com a situação atual, mas que não necessariamente se identificam com a candidatura adversária. Na avaliação do professor, a disputa será decidida também pela capacidade de convencer esse segmento a participar da votação.
Redes sociais e a disputa pela opinião pública
A entrevista abordou ainda a influência das plataformas digitais sobre a formação da opinião pública. Durante o programa, Sara Goes comentou o crescimento do canal Exército do Lula, no WhatsApp, que havia alcançado a marca de sete milhões de seguidores, conforme os números mencionados na transmissão.
A discussão destacou como a circulação coordenada de mensagens pode contribuir para ampliar a visibilidade de uma candidatura e influenciar a percepção dos eleitores. A atuação nas redes, nesse contexto, exige atenção às formas pelas quais os conteúdos são distribuídos e passam a integrar as conversas cotidianas.
O debate também apontou a importância de os veículos de comunicação popular desenvolverem estratégias próprias de distribuição. Ao incentivar os espectadores a curtir, comentar e compartilhar as transmissões, o programa chamou a atenção para o funcionamento das recomendações automatizadas do YouTube.
A disputa eleitoral ocorre, assim, em ambientes diferentes, com dinâmicas próprias. A presença nas ruas permite a mobilização presencial, enquanto as plataformas digitais ampliam a circulação de mensagens e a possibilidade de alcançar públicos que não participam diretamente de atos políticos.
O desafio para as campanhas é transformar alcance em participação efetiva, sem perder de vista a necessidade de apresentar propostas e estabelecer uma comunicação capaz de responder às dúvidas dos eleitores.
“O mundo espera o nosso sucesso”
Ao concluir sua participação, Osmar retomou a defesa de uma campanha orientada pela esperança e pela apresentação de alternativas concretas para o país. Para ele, a política precisa reconhecer as dificuldades do presente sem tratar as condições existentes como limites definitivos para o futuro.
“Não temos o direito de ser pessimistas, porque o mundo espera o nosso sucesso”, afirmou o professor ao defender que o Presidente Lula utilize o debate televisivo para apresentar suas prioridades e dialogar com os brasileiros que ainda não decidiram o voto.
A mensagem final foi dirigida à responsabilidade dos eleitores diante de uma disputa que, segundo a análise apresentada no programa, permanece aberta. Osmar defendeu a participação eleitoral e ressaltou que a escolha de cada cidadão tem consequências para os rumos do Brasil.
A entrevista encerrou com um chamado à mobilização democrática e à defesa de um projeto de país que mantenha as políticas sociais, amplie as oportunidades para a juventude e preserve a capacidade brasileira de atuar diplomaticamente no cenário internacional.
Para o professor, o desafio da reta final é transformar a esperança em uma proposta política reconhecível pela população. O resultado dependerá, em parte, da capacidade de as campanhas compreenderem as expectativas dos eleitores e apresentarem respostas concretas para o futuro que desejam construir.
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