Pastor da igreja de Flávio Bolsonaro defendeu “destronar” Nossa Senhora Aparecida e mobilizar Congresso contra título de Padroeira

Da Redação

Trechos do livro A Bomba, publicado em 2001 pelo bispo J. B. Carvalho, fundador da Comunidade das Nações, mostram que o líder religioso defendeu expressamente que Nossa Senhora Aparecida deixasse de ser reconhecida como Padroeira do Brasil e questionou a legalidade do feriado de 12 de outubro. Flávio Bolsonaro e a mulher foram batizados na igreja de Carvalho em 2024, o senador frequenta a denominação e escolheu o templo para sua primeira aparição pública depois de anunciar a pré-candidatura presidencial. A descoberta acrescenta um fato documentado à controvérsia que tomou conta da eleição, mas não comprova que Flávio tenha adotado a posição de seu pastor. O candidato nega que pretenda retirar o título de Aparecida e não há projeto atual de sua autoria com esse objetivo. Metrópoles

O documento existe. Foi publicado há 25 anos. E as palavras são inequívocas.

Muito antes de a permanência de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil transformar-se em uma das maiores controvérsias da reta final da eleição presidencial de 2026, o bispo J. B. Carvalho, fundador da Comunidade das Nações e atual líder da igreja frequentada por Flávio Bolsonaro, dedicou parte de um livro a defender justamente a retirada desse reconhecimento.

Na obra A Bomba: A verdade pode ser explosiva, publicada em 2001, Carvalho desenvolve uma extensa crítica à devoção mariana e sustenta que o caráter laico do Estado brasileiro seria incompatível com o reconhecimento oficial de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do país.

A passagem mais importante não deixa a proposta implícita. Segundo os trechos da obra reproduzidos neste fim de semana por diferentes veículos, Carvalho escreveu que “está na hora de destronarmos a Rainha em nossa nação”. Mais adiante, conclamou cristãos e parlamentares a atuar para que “Aparecida não seja mais Senhora em nossa nação”. Diário do Centro do Mundo

Não se trata, portanto, apenas de uma divergência teológica sobre a veneração de Maria.

O autor transporta sua posição religiosa para o terreno institucional. Questiona a Lei 6.802, de 1980, que reconhece Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil e transforma 12 de outubro em feriado nacional, e sustenta que a norma seria incompatível com a separação entre Igreja e Estado. Diário do Centro do Mundo

Essa é uma interpretação jurídica de J. B. Carvalho. Não existe decisão judicial citada nas reportagens que declare ilegal a Lei 6.802. Ao contrário, a norma permanece em vigor e, na base oficial da Câmara dos Deputados, não consta revogação expressa. Seu artigo primeiro determina que 12 de outubro é feriado nacional “para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil”. Portal da Câmara dos Deputados

A Constituição de 1988, por sua vez, estabelece no artigo 19 que União, estados, Distrito Federal e municípios não podem estabelecer ou subvencionar cultos religiosos ou igrejas, nem manter com eles relações de dependência ou aliança, ressalvada a colaboração de interesse público. A mesma Constituição protege expressamente a liberdade de consciência e de crença e o livre exercício dos cultos religiosos. A compatibilidade entre esses dispositivos constitucionais e a legislação sobre Aparecida é uma questão jurídica distinta da afirmação de Carvalho de que a lei seria simplesmente ilegal. Planalto

O aparecimento do livro no centro da campanha é politicamente relevante por outra razão.

J. B. Carvalho não é uma liderança religiosa distante da trajetória recente de Flávio Bolsonaro.

É o fundador da igreja à qual o candidato está atualmente ligado.

Flávio foi batizado na igreja de Carvalho e manteve relação pública com o bispo

A ligação entre os dois é documentada.

