Pesquisa mostra que 40% dos abstencionistas têm certeza de que não votarão no segundo turno e outros 38% afirmam que provavelmente ficarão fora das urnas; apenas 14% indicam disposição mais clara para comparecer
Da Redação
A mobilização dos milhões de brasileiros que não compareceram às urnas no primeiro turno aparece como um dos maiores desafios das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro para a votação de 25 de outubro. Pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta quinta-feira (8) indica que uma parcela expressiva desse eleitorado pretende permanecer distante das urnas também na etapa final da eleição presidencial.
Entre os entrevistados que se abstiveram no primeiro turno, 40% afirmaram que com certeza não irão votar novamente. Outros 38% disseram que provavelmente também não comparecerão. Somados, os dois grupos chegam a 78%.
No sentido contrário, apenas 7% afirmaram ter certeza de que irão votar e outros 7% disseram que provavelmente comparecerão. Há ainda 8% que responderam que talvez participem da votação.
Os números não significam que 78% de todos os eleitores brasileiros deixarão de votar. O percentual se refere especificamente ao grupo de entrevistados que não compareceu no primeiro turno. Essa diferença é fundamental para interpretar corretamente o levantamento.
A pesquisa foi realizada nos dias 6 e 7 de outubro. O Real Time Big Data ouviu 1.600 pessoas em segmentos relacionados aos eleitores de Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado, além de entrevistados que estavam indecisos na primeira etapa da disputa. A margem de erro informada é de três pontos percentuais, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%.
O dado ganha peso pelo tamanho do contingente que ficou fora das urnas no último domingo. Mais de 158 milhões de brasileiros estavam aptos a participar do primeiro turno, enquanto aproximadamente 125 milhões compareceram. A diferença representa cerca de 33 milhões de pessoas que poderiam, desde que estejam em situação regular com a Justiça Eleitoral, participar normalmente da votação de 25 de outubro.
A ausência no primeiro turno não impede o eleitor de votar no segundo. Para a Justiça Eleitoral, cada turno é considerado uma eleição independente. Portanto, quem não compareceu em 4 de outubro continua podendo votar na etapa seguinte.
Disputa também passa por quem ficou em casa
O levantamento ajuda a revelar uma dimensão da eleição que não aparece diretamente nos percentuais de intenção de voto entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Depois de um primeiro turno apertado, as duas campanhas precisam trabalhar não apenas para conservar os votos já recebidos e atrair eleitores dos candidatos eliminados, mas também para decidir até que ponto vale investir na mobilização de quem sequer participou da primeira etapa.
Esse universo é numericamente grande, mas a pesquisa indica uma resistência considerável ao retorno às urnas.
Se os 40% que afirmam ter certeza de que não votarão forem considerados separadamente dos 38% que dizem que provavelmente não irão, percebe-se também que existe uma parcela menos definitiva. Dizer que “provavelmente” não comparecerá não equivale a uma decisão irreversível. Até 25 de outubro, campanhas, acontecimentos políticos, debates e a própria percepção sobre a importância da disputa podem alterar esse comportamento.
Por isso, o levantamento registra uma disposição declarada no momento da entrevista, e não a quantidade final de pessoas que efetivamente deixarão de votar.
Essa distinção também impede que os números sejam utilizados isoladamente para projetar quem será beneficiado pela abstenção. A pesquisa mede a disposição de comparecimento desse segmento, mas o impacto eleitoral dependerá também de como esses eleitores votariam caso decidam participar.
Eleitores dos candidatos derrotados também estão no centro da disputa
O Real Time Big Data examinou ainda o comportamento dos eleitores que escolheram Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado no primeiro turno. Esse grupo passou a ser disputado diretamente por Lula e Flávio Bolsonaro depois da definição do segundo turno.
Entre os apoiadores de Ronaldo Caiado consultados pelo instituto, 74% disseram que certamente irão votar e outros 16% afirmaram que provavelmente comparecerão. O percentual indica disposição muito maior de participação nesse grupo do que entre aqueles que ficaram completamente fora da primeira votação.
O levantamento também identificou graus diferentes de definição do voto entre os eleitores dos candidatos eliminados. Entre os que votaram em Renan Santos, 77% afirmaram já ter uma escolha definida para o segundo turno.
O eleitorado de Augusto Cury aparece mais aberto à movimentação. Uma parcela significativa dos entrevistados afirmou ter uma escolha ainda sujeita a mudança, tornando esse grupo objeto de atenção particular das campanhas.
Esses dados ajudam a mostrar que a eleição de 25 de outubro será decidida por movimentos distintos do eleitorado. Há aqueles que já votaram em Lula ou Flávio e precisam ser mantidos; os que escolheram outras candidaturas e agora precisam optar entre dois nomes; e milhões de brasileiros que não participaram do primeiro turno e podem decidir se vale a pena voltar às urnas.
Abstenção não deve ser confundida com voto branco ou nulo
A discussão também exige uma distinção frequentemente perdida no debate eleitoral.
Abstenção ocorre quando o eleitor não comparece à votação. Voto branco ou nulo é registrado por quem vai à seção eleitoral, utiliza a urna, mas não atribui voto válido a nenhum candidato.
Para definir o vencedor, a Justiça Eleitoral considera somente os votos válidos. Brancos e nulos são excluídos desse cálculo, assim como naturalmente não entram os votos de quem se absteve.
Isso significa que variações importantes no comparecimento podem alterar o tamanho do universo de votos válidos sem necessariamente beneficiar automaticamente um dos candidatos.
Quanto maior a abstenção, menor tende a ser o número absoluto de votos necessários para formar a maioria dos votos válidos. Mas o efeito político depende de quais parcelas do eleitorado ficam em casa e de como votariam caso comparecessem.
É por isso que a busca pelos abstencionistas costuma aparecer com força em eleições apertadas.
No segundo turno de 2026, essa disputa ganha dimensão particular porque o primeiro turno colocou Lula e Flávio Bolsonaro relativamente próximos nas urnas, enquanto dezenas de milhões de pessoas não participaram da votação.
A pesquisa divulgada nesta quinta-feira coloca um limite importante nessa estratégia. Entre os eleitores ouvidos que já ficaram fora do primeiro turno, somente uma minoria declara disposição clara para retornar.
Ainda restam mais de duas semanas de campanha até a votação. As equipes dos candidatos terão tempo para tentar modificar esse quadro, assim como disputar o eleitorado que apoiou outros nomes.
Por enquanto, contudo, o retrato produzido pelo Real Time Big Data é de forte resistência entre os abstencionistas: quatro em cada dez dizem que certamente ficarão novamente em casa, e outros quase quatro em cada dez consideram provável fazer o mesmo.


