Da Redação
Presidente americano apresentou três caminhos — acordo, manutenção do estrangulamento econômico ou nova escalada militar — e disse que “grandes coisas” ocorrerão em breve. A declaração não foi acompanhada de anúncio público de uma nova operação nem de referência a armas nucleares. Teerã ameaça atacar bases e interesses dos EUA caso seja novamente bombardeado, enquanto os dois governos mantêm aberta uma estreita via diplomática durante a Assembleia Geral das Nações Unidas.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou estar em “modo de decisão” sobre o futuro da guerra contra o Irã e utilizou uma das formulações mais extremas de seus quase sete meses de conflito com Teerã. Em conversa com o correspondente da Fox News Trey Yingst, relatada pelo jornalista neste domingo, 20 de setembro, Trump apresentou três possibilidades: chegar a um acordo, manter a pressão econômica até aprofundar a deterioração iraniana ou promover uma nova escalada militar. Na sequência, perguntou “se e quando” deveria “explodir o país inteiro” e advertiu que o Irã deveria “se comportar”.
A frase é autêntica e foi reproduzida por diferentes veículos a partir do relato de Yingst. Mas seu significado operacional precisa ser delimitado. Trump não anunciou, nessa conversa, uma ordem para atacar todo o território iraniano, não apresentou alvos, prazo ou plano militar e não mencionou o emprego de armas nucleares. Até o fechamento desta matéria, as declarações tampouco haviam sido acompanhadas por anúncio público do Pentágono ou do Comando Central dos Estados Unidos de uma nova campanha ofensiva dessa escala. Reuters observa que o presidente já fez ameaças vagas de grandes escaladas durante a guerra sem necessariamente executá-las.
Isso não torna a declaração irrelevante.
Os Estados Unidos já estão em guerra aberta contra o Irã. O conflito começou em 28 de fevereiro, quando forças americanas e israelenses lançaram ataques contra o território iraniano. Teerã respondeu com mísseis e drones contra Israel e instalações americanas e de países que hospedam forças dos Estados Unidos na região. O governo americano informou posteriormente ao Conselho de Segurança que considera suas operações exercício do direito de legítima defesa previsto no artigo 51 da Carta da ONU. O Irã rejeita essa interpretação e qualifica os ataques iniciais como agressão.
Por isso, uma ameaça presidencial de ampliar drasticamente a destruição possui peso diferente de uma declaração feita fora de um conflito armado.
Na semana passada, Trump já havia dito que precisava decidir se iria “aniquilar” o regime iraniano. Agora, elevou novamente a linguagem enquanto representantes iranianos afirmam possuir informações de que Washington prepararia uma nova ofensiva. As autoridades de Teerã não apresentaram publicamente provas que permitam verificar de maneira independente essa informação.
O comando militar iraniano respondeu afirmando que qualquer novo ataque americano produzirá uma retaliação prolongada contra bases e interesses dos Estados Unidos e poderá alcançar países da região considerados participantes das operações. Neste domingo, militares iranianos disseram também que uma nova escalada poderia ampliar a “geografia da guerra”. São advertências do governo iraniano, e não fatos consumados sobre ataques futuros.
O contraste torna o momento particularmente instável: Trump fala simultaneamente em destruição e negociação.
O presidente americano disse a Yingst que provavelmente aceitaria encontrar-se com o presidente iraniano Masoud Pezeshkian, que estará em Nova York durante a 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Não existe, porém, reunião bilateral confirmada entre os dois até o momento.
Teerã também não fechou completamente a porta diplomática.
Mohsen Rezaei, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, informou que o país transmitiu a Washington, por intermédio do Qatar, condições para uma negociação. Entre as exigências publicamente apresentadas estão o encerramento da guerra em todas as frentes, liberação de ativos iranianos congelados e fim do bloqueio naval americano aos portos do país. Rezaei afirmou que Teerã espera a resposta de Trump, mas acrescentou que o Irã está preparado para continuar combatendo caso os termos sejam rejeitados.
A existência desses contatos explica por que a declaração de Trump não deve ser lida automaticamente como anúncio de ataque iminente.
Mas também mostra o tamanho do impasse.
A guerra chegou a um equilíbrio destrutivo que nenhum dos lados conseguiu romper
Sete meses depois dos primeiros ataques, Estados Unidos e Irã ainda não alcançaram os objetivos políticos que permitiriam encerrar de maneira estável o conflito.
Washington afirma ter degradado profundamente a capacidade militar iraniana. Em documento oficial apresentado ao Senado, o Comando Central declarou que, durante os 38 primeiros dias de grandes operações, Estados Unidos e Israel realizaram mais de 10,2 mil surtidas e mais de 13,5 mil ataques e atingiram grande parte da infraestrutura iraniana ligada a mísseis balísticos, drones e capacidade naval. Esses são números e avaliações do próprio comando militar americano e não constituem verificação independente da extensão real dos danos.
Ainda assim, o Irã preservou capacidade suficiente para retaliar e interferir nas principais rotas energéticas do Golfo.
