Kremlin confirma negociações para reunir os presidentes da Rússia, Estados Unidos e China durante a cúpula da APEC, em novembro. Possível encontro envolveria guerra na Ucrânia, segurança nuclear e relações econômicas, mas ainda depende de entendimento entre as três potências.
Da Redação
Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, dos Estados Unidos, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, poderão se reunir em novembro, durante a cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), prevista para ocorrer nos dias 18 e 19, em Shenzhen, no território chinês. A possibilidade foi confirmada nesta quarta-feira, 21 de outubro, pelo assessor presidencial russo Yuri Ushakov, que classificou o eventual encontro como histórico por reunir, pela primeira vez nesse formato, os dirigentes de três potências com influência determinante sobre a segurança internacional, a economia global e o equilíbrio estratégico nuclear. Embora as negociações tenham avançado, ainda não existe confirmação definitiva de que a reunião ocorrerá.
A informação, divulgada pela agência RT e repercutida por veículos internacionais, surge em um momento de intensificação dos contatos diplomáticos entre Washington e Moscou. Nesta quarta-feira, Putin recebeu em São Petersburgo o enviado especial norte-americano Steve Witkoff para discutir a retomada das negociações relacionadas à guerra na Ucrânia, a segurança europeia e possíveis iniciativas de cooperação econômica entre Rússia e Estados Unidos. Durante a conversa, também foi examinada a possibilidade de uma reunião envolvendo os presidentes russo, norte-americano e chinês.
Ushakov afirmou à imprensa russa que Pequim já estaria trabalhando nos preparativos de uma eventual reunião trilateral. Segundo o assessor, existe disposição para discutir a iniciativa, mas sua realização depende principalmente dos entendimentos entre os participantes e da organização conduzida pelo governo chinês, responsável pela cúpula da APEC.
A possibilidade de reunir Putin, Trump e Xi Jinping havia sido mencionada publicamente pelo Kremlin na segunda-feira (19). Na ocasião, o porta-voz presidencial Dmitry Peskov confirmou que a hipótese surgira durante negociações diplomáticas, mas ressaltou seu caráter preliminar.
Trump também se manifestou favoravelmente à realização de conversas com os outros dois líderes. Ao responder a jornalistas, o presidente norte-americano afirmou que estaria disposto a participar de uma reunião para abordar armas nucleares e desnuclearização, condicionando o avanço da iniciativa à disposição da China.
As declarações demonstram que existe interesse diplomático, mas não estabelecem ainda uma agenda comum.
Washington apresentou o controle de armamentos nucleares como um possível assunto central. Moscou destacou a oportunidade de discutir segurança internacional, o conflito ucraniano e relações econômicas. Pequim, por sua vez, ainda não anunciou os termos de uma eventual participação em um encontro específico nesse formato.
Essa diferença entre os temas mencionados pelos governos é um dos fatores que tornam a preparação da reunião particularmente complexa.
A Rússia e os Estados Unidos possuem os maiores arsenais nucleares do mundo. A China, embora detenha um estoque menor, vem ampliando suas capacidades estratégicas e ocupa uma posição cada vez mais importante nos debates sobre controle de armamentos.
A possibilidade de reunir os três governos em uma mesma mesa representaria uma iniciativa diplomática relevante num período em que os mecanismos internacionais de limitação de armas nucleares enfrentam dificuldades.
A expiração do tratado New START, último grande acordo bilateral que estabelecia limites verificáveis para determinados armamentos nucleares estratégicos de Rússia e Estados Unidos, ampliou as preocupações sobre a ausência de instrumentos capazes de reduzir riscos de uma nova corrida armamentista.
O tratado havia sido assinado em 2010 e prorrogado em 2021. Seu encerramento deixou sem continuidade um dos principais mecanismos de limitação dos arsenais estratégicos das duas maiores potências nucleares.
Uma eventual negociação trilateral poderia abrir espaço para discutir mecanismos de transparência, prevenção de crises e novos compromissos diplomáticos. Entretanto, não existem informações que permitam afirmar que as partes já tenham concordado com algum modelo de tratado ou sistema de fiscalização.
