Pesquisa internacional com especialistas mostra apoio recorde à atuação brasileira e forte desconfiança em relação a Washington
Da Redação
A política externa do governo do Presidente Lula é aprovada por 88% dos especialistas brasileiros consultados pelo relatório Tested, Trusted, Torn? Emerging Middle Powers Report 2026. Ao mesmo tempo, 79% avaliam negativamente a influência dos Estados Unidos no Brasil, em um cenário marcado pelas tarifas impostas pelo governo Donald Trump e pelas pressões de Washington sobre países que buscam preservar autonomia diplomática.
Divulgado pela fundação alemã Körber-Stiftung, o estudo aponta uma mudança expressiva na avaliação da atuação internacional do Brasil. Em 2023, primeiro ano do atual governo Lula, 69% dos entrevistados consideravam negativa a condução da política externa. Agora, apenas 12% fazem essa avaliação, enquanto a aprovação alcança o maior percentual registrado no país pela série.
A pesquisa não perguntou diretamente se os participantes aprovavam Lula ou Trump. Os dados medem a avaliação da política externa do governo brasileiro e a percepção sobre a influência dos Estados Unidos no país. O contraste, no entanto, revela como especialistas brasileiros observam as escolhas dos dois governos no plano internacional.
Política externa de Lula atinge aprovação recorde
A recuperação da avaliação brasileira ocorre em um período no qual o governo Lula procura ampliar a presença do país em negociações comerciais, fóruns multilaterais e articulações do Sul Global. A Presidência da República foi apontada por 93% dos entrevistados como um dos principais centros de formulação da política externa nacional, dez pontos acima do resultado de 2024.
O Ministério das Relações Exteriores aparece logo depois, mencionado por 88% dos participantes. Os números mostram que a atuação internacional é associada diretamente às decisões do governo e à diplomacia conduzida pelo Itamaraty.
O relatório interpreta o resultado como uma inversão clara em relação a 2023. A aprovação de 88% também supera a registrada em Índia, Alemanha, África do Sul e Indonésia, os demais países incluídos no levantamento.
O estudo foi encomendado pela Körber-Stiftung e realizado pela empresa forsa entre 26 de janeiro e 7 de abril de 2026. No Brasil, foram ouvidos 341 especialistas ligados ao governo, universidades, centros de pesquisa, empresas, organizações sociais, imprensa e outras instituições.
A amostra não é aleatória nem representa o conjunto da população brasileira. Os participantes foram convidados individualmente pela fundação e por instituições parceiras, entre elas o BRICS Policy Center, vinculado à PUC-Rio.
Influência dos Estados Unidos sofre ampla rejeição
Enquanto a atuação internacional do governo Lula recebe aprovação elevada, a influência dos Estados Unidos no Brasil é considerada negativa por 79% dos entrevistados. Apenas 20% apresentam uma avaliação positiva.
O relatório relaciona essa desconfiança à postura adotada por Washington, especialmente após as medidas tarifárias do governo Trump. Em 2025, o Brasil esteve entre os países mais atingidos pelo aumento unilateral das tarifas norte-americanas. Segundo o documento, taxas de 50% afetaram cerca de um terço dos produtos brasileiros enviados aos Estados Unidos.
Mesmo diante da rejeição, Washington continua sendo considerado um parceiro necessário. Os especialistas colocam os Estados Unidos como a segunda relação bilateral mais importante do Brasil, atrás apenas da China.
A pesquisa identifica, assim, uma relação na qual importância e desaprovação convivem. A economia norte-americana permanece relevante para o comércio e os investimentos brasileiros, mas as ações do governo Trump são percebidas como fontes de pressão e incerteza.
China supera Estados Unidos na avaliação dos especialistas
A China foi apontada como a principal parceira bilateral do Brasil. Sua influência no país é considerada positiva por 83% dos entrevistados, enquanto 16% fazem uma avaliação negativa.
A diferença em relação aos Estados Unidos é ampla. Enquanto a presença chinesa reúne aprovação majoritária, a influência norte-americana é rejeitada por quase oito em cada dez especialistas consultados.
A preferência pela relação com a China, porém, não significa adesão automática a Pequim. Cerca de 80% dos participantes defendem que o Brasil permaneça não alinhado diante da rivalidade entre chineses e norte-americanos.
A aproximação com o lado chinês recebe aproximadamente 14% das respostas, enquanto apenas cerca de 4% defendem que o país se coloque ao lado dos Estados Unidos. A posição predominante consiste em manter relações com ambas as potências sem subordinar a política externa brasileira a qualquer uma delas.
O relatório define esse não alinhamento como uma busca por autonomia, não como neutralidade. O Brasil procura negociar com diferentes governos, participar de coalizões variadas e preservar capacidade própria de decisão.
Comércio exterior ocupa o centro da estratégia
O comércio internacional foi apontado por 43% dos entrevistados como uma das principais prioridades da política externa brasileira. A organização do sistema internacional aparece com 31%, enquanto clima e meio ambiente foram mencionados por 20%.
Em artigo incluído no relatório, a secretária de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Tatiana Prazeres, analisa a resposta do Brasil às tarifas adotadas pelo governo Trump.
Segundo Prazeres, o país priorizou o diálogo e a busca por soluções de interesse mútuo, mas deixou claro que qualquer entendimento precisaria respeitar os interesses nacionais. A secretária avalia que as pressões comerciais aumentaram a necessidade de diversificar parceiros e reduzir a dependência de relações bilaterais específicas.
Essa orientação aparece nas respostas da pesquisa. Para 62% dos especialistas brasileiros, o país deve ampliar a diversificação comercial por meio de acordos bilaterais. Outros 33% defendem o fortalecimento da Organização Mundial do Comércio e dos tratados multilaterais. Apenas 2% apontam medidas protecionistas como caminho prioritário.
A predominância internacional do dólar também enfrenta resistência: 76% consideram desfavoráveis seus efeitos para o Brasil, enquanto somente 16% fazem uma avaliação positiva.
Brasil busca espaço em uma ordem fragmentada
Para 46% dos especialistas brasileiros, o poder internacional está atualmente dividido entre Estados Unidos e China. Outros 28% identificam uma distribuição entre Estados Unidos, China e Rússia, enquanto 16% consideram que o poder está repartido entre várias nações.
Sobre os próximos anos, 49% acreditam que a ordem internacional será conduzida por acordos regionais, articulações plurilaterais e grupos menores de países. Apenas 9% esperam a recuperação de um multilateralismo baseado em cooperação global forte.
A reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas foi apontada por 46% dos brasileiros como a mudança internacional mais urgente. A estrutura financeira recebeu 25% das respostas, seguida pelas regras comerciais, com 21%.
Apesar da avaliação favorável à política externa de Lula, o cenário projetado permanece instável. Para 79% dos entrevistados brasileiros, os conflitos militares globais deverão aumentar nos próximos cinco anos.
Nesse contexto, a elevada aprovação do governo Lula e a rejeição à influência dos Estados Unidos sob Trump expressam posições relacionadas. Os especialistas defendem que o Brasil participe das disputas internacionais com autonomia, diversifique parceiros e evite transformar relações econômicas importantes em submissão política.






