Em entrevista à Folha de S.Paulo, economista norte-americano afirma que propostas de austeridade fiscal de Flávio Bolsonaro podem comprometer o crescimento econômico e a renda dos trabalhadores. Vencedor do Nobel de 2001 também critica juros elevados, questiona o entusiasmo do mercado financeiro e adverte para os riscos de um alinhamento brasileiro à política de Donald Trump contra a China.
Da Redação
O economista norte-americano Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2001 e ex-economista-chefe do Banco Mundial, afirmou que uma eventual administração de Flávio Bolsonaro (PL) poderá representar riscos significativos para a economia brasileira, tanto no curto quanto no longo prazo. Em entrevista concedida à jornalista Bárbara Blum, da Folha de S.Paulo, publicada na noite de quinta-feira (22), Stiglitz questionou as propostas de redução de despesas públicas e de impostos apresentadas pelo candidato presidencial, advertindo que sua combinação poderá provocar contração do Produto Interno Bruto (PIB), deterioração das condições de vida das classes trabalhadora e média, aumento da desigualdade e enfraquecimento dos investimentos necessários ao desenvolvimento nacional. O economista também manifestou preocupação com a preservação das instituições democráticas brasileiras e com as consequências de um eventual alinhamento do país à política externa do presidente norte-americano Donald Trump.
As declarações, repercutidas nesta sexta-feira (23) pela Rede Estação Democracia (RED), foram apresentadas em um momento de intensa disputa sobre os rumos da política econômica brasileira. A poucos dias do segundo turno presidencial, marcado para domingo (25), as duas candidaturas defendem estratégias diferentes para enfrentar o crescimento da dívida pública, estimular investimentos e assegurar a sustentabilidade das contas governamentais. Stiglitz concentra suas críticas em uma questão central: a redução expressiva das despesas estatais, especialmente quando associada a benefícios tributários concentrados nas parcelas mais ricas da população, pode enfraquecer a demanda interna e comprometer a própria capacidade de crescimento da economia.
A avaliação contrasta com o comportamento recente dos mercados financeiros brasileiros. Após o primeiro turno, investidores reagiram positivamente aos resultados eleitorais e à possibilidade de mudanças na orientação econômica federal. Conforme os dados mencionados na entrevista, o dólar recuou para aproximadamente R$ 5 e a Bolsa brasileira alcançou a região dos 206 mil pontos. Para Stiglitz, entretanto, a valorização dos ativos financeiros não constitui evidência suficiente de que determinada política econômica produzirá prosperidade para a população. Os preços dos ativos refletem expectativas de investidores, que podem privilegiar benefícios imediatos, como reduções tributárias e alterações regulatórias, sem incorporar integralmente efeitos futuros sobre emprego, produtividade e crescimento.
O argumento do economista parte de uma distinção importante entre a rentabilidade financeira de curto prazo e o desempenho estrutural de uma economia nacional. Medidas capazes de elevar expectativas de lucro em determinados setores não produzem necessariamente expansão da atividade econômica, melhoria dos salários ou maior capacidade de investimento produtivo. Quando a redução do gasto público atinge transferências de renda e serviços essenciais, famílias que dependem desses recursos podem diminuir seu consumo, afetando o faturamento das empresas e a contratação de trabalhadores.
Stiglitz considera especialmente problemática a hipótese de cortes de despesas superiores ao estímulo econômico gerado por reduções de impostos. Nesse cenário, a demanda agregada pode diminuir, provocando desaceleração ou contração da produção. A intensidade desse efeito dependeria da composição dos cortes, das condições macroeconômicas e das respostas do investimento privado, mas o economista sustenta que uma política de austeridade dessa natureza apresenta riscos frequentemente subestimados pelos mercados.
A crítica adquire relevância diante da proposta de ajuste fiscal apresentada por Flávio Bolsonaro, cuja equipe econômica anunciou a intenção de reduzir despesas em aproximadamente R$ 200 bilhões. O candidato afirma que pretende preservar os benefícios sociais e alcançar parte da economia mediante reorganização administrativa, extinção de ministérios, revisão de gastos e melhor aproveitamento do patrimônio público. A dificuldade apontada por Stiglitz está na necessidade de demonstrar como uma redução dessa magnitude poderia ser executada sem atingir programas sociais, educação, serviços públicos e investimentos.