A China historicamente tem manifestado reservas a propostas que equiparem suas responsabilidades às de Rússia e Estados Unidos, argumentando que os arsenais norte-americano e russo continuam significativamente superiores ao chinês.
Essa diferença material dificulta a formulação de parâmetros comuns para eventuais limitações.
Uma reunião entre os presidentes poderia iniciar um diálogo político, mas a negociação técnica de instrumentos de controle nuclear exigiria tempo, verificações e concessões que ainda não foram discutidas publicamente.
Além da segurança nuclear, o encontro também se relaciona às tentativas de reorganizar as negociações sobre a guerra na Ucrânia.
Guerra na Ucrânia impulsiona contatos entre Washington e Moscou
O encontro realizado nesta quarta-feira entre Vladimir Putin e Steve Witkoff marcou uma nova tentativa de avançar nas negociações destinadas a encerrar a guerra iniciada pela invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022.
Segundo informações divulgadas pela Reuters e pela Associated Press, o governo russo manifestou disposição para retomar conversas trilaterais com representantes dos Estados Unidos e da Ucrânia, possivelmente a partir de novembro, em Abu Dhabi.
As tratativas envolveriam questões territoriais, garantias de segurança, relações entre Rússia e países europeus e condições políticas para um eventual acordo.
Até o momento, entretanto, persistem divergências profundas entre Moscou e Kiev.
A Ucrânia reivindica garantias efetivas de segurança e defende o princípio de sua soberania territorial. A Rússia procura assegurar compromissos relacionados à expansão da OTAN e ao reconhecimento de determinados interesses que considera fundamentais para sua segurança.
Essas posições não estão conciliadas.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky também indicou disposição para discutir mecanismos que permitam interromper os combates, incluindo propostas relacionadas ao congelamento temporário das linhas de frente.
A possibilidade de um cessar-fogo, porém, não equivale a um acordo definitivo sobre fronteiras, soberania ou condições de segurança.
A continuidade das operações militares demonstra a distância existente entre as manifestações diplomáticas e uma solução efetiva.
Ataques russos contra diferentes regiões ucranianas prosseguiram nesta quarta-feira, provocando vítimas e danos à infraestrutura civil, segundo informações da Associated Press.
As negociações também ocorrem em um contexto de tensões entre Washington e Kiev, especialmente sobre a intensidade do apoio norte-americano, o fornecimento de informações de inteligência e as condições defendidas por Trump para encerrar o conflito.
O governo dos Estados Unidos tem procurado ampliar os contatos com Moscou, enquanto autoridades ucranianas e europeias manifestam preocupações sobre possíveis acordos que não considerem suficientemente os interesses de Kiev.
A participação direta da Ucrânia nas negociações sobre seu futuro territorial e institucional permanece uma questão central.
Uma reunião entre Putin, Trump e Xi poderia exercer influência sobre o ambiente diplomático internacional, mas não substituiria a necessidade de acordos que envolvam os próprios países diretamente afetados pela guerra.
Ushakov reconheceu essa limitação ao afirmar que um encontro de poucas horas não seria suficiente para resolver todos os problemas existentes.
A declaração indica que o Kremlin apresenta a iniciativa como uma oportunidade para iniciar ou aprofundar entendimentos, e não como garantia de encerramento imediato dos conflitos.
A eventual participação chinesa acrescentaria uma dimensão importante às negociações.
Pequim mantém relações econômicas e políticas estreitas com Moscou, ao mesmo tempo que possui interesses comerciais relevantes com os Estados Unidos e a Europa.
O governo chinês tem defendido uma solução negociada para a guerra e costuma enfatizar princípios relacionados à soberania, à estabilidade internacional e à necessidade de evitar a expansão dos confrontos.
Entretanto, sua posição é contestada por governos ocidentais que consideram insuficiente a pressão exercida sobre a Rússia.
Uma reunião trilateral poderia permitir que Pequim apresentasse suas prioridades diretamente aos dois outros líderes, mas não existe compromisso público de que Xi assumiria uma função específica de mediação.
A presença do presidente chinês também poderia ampliar a agenda para temas comerciais e estratégicos que ultrapassam o conflito europeu.
Relações econômicas e equilíbrio entre as potências
Outro ponto discutido durante a visita de Steve Witkoff à Rússia foi a possibilidade de restabelecer determinadas formas de cooperação econômica entre Moscou e Washington.