Flávio afirma que sua conversão religiosa ocorreu efetivamente em 2022. Em 2024, ele e a mulher, Fernanda Bolsonaro, foram batizados na Comunidade das Nações, fundada por J. B. Carvalho em Brasília. Desde então, o senador passou a frequentar a denominação e manteve relação pública com o bispo. Reportagem da Folha de S.Paulo publicada em março deste ano já descrevia Flávio como ligado à Comunidade das Nações e identificava Carvalho como apoiador de Jair Bolsonaro. Folha de S.Paulo

A relação permaneceu visível depois que Flávio entrou definitivamente na corrida presidencial.

Em 7 de dezembro de 2025, dois dias após anunciar sua pré-candidatura à Presidência, o senador escolheu justamente a Comunidade das Nações para fazer sua primeira aparição pública depois do anúncio. Metrópoles

A proximidade de Carvalho também alcançou outros integrantes da família.

Em novembro de 2025, quando Jair Bolsonaro estava preso na Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal, Flávio levou ao pai o livro Metanoia – A Chave Está Em Sua Mente, escrito pelo bispo. Em janeiro deste ano, Michelle Bolsonaro levou ao ex-presidente outra obra de Carvalho, A jornada de meninos a homens. O bispo também participou de eventos e manifestações públicas de solidariedade à família Bolsonaro. Diário do Centro do Mundo

Isso estabelece uma relação religiosa e política concreta.

Mas existe uma distinção fundamental: a proximidade de Flávio com J. B. Carvalho não demonstra que o candidato concorde com todas as posições publicadas pelo bispo.

Até agora não apareceu evidência pública de que Flávio tenha defendido explicitamente a retirada do título de Nossa Senhora Aparecida.

Ao contrário, quando a controvérsia explodiu nas redes na quinta-feira, 24, o candidato publicou um vídeo negando categoricamente qualquer intenção dessa natureza.

Flávio afirmou que era mentira dizer que pretendia retirar a condição de Padroeira do Brasil e disse que não existia projeto seu nesse sentido. Também declarou respeitar todas as religiões e pessoas sem religião. CNN Brasil

Essa negativa continua sendo um fato e precisa permanecer registrada.

O que a descoberta do livro modifica é o contexto da controvérsia.

A afirmação de que Flávio Bolsonaro possui um projeto para retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil não está comprovada. Não existe proposta atual de autoria do candidato com esse conteúdo.

Mas agora também está documentado que o líder da igreja na qual Flávio foi batizado e que ele frequenta defendeu exatamente essa mudança anos antes de o tema explodir na eleição. Metrópoles

São duas afirmações diferentes e ambas precisam ser preservadas para que o episódio seja compreendido corretamente.

Há ainda uma coincidência de linguagem que chama atenção, embora também não seja suficiente para demonstrar identidade de posições.

Em agosto, ao justificar sua ausência no primeiro debate presidencial da campanha, Flávio afirmou que, caso fosse eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. CNN Brasil

No livro de Carvalho, a defesa da retirada do reconhecimento nacional de Aparecida termina justamente com uma convocação para que Jesus Cristo seja reconhecido como único Senhor do Brasil. Metrópoles

A semelhança entre as formulações é verificável.

A conclusão de que uma decorre necessariamente da outra, não.

Flávio não mencionou Nossa Senhora Aparecida quando fez sua declaração em agosto. Também não há, nas fontes examinadas, demonstração de que estivesse citando Carvalho ou anunciando uma medida jurídica concreta.

O vínculo entre os dois torna legítima uma pergunta jornalística objetiva: Flávio conhece a posição de J. B. Carvalho sobre Nossa Senhora Aparecida e concorda ou discorda dela?

A resposta a essa pergunta é diferente da acusação de que o próprio candidato já possua um projeto para retirar o título da santa.

A história do projeto de 2007 também tem origem evangélica, mas não é de Flávio

A confusão aumentou porque existe, de fato, um projeto de lei que tentou modificar o reconhecimento de Nossa Senhora Aparecida.

Ele não é de Flávio Bolsonaro.