As despesas federais possuem diferentes graus de obrigatoriedade e respondem por funções econômicas distintas. Gastos administrativos, transferências previdenciárias, benefícios assistenciais e investimentos em infraestrutura não produzem efeitos equivalentes sobre a atividade. Por essa razão, uma avaliação rigorosa da proposta exige identificar quais rubricas seriam modificadas e como essa alteração repercutiria sobre a produção, o consumo e o emprego.
Essa discussão também apareceu em estudo divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), que simulou os efeitos de um ajuste fiscal próximo de R$ 194 bilhões. Segundo a modelagem da instituição, a redução de despesas poderia diminuir o crescimento do PIB em 1,55 ponto percentual em 2027, reduzir a massa salarial e provocar uma quantidade de postos de trabalho inferior àquela esperada sem os cortes. As projeções dependem das hipóteses utilizadas, principalmente da distribuição dos ajustes entre diferentes categorias de despesa, e não representam consequências inevitáveis do programa de Flávio Bolsonaro.
A análise de Stiglitz converge com a preocupação central do estudo: políticas de austeridade podem produzir efeitos indiretos sobre a demanda e a arrecadação, reduzindo parte dos ganhos fiscais inicialmente esperados. Isso não significa que os dois trabalhos tenham utilizado o mesmo modelo ou que exista uma previsão única para a economia brasileira. O ponto comum está na necessidade de considerar os impactos sociais e produtivos das escolhas orçamentárias.
O Nobel de Economia também identifica consequências de longo prazo. Na sua avaliação, cortes em educação, infraestrutura e desenvolvimento tecnológico comprometem fatores essenciais para elevar a produtividade e ampliar a capacidade competitiva de um país. Ao contrário das despesas que produzem efeitos imediatos, investimentos em formação profissional, ciência e infraestrutura frequentemente apresentam resultados distribuídos ao longo de décadas. Justamente por essa característica, podem se tornar alvos de medidas de contenção orçamentária cujos efeitos negativos não aparecem integralmente no primeiro ano.
Para uma economia como a brasileira, marcada por desigualdades sociais, dificuldades de inovação e desafios de produtividade, a redução persistente desses investimentos pode limitar oportunidades de desenvolvimento e ampliar a distância tecnológica em relação às economias mais avançadas.
A advertência não constitui uma previsão numérica de quanto o Brasil deixaria de crescer sob determinada administração. Trata-se de uma análise dos mecanismos pelos quais escolhas fiscais podem afetar a capacidade produtiva e as condições sociais ao longo do tempo.
Stiglitz defende que crescimento econômico sustentável depende de investimento, qualificação da força de trabalho, infraestrutura, inovação e funcionamento eficiente do sistema financeiro. A redução da desigualdade, nesse entendimento, também pode contribuir para ampliar o mercado interno e fortalecer as condições de desenvolvimento.
Juros elevados e o custo financeiro da dívida pública
Outro ponto central da entrevista é a crítica à taxa de juros brasileira. Stiglitz observa que o país enfrenta custos financeiros elevados, capazes de comprometer investimentos produtivos e ampliar as despesas associadas ao endividamento público. Em sua avaliação, a discussão fiscal não pode ser limitada ao comportamento das despesas primárias, pois os encargos financeiros também influenciam fortemente a trajetória das contas governamentais.
A distinção entre resultado primário e resultado nominal é relevante para compreender o argumento. O primeiro considera a diferença entre receitas e despesas públicas antes dos juros da dívida. O segundo incorpora os encargos financeiros. Assim, um governo pode registrar melhora ou superávit primário e, ainda assim, apresentar déficit nominal expressivo quando os juros pagos sobre a dívida são elevados.
O economista sustenta que as taxas brasileiras permanecem excessivamente altas diante das condições de inflação, impondo dificuldades à expansão das empresas e ao financiamento de novos projetos. O custo do crédito afeta decisões de investimento, consumo e produção, enquanto a remuneração elevada de determinados ativos financeiros pode tornar aplicações de curto prazo mais atraentes que empreendimentos produtivos sujeitos a riscos e maturação prolongada.