Desde 2022, as relações econômicas entre Rússia e países ocidentais foram profundamente afetadas por sanções financeiras, restrições tecnológicas, dificuldades comerciais e medidas direcionadas a setores estratégicos.
Essas restrições alteraram fluxos internacionais de energia, matérias-primas, investimentos e tecnologia.
A Rússia ampliou relações comerciais com parceiros asiáticos e com países que não aderiram integralmente ao regime de sanções ocidental. A China passou a ocupar uma posição ainda mais importante nas relações econômicas externas russas.
Os Estados Unidos, por sua vez, procuram administrar simultaneamente a competição estratégica com Pequim e a necessidade de estabelecer mecanismos de segurança com Moscou.
Essa combinação produz uma diplomacia complexa. Washington mantém divergências comerciais e tecnológicas com a China, enquanto busca discutir com a Rússia temas relacionados à segurança europeia, aos conflitos internacionais e à cooperação econômica.
Para Moscou, a possibilidade de restabelecer parte das relações econômicas com os Estados Unidos representa uma oportunidade de reduzir restrições e ampliar alternativas comerciais.
Para Washington, negociações econômicas podem funcionar como instrumentos diplomáticos, dependendo dos compromissos que sejam eventualmente estabelecidos.
A participação chinesa em uma reunião envolvendo essas duas potências não significa que Pequim necessariamente concordará com os objetivos norte-americanos ou russos.
A China possui prioridades próprias relacionadas ao comércio internacional, ao desenvolvimento tecnológico, às cadeias de suprimentos, à segurança energética e à estabilidade das relações com outros países asiáticos.
O encontro, caso realizado, colocaria na mesma mesa três governos que compartilham determinados interesses na prevenção de conflitos de grande escala, mas também competem por influência econômica, tecnológica e estratégica.
Essa coexistência de cooperação e competição constitui uma das características centrais do atual sistema internacional.
A ideia de que uma reunião trilateral poderia resolver de maneira abrangente os conflitos mundiais não encontra sustentação nas informações disponíveis.
Entretanto, conversas diretas entre os presidentes podem contribuir para reduzir riscos de erros de cálculo, estabelecer canais de comunicação e identificar áreas nas quais acordos limitados sejam possíveis.
A importância da diplomacia não depende necessariamente de grandes tratados imediatos. Em determinadas circunstâncias, mecanismos para evitar incidentes militares, restaurar contatos técnicos e prevenir escaladas podem apresentar resultados relevantes.
Os desafios são ainda maiores quando estão envolvidos países que possuem arsenais nucleares e capacidade de provocar consequências internacionais de grande magnitude.
Kremlin menciona comparação com Conferência de Yalta
Ao comentar a repercussão esperada para o eventual encontro, Yuri Ushakov foi questionado sobre a possibilidade de a reunião representar uma espécie de nova Conferência de Yalta.
A referência remete ao encontro realizado em fevereiro de 1945 entre Josef Stalin, Franklin D. Roosevelt e Winston Churchill, dirigentes da União Soviética, dos Estados Unidos e do Reino Unido durante a fase final da Segunda Guerra Mundial.
Naquela ocasião, os líderes discutiram questões relacionadas à derrota da Alemanha nazista, à reorganização da Europa e aos mecanismos de cooperação internacional no período posterior à guerra.
Yalta tornou-se uma referência histórica importante para a discussão sobre a influência das grandes potências na definição de acordos políticos internacionais.
Entretanto, a comparação com o contexto atual possui limites.
Em 1945, as potências reunidas integravam uma coalizão militar contra um inimigo comum e negociavam questões relacionadas ao encerramento de uma guerra mundial. Em 2026, Rússia, Estados Unidos e China mantêm relações marcadas por competição estratégica, interesses diferentes e divergências sobre conflitos em andamento.
Além disso, o sistema internacional atual envolve um número muito maior de países com influência econômica, política e diplomática significativa.
A União Europeia, a Índia, o Brasil, os demais integrantes dos BRICS, organizações multilaterais e países diretamente afetados por conflitos internacionais possuem interesses que não poderiam ser adequadamente representados apenas por decisões de três governos.