O Estreito de Ormuz permanece operando muito abaixo da situação anterior à guerra. No último fim de semana, apenas 17 navios comerciais de commodities foram observados atravessando o corredor, contra 37 no fim de semana anterior. Antes do conflito, cerca de 125 grandes embarcações comerciais cruzavam a passagem diariamente. Alguns navios atualmente navegam com transponders desligados, de modo que os números visíveis não representam necessariamente todo o tráfego.
Antes da guerra, Ormuz era rota para aproximadamente um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados mundialmente. Sua perturbação transformou um confronto militar entre Washington e Teerã em problema econômico global.
A crise agora alcança também o outro extremo da Península Arábica.
Os houthis do Iêmen, alinhados ao Irã, avançaram militarmente pela costa do Mar Vermelho e intensificaram ataques contra a Arábia Saudita. Mísseis e drones atingiram ou ameaçaram instalações no país, inclusive na região de Riad e na infraestrutura utilizada para exportar petróleo sem passar por Ormuz. A expansão houthi aproximou o grupo do estreito de Bab el-Mandeb, outra passagem decisiva para o comércio marítimo entre Ásia, Europa e Mediterrâneo.
Washington atribui ao Irã influência relevante sobre os houthis. Teerã reconhece vínculos políticos com o grupo, mas rejeita a descrição americana segundo a qual comandaria diretamente suas ações.
Trump disse à Fox que os Estados Unidos mantêm comunicação com os houthis e que o grupo teria concordado em não combater forças americanas. Reuters informou neste domingo que o presidente americano também evitou assumir compromisso de intervenção militar direta contra os houthis mesmo depois de pedidos do governo iemenita apoiado pela Arábia Saudita.
Essa postura mostra outra característica da atual estratégia da Casa Branca.
Trump ameaça uma escalada extrema contra o Irã, mas procura ao mesmo tempo impedir a abertura de novas frentes militares contra forças associadas a Teerã.
O resultado é uma guerra que alterna períodos de ataques intensos, tréguas, bloqueios, sanções e negociações interrompidas.
Em junho, Estados Unidos e Irã chegaram a anunciar um entendimento preliminar que previa cessação das operações militares, retirada do bloqueio americano e reabertura de Ormuz. O acordo deveria abrir um período de negociações sobre temas como o programa nuclear iraniano e as sanções. A estrutura acabou desmoronando posteriormente, e as hostilidades voltaram a crescer.
A nova rodada de ameaças ocorre justamente quando os dois lados tentam reconstruir alguma forma de negociação.
“Explodir o país inteiro” não equivale a anúncio de ataque nuclear
A linguagem utilizada por Trump exige ainda uma distinção essencial.
Nada na declaração relatada pela Fox News indica que o presidente tenha falado sobre armas nucleares. A expressão “blow the entire nation up”, por mais extrema que seja, não permite concluir que a Casa Branca esteja considerando especificamente um ataque nuclear.
Essa inferência seria especialmente grave porque Estados Unidos e Irã possuem uma longa disputa relacionada ao programa nuclear iraniano. O simples uso de uma formulação destrutiva pelo presidente americano não constitui evidência sobre quais armas estariam sendo consideradas pelo planejamento militar.
Também não existe informação pública de que Trump tenha autorizado neste momento uma operação destinada a destruir cidades ou o território iraniano de forma indiscriminada.
O que existe é uma ameaça presidencial extremamente ampla feita durante uma guerra real.
Esse fato, por si só, produz questões jurídicas.
O artigo 2º, parágrafo 4º, da Carta das Nações Unidas determina que seus membros devem se abster, nas relações internacionais, da ameaça ou uso da força contra a integridade territorial ou independência política de qualquer Estado. Ao condenar a escalada de 28 de fevereiro, o secretário-geral António Guterres citou expressamente essa proibição, criticou o uso da força pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã e também condenou os ataques iranianos subsequentes contra outros países da região.
Os Estados Unidos sustentam perante a ONU que suas operações são justificadas pela legítima defesa. O Irã afirma exatamente o contrário: que Washington iniciou uma guerra de agressão e que as respostas iranianas constituem legítima defesa.
Essa divergência jurídica permanece aberta e não é resolvida apenas pela descrição política feita por um dos dois governos.
Há outro elemento que aumenta a sensibilidade da nova ameaça.
Quatro dias antes, uma missão independente das Nações Unidas sobre o Irã afirmou haver fundamentos razoáveis para acreditar que forças americanas cometeram crimes de guerra em ataques realizados em fevereiro contra uma escola e uma instalação esportiva. O relatório concluiu também haver fundamentos para acreditar que autoridades iranianas cometeram crimes contra a humanidade durante a repressão a protestos internos. As conclusões da missão não equivalem a sentenças judiciais, mas representam uma avaliação formal de investigadores mandatados pela ONU.
A investigação torna mais importante distinguir, numa eventual nova campanha, alvos militares de áreas e populações civis.
As declarações genéricas sobre destruir “uma nação inteira” não descrevem essas distinções.