Essa interpretação também coloca em debate a distribuição dos custos e benefícios da política monetária. Juros elevados podem contribuir para conter pressões inflacionárias, mas igualmente encarecem empréstimos, dificultam a atividade empresarial e ampliam as despesas financeiras do setor público. A intensidade desses efeitos depende das condições econômicas e das expectativas de inflação.
Stiglitz não ignora a necessidade de estabilidade monetária. Sua crítica se dirige ao patamar das taxas e aos custos que, segundo sua avaliação, a economia brasileira suporta quando o financiamento permanece excessivamente caro.
O economista também contesta a percepção de que o governo Lula tenha sido necessariamente prejudicial aos mercados. Na entrevista, afirmou que a administração petista apresentou resultados positivos para investidores, embora ainda enfrente dificuldades econômicas importantes. Seu argumento procura separar a avaliação dos resultados observados da expectativa de que uma política de cortes mais intensa produza automaticamente maior eficiência econômica.
A discussão, portanto, não se resume a uma contraposição simples entre responsabilidade fiscal e expansão das despesas públicas. Envolve a composição do ajuste, o funcionamento do sistema financeiro, a capacidade de investimento e a distribuição dos benefícios do crescimento.
China, Estados Unidos e a autonomia econômica brasileira
A entrevista também abordou a política externa e as consequências econômicas de um eventual alinhamento do Brasil à estratégia internacional de Donald Trump. Stiglitz condenou as tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos e criticou a utilização de pressões econômicas relacionadas a questões políticas e judiciais brasileiras.
Segundo o economista, o emprego de instrumentos comerciais para interferir em assuntos internos de outros países representa um problema para as relações internacionais e para a autonomia das instituições nacionais.
Sua advertência mais direta diz respeito à China. O país asiático ocupa posição central no comércio exterior brasileiro, absorvendo parcela expressiva das exportações nacionais e participando de cadeias de fornecimento importantes para a produção doméstica. Uma política externa que subordinasse as relações comerciais brasileiras às prioridades estratégicas de Washington poderia, na avaliação de Stiglitz, gerar prejuízos econômicos significativos.
A preocupação decorre da crescente rivalidade entre Estados Unidos e China, que envolve tarifas, tecnologia, investimentos, cadeias produtivas e disputas por influência internacional. Para economias que mantêm relações comerciais relevantes com ambos, a adoção de posições rígidas de alinhamento pode produzir custos adicionais.
O Brasil exporta para a China produtos agropecuários, minerais e outros bens, enquanto importa equipamentos, componentes industriais e mercadorias essenciais a diferentes setores. Também possui relações econômicas e institucionais importantes com os Estados Unidos. A manutenção de vínculos diversificados constitui, nesse contexto, uma questão de interesse econômico concreto.
Stiglitz argumenta que uma estratégia de hostilidade à China, adotada prioritariamente para acompanhar a política de Trump, poderia comprometer oportunidades comerciais e investimentos necessários ao desenvolvimento brasileiro. Essa é uma avaliação sobre os riscos de determinada orientação diplomática, não uma demonstração de que todas as propostas de Flávio Bolsonaro já estejam formalmente definidas nesse sentido.
A questão exige examinar as posições efetivamente apresentadas pela candidatura sobre comércio, investimentos, relações com Washington e vínculos com Pequim.
O alerta amplia o debate eleitoral para além do orçamento interno. Em um cenário de tensões geopolíticas e reorganização das cadeias produtivas, decisões de política externa podem influenciar a competitividade industrial, o acesso a mercados e a capacidade de atrair investimentos.
Democracia e desenvolvimento na avaliação de Stiglitz
A preocupação do Nobel de Economia não se restringe ao desempenho econômico. Na entrevista, Stiglitz também afirmou que os riscos institucionais associados à candidatura de Flávio Bolsonaro devem ser considerados com seriedade.