Ushakov evitou apresentar a possível reunião como uma nova divisão do mundo entre grandes potências. Ao comentar a comparação histórica, observou que um eventual encontro provocaria numerosas interpretações e avaliações.
Sua resposta não confirma a existência de um projeto formal de reorganização territorial ou política global.
Ainda assim, a referência à Conferência de Yalta mostra a dimensão simbólica que a diplomacia russa atribui à possibilidade de colocar Putin, Trump e Xi Jinping em uma mesma negociação.
A reunião poderia ser a primeira realizada nesse formato entre os três presidentes.
Putin e Trump já se encontraram pessoalmente, inclusive durante a reunião realizada no Alasca, em agosto de 2025. Desde então, mantiveram contatos telefônicos, sendo o mais recente mencionado pelo Kremlin em 9 de outubro.
Putin e Xi também mantêm encontros regulares, sustentados pela cooperação estratégica entre Rússia e China.
Trump e Xi, por sua vez, realizaram reuniões bilaterais durante 2026, em meio às negociações sobre comércio, tecnologia e segurança.
Portanto, a novidade não estaria no diálogo individual entre esses líderes, mas na possibilidade de reuni-los simultaneamente para discutir questões internacionais.
Negociações dependem da China e de uma agenda comum
O calendário apresentado pelo Kremlin estabelece uma janela diplomática concreta para a iniciativa.
A cúpula da APEC está prevista para 18 e 19 de novembro, em Shenzhen, cidade que ocupa posição central no desenvolvimento industrial e tecnológico chinês.
O encontro reúne economias importantes da região Ásia-Pacífico e oferece oportunidades para negociações bilaterais e multilaterais à margem da programação oficial.
É nesse contexto que a Rússia pretende viabilizar as conversas entre os três presidentes.
A realização dependerá da participação dos líderes, de acordos sobre o formato e da definição dos assuntos que serão discutidos.
A declaração de Ushakov de que a China já iniciou preparativos precisa ser compreendida como informação fornecida pelo governo russo. Até o momento, não há confirmação pública de todos os detalhes por Pequim.
A disposição manifestada por Donald Trump também não equivale à confirmação de sua presença em uma reunião trilateral com agenda definitiva.
A situação poderá evoluir nas próximas semanas, especialmente diante da intensificação das negociações sobre a Ucrânia e dos debates relacionados ao controle de armamentos nucleares.
A possibilidade de conversas envolvendo as três potências representa um desenvolvimento diplomático relevante, mas seu significado dependerá dos compromissos que sejam efetivamente negociados.
Mesmo que a reunião ocorra, não será possível avaliar seus resultados apenas pela presença dos presidentes em uma fotografia conjunta.
Será necessário verificar se os governos produzirão compromissos concretos, estabelecerão mecanismos de continuidade das negociações ou apresentarão propostas capazes de reduzir tensões internacionais.
A guerra na Ucrânia continuará exigindo entendimentos sobre segurança, território e interrupção das hostilidades. O controle nuclear dependerá de negociações técnicas complexas. A cooperação econômica estará sujeita às condições políticas e comerciais dos países envolvidos.
Essas questões não podem ser solucionadas automaticamente em um único encontro.
Ainda assim, a retomada de canais diplomáticos diretos entre grandes potências pode representar um instrumento relevante para administrar divergências e prevenir novas escaladas.
A declaração do Kremlin nesta quarta-feira confirma que Moscou considera possível e importante uma reunião com Washington e Pequim. Os Estados Unidos manifestaram abertura para discutir o tema, enquanto a China permanece como peça fundamental para definir a viabilidade do encontro.
Se a iniciativa for concretizada, Putin, Trump e Xi Jinping estarão diante de uma agenda que envolve algumas das principais tensões do sistema internacional contemporâneo.
Por enquanto, a cúpula trilateral permanece como uma possibilidade diplomática, não como compromisso formalizado.
A expectativa de um encontro histórico expressa a dimensão atribuída pelo Kremlin às negociações, mas seus efeitos concretos dependerão das decisões tomadas pelos três governos e da participação dos demais países diretamente envolvidos nos conflitos em discussão.