O Projeto de Lei 2.623 foi apresentado em 12 de dezembro de 2007 pelo então deputado federal Professor Victório Galli, na época filiado ao PMDB de Mato Grosso. O registro oficial da Câmara não deixa dúvida sobre a autoria. Portal da Câmara dos Deputados

O texto pretendia alterar a Lei 6.802.

Em vez de “Padroeira do Brasil”, Nossa Senhora Aparecida passaria a ser definida como “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta também substituiria a expressão “culto público e oficial” por “homenagem oficial”. Portal da Câmara dos Deputados

Galli justificava a alteração recorrendo, assim como Carvalho em seu livro, ao princípio do Estado laico.

“O País, por ser um Estado laico, não deve ter este ou aquele padroeiro”, declarou o então deputado na época, segundo registro da própria Câmara. Portal da Câmara dos Deputados

O projeto foi rejeitado na comissão responsável pela análise de mérito e arquivado em 22 de agosto de 2008. Não está atualmente em tramitação. Portal da Câmara dos Deputados

Portanto, três fatos precisam ser separados.

O projeto existiu.

Seu autor foi Victório Galli.

Flávio Bolsonaro não aparece como autor da proposta.

A ligação política posterior de Galli com o bolsonarismo também existe. Depois de deixar a Câmara, o ex-deputado foi nomeado assessor especial da Presidência durante o governo Jair Bolsonaro. Isso estabelece uma relação política posterior, mas não transforma o projeto de 2007 em uma proposta da família Bolsonaro. Estado de Minas

O livro de J. B. Carvalho acrescenta agora uma segunda origem documentada para a mesma ideia dentro de setores evangélicos.

E, cronologicamente, é ainda anterior ao projeto parlamentar.

A Bomba foi publicado em 2001.

O projeto de Victório Galli surgiu em 2007.

As duas manifestações utilizaram argumentos relacionados à laicidade do Estado para questionar a condição de Aparecida como Padroeira do Brasil, embora tenham surgido de pessoas diferentes e não haja, nas fontes consultadas, demonstração de coordenação entre elas. Diário do Centro do Mundo

Carvalho vai além da formulação institucional.

Em outros trechos atribuídos ao mesmo livro, ele apresenta uma crítica teológica severa à devoção mariana e relaciona a veneração da chamada “Rainha dos Céus” a tradições religiosas que considera incompatíveis com o cristianismo. Reportagem publicada neste fim de semana pelo Metrópoles recuperou passagens nas quais o bispo condena explicitamente esse culto. Metrópoles

Essa é uma posição religiosa de Carvalho e deve ser tratada como tal. Catolicismo e diferentes denominações protestantes possuem divergências históricas profundas sobre Maria, os santos, intercessão e veneração. A existência dessa divergência teológica não autoriza atribuir automaticamente a todos os evangélicos a posição específica do bispo.

Também não significa que qualquer crítica protestante à veneração de santos se transforme automaticamente em uma proposta para alterar a legislação brasileira.

No caso de Carvalho, porém, essa passagem efetivamente ocorreu: segundo os trechos recuperados do livro, ele saiu da crítica teológica e defendeu ação política para mudar o reconhecimento oficial de Aparecida. Metrópoles

É justamente isso que torna o documento relevante para a controvérsia atual.

A revelação surge no momento em que o STF reabre o debate que o TSE havia mandado retirar das redes

O livro reaparece num momento particularmente sensível.

Durante aproximadamente três dias, a controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida se transformou em um dos assuntos políticos mais compartilhados do país. Um levantamento divulgado neste fim de semana registrou aproximadamente 977 mil publicações e 8,5 milhões de interações em 55 horas. Brasil 247

A campanha de Flávio reagiu judicialmente.

Na sexta-feira, 25, o ministro André Mendonça, atuando no Tribunal Superior Eleitoral, determinou a retirada de publicações que apresentavam como fato a alegação de que Flávio ou sua família pretendiam retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A ordem alcançou diferentes plataformas digitais. SBT News

A campanha sustentou que estava diante de uma informação objetivamente falsa capaz de provocar danos eleitorais.