A guerra também começa a cobrar um preço interno dos Estados Unidos
O prolongamento do conflito criou custos econômicos e militares que não existiam quando os ataques começaram em fevereiro.
O Escritório de Orçamento do Congresso calculou que as operações americanas haviam custado aproximadamente US$ 38 bilhões até 1º de agosto, com possibilidade de acréscimo de cerca de US$ 3 bilhões mensais caso a guerra permanecesse no mesmo padrão. Segundo a avaliação relatada pela Reuters, o uso intensivo de munições de precisão também criou pressão sobre estoques militares americanos.
O Pentágono reconhece oficialmente 18 militares americanos mortos durante o conflito. Uma reportagem do Washington Post, baseada em cinco autoridades não identificadas e reproduzida pela Reuters, afirma que o total pode chegar a pelo menos 22. O secretário de Defesa Pete Hegseth classificou essa informação como falsa. A divergência permanece sem resolução pública.
A dimensão econômica chega diretamente aos consumidores.
A interrupção de Ormuz e dos fluxos do Golfo levou petróleo e combustíveis a níveis elevados e contribuiu para a pressão inflacionária nos Estados Unidos e em outras economias.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos realizada entre 18 e 21 de setembro com 1.277 adultos americanos, margem de erro de aproximadamente três pontos percentuais, registrou aprovação de 32% para Trump. No mesmo levantamento, 34% disseram apoiar os ataques americanos ao Irã. Pesquisa não é previsão eleitoral e mede as opiniões dos entrevistados no período em que foi realizada.
Esse contexto doméstico torna particularmente importante a aparente contradição da posição presidencial.
Na quarta-feira passada, Trump dizia esperar que a guerra estivesse se aproximando do fim. Quatro dias depois, declarou estar decidindo entre um acordo, continuar estrangulando economicamente o Irã ou adotar uma escalada que descreveu em termos de destruição do país.
Ao mesmo tempo, a Casa Branca trabalha em planos para reconstruir a infraestrutura energética destruída no Golfo. Nesta segunda-feira, o Wall Street Journal informou que a administração propôs a criação de um fundo de US$ 5 bilhões para financiar projetos capazes de reparar instalações e diminuir a dependência regional de Ormuz. Reuters não conseguiu verificar independentemente o conteúdo dos documentos citados pela reportagem.
A existência de um plano de reconstrução enquanto o presidente ameaça ampliar a guerra resume a situação atual: Washington prepara simultaneamente instrumentos para administrar as consequências do conflito e possibilidades de aumentar sua intensidade.
A Assembleia Geral cria uma janela estreita para a diplomacia
A coincidência com a Semana de Alto Nível das Nações Unidas acrescenta uma última camada à crise.
Trump e Pezeshkian estarão em Nova York. Governantes dos seis países que compõem o Conselho de Cooperação do Golfo também participam das reuniões e têm interesse direto no fim das hostilidades porque seus territórios, infraestrutura e exportações passaram a sofrer consequências do confronto.
Os países do Golfo não formam um bloco perfeitamente homogêneo sobre como tratar Teerã, mas a guerra alterou os cálculos regionais. Qatar atua como mediador. Arábia Saudita foi novamente atacada. Emirados Árabes Unidos e outros países enfrentam riscos sobre energia, transporte e segurança.
O Financial Times informou nesta segunda-feira que governos do Golfo pressionam por uma reorganização das relações com o Irã e discutem mecanismos regionais de segurança capazes de diminuir a dependência exclusiva da proteção americana.
Isso explica por que a possibilidade de encontro entre Trump e Pezeshkian importa.
Uma conversa não significaria acordo, assim como a ausência de reunião não significaria automaticamente novo ataque. Mas, depois de meses de negociações indiretas, cessar-fogos fracassados e retomadas das hostilidades, a presença simultânea das principais lideranças em Nova York cria uma oportunidade diplomática que pode desaparecer rapidamente.
Por enquanto, os fatos permitem afirmar três coisas.
Trump efetivamente empregou uma linguagem de destruição extraordinariamente ampla e disse estar tomando uma decisão sobre os próximos passos da guerra.
Não anunciou publicamente uma nova operação militar de escala nacional nem um ataque nuclear.
E, no mesmo momento em que ameaça intensificar a guerra, mantém aberta a possibilidade de conversar pessoalmente com o presidente iraniano.
Essa coexistência entre coerção e negociação tem marcado grande parte do conflito desde fevereiro.
O risco agora é que a retórica presidencial esteja sendo produzida num cenário em que ambos os lados continuam armados, bases americanas estão espalhadas pelo Golfo, o Irã mantém capacidade de atingir países vizinhos, forças houthis ameaçam uma segunda rota marítima estratégica e o comércio mundial de energia já opera sob forte pressão.
Nesse ambiente, a diferença entre ameaça, sinalização diplomática e decisão operacional deixa de ser apenas semântica.
Ela pode definir se a guerra iniciada há quase sete meses entra numa nova fase de negociação — ou numa escalada de consequências ainda difíceis de calcular.