Antes do primeiro turno, o economista havia participado de um manifesto publicado no jornal francês Le Monde, ao lado de personalidades como Thomas Piketty, Chico Buarque e Raí, em que os signatários manifestaram preocupações com o futuro democrático brasileiro.
A participação no documento expressa seu posicionamento político e institucional sobre a disputa. Sua análise econômica, por sua vez, apresenta argumentos específicos sobre política fiscal, distribuição de renda, investimentos públicos e relações internacionais. Embora esses temas estejam relacionados em sua interpretação, é importante não confundir uma manifestação política de preocupação com uma conclusão judicial sobre eventuais violações das instituições.
A relação entre democracia e desenvolvimento ocupa espaço importante na trajetória intelectual de Stiglitz. O economista tornou-se conhecido por seus estudos sobre assimetria de informações, funcionamento dos mercados e limites da hipótese de que decisões individuais produzam espontaneamente resultados socialmente eficientes. Seus trabalhos contribuíram para questionar a ideia de que a intervenção pública seja necessariamente prejudicial ao crescimento e para examinar situações em que falhas de mercado justificam políticas estatais.
Essa perspectiva ajuda a compreender sua preocupação com investimentos públicos e desigualdade. Na avaliação de Stiglitz, políticas econômicas precisam considerar não apenas os resultados agregados, mas também a distribuição de oportunidades, a qualidade dos serviços disponíveis à população e a capacidade de construir condições duradouras de desenvolvimento.
O debate brasileiro torna essas questões particularmente relevantes. A redução da pobreza, a ampliação do emprego formal e o aumento da produtividade dependem de diferentes fatores, incluindo crescimento econômico, estabilidade de preços, investimento privado, infraestrutura, educação e políticas sociais. O desafio fiscal está em compatibilizar essas necessidades com a sustentabilidade das contas públicas.
A proposta de Flávio Bolsonaro enfatiza uma redução mais intensa das despesas e mudanças administrativas. O governo Lula, por sua vez, defende a continuidade das regras fiscais vigentes e aposta na combinação entre atividade econômica, arrecadação e políticas públicas para enfrentar os desequilíbrios.
Nenhuma dessas estratégias pode ser avaliada exclusivamente por suas intenções declaradas. Seus resultados dependem da composição concreta das medidas, das condições macroeconômicas e de sua implementação.
A contribuição da entrevista de Joseph Stiglitz está em questionar uma hipótese frequentemente presente no debate financeiro: a de que um ajuste fiscal mais severo, acompanhado de redução de impostos, produzirá necessariamente crescimento e melhora das condições econômicas.
O economista argumenta que o efeito pode ser oposto quando a contração da despesa pública enfraquece a demanda, compromete investimentos de longo prazo e amplia dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores.
Sua avaliação também acrescenta uma dimensão internacional à discussão, ao advertir que decisões comerciais e diplomáticas podem limitar oportunidades de desenvolvimento se forem orientadas prioritariamente pelos interesses estratégicos de outra potência.
As declarações de Stiglitz representam a análise de um economista de reconhecida trajetória acadêmica, mas não constituem uma previsão definitiva sobre o desempenho brasileiro sob qualquer candidatura. Os efeitos efetivos dependeriam das medidas adotadas, da resposta da economia e das condições internacionais.
A entrevista apresenta, contudo, questões concretas para o exame das propostas: quais despesas seriam reduzidas, como os cortes afetariam a renda e a atividade, qual seria o tratamento dado aos investimentos públicos, que mudanças seriam propostas para o sistema tributário e como o Brasil administraria suas relações econômicas com Estados Unidos e China.
Na reta final do segundo turno, essas perguntas permanecem relevantes independentemente das oscilações dos mercados financeiros e das expectativas expressas por investidores.
O alerta de Joseph Stiglitz coloca no centro da discussão uma distinção fundamental: melhorar indicadores financeiros de curto prazo não é necessariamente o mesmo que ampliar a capacidade de produção, elevar os rendimentos das famílias e construir condições de desenvolvimento sustentável. A avaliação das alternativas econômicas exige considerar esses diferentes resultados e os efeitos distributivos das escolhas de política pública.