Neste domingo, porém, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, derrubou parte das determinações de Mendonça ao analisar o caso do humorista Antonio Tabet.

Tabet havia publicado uma fotografia de Nossa Senhora Aparecida acompanhada de uma crítica àquilo que chamou de “família miliciana”, sem mencionar nominalmente Flávio Bolsonaro. Mendonça determinara a retirada.

Dino concluiu que não havia grau de certeza suficiente sobre a ilicitude daquela manifestação para justificar uma restrição tão severa à liberdade de expressão durante uma campanha eleitoral. Mandou restabelecer a publicação e outros conteúdos retirados pelo mesmo fundamento. UOL Notícias

A decisão de Dino não declara verdadeira a afirmação de que Flávio pretenda retirar o título de Nossa Senhora Aparecida.

O que ela estabelece é outra coisa: críticas, opiniões, associações políticas e manifestações religiosas não podem ser automaticamente equiparadas a uma afirmação factual falsa e removidas em bloco sem análise adequada de seu conteúdo. Folha de S.Paulo

A descoberta do livro de Carvalho torna essa distinção ainda mais necessária.

Agora existem pelo menos quatro elementos diferentes circulando dentro da mesma controvérsia.

Há uma acusação não comprovada de que Flávio pretende retirar o título da Padroeira.

Há uma negativa expressa do candidato.

Há um projeto antigo, de 2007, apresentado por Victório Galli e arquivado em 2008.

E há agora a posição documentada de J. B. Carvalho, líder da igreja frequentada por Flávio, que efetivamente defendeu em livro que Nossa Senhora Aparecida deixasse de ser reconhecida como Padroeira do Brasil. CNN Brasil

Misturar essas quatro coisas produz desinformação.

Ignorar qualquer uma delas também produz uma descrição incompleta do episódio.

O fato documental mais novo é particularmente relevante porque desloca parte da discussão.

Até este fim de semana, o debate girava principalmente em torno de uma pergunta: existe ou não uma proposta de Flávio Bolsonaro contra o título de Nossa Senhora Aparecida?

Não apareceu evidência pública de que exista.

Agora surge outra pergunta: qual é a posição do candidato diante da proposta defendida pelo líder religioso da igreja em que ele próprio foi batizado?

Essa questão não pode ser respondida por associação.

Flávio pode concordar com Carvalho, discordar dele ou considerar que uma posição escrita pelo bispo em 2001 não representa sua própria visão política em 2026. O vínculo religioso entre os dois não permite presumir nenhuma dessas respostas.

Mas o documento torna a pergunta factual e jornalisticamente pertinente.

E ela ganha peso adicional porque o próprio candidato decidiu colocar a religião no centro de sua identidade política ao anunciar que, se eleito, pretende decretar o Brasil como pertencente a Jesus Cristo. CNN Brasil

A eleição entra na última semana com essa diferença essencial finalmente mais clara.

Não há evidência pública de que Flávio Bolsonaro tenha apresentado ou apoiado um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Ele nega que pretenda fazê-lo.

Ao mesmo tempo, há evidência publicada de que J. B. Carvalho, fundador da igreja à qual Flávio está ligado e onde o candidato e sua mulher foram batizados, defendeu expressamente essa retirada, questionou a legalidade do feriado de 12 de outubro e conclamou cristãos e parlamentares a trabalhar para modificar essa situação. Metrópoles

O primeiro fato impede atribuir ao candidato uma proposta que não foi demonstrada.

O segundo impede tratar como inexistente a presença dessa ideia no círculo religioso ao qual ele está publicamente vinculado.

A partir daí, a questão deixa de depender de rumores nas redes sociais. Há um livro, há palavras registradas e há uma relação pública entre o autor e o candidato.

O que falta saber é o que Flávio Bolsonaro pensa sobre aquilo que seu próprio líder religioso escreveu.