Senador divulga nota após disseminar informações falsas sobre o sistema de votação diante de diplomatas; ministros do TSE lembram casos que levaram à cassação e à inelegibilidade de aliados
Da Redação
Menos de 24 horas depois de colocar em dúvida a segurança das urnas eletrônicas durante um encontro com diplomatas estrangeiros em Brasília, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) divulgou uma nota afirmando ter “integral confiança no sistema eleitoral brasileiro”. O comunicado, porém, evita mencionar as urnas eletrônicas, não esclarece as informações falsas apresentadas no evento e não traz qualquer retratação.
Na segunda-feira (21), Flávio participou de uma reunião com representantes diplomáticos na qual afirmou que as urnas brasileiras teriam a mesma origem das utilizadas na Venezuela e voltou a levantar suspeitas sobre a segurança do processo de votação. As declarações provocaram reação imediata de ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que lembraram precedentes envolvendo parlamentares e o próprio Jair Bolsonaro por ataques ao sistema eleitoral.
Diante da repercussão, o senador divulgou uma nota na terça-feira (22). Nela, afirma confiar no sistema eleitoral brasileiro e declara reconhecer a atuação das instituições responsáveis pela realização das eleições. Apesar da mudança de tom, o texto evita qualquer referência direta às urnas eletrônicas, foco das declarações feitas no dia anterior.
A nota também não corrige as informações apresentadas aos diplomatas nem explica por que voltou a questionar um sistema cuja confiabilidade foi reiteradamente reconhecida pela Justiça Eleitoral e por auditorias realizadas ao longo dos últimos processos eleitorais.
Reação no TSE
As declarações de Flávio Bolsonaro repercutiram rapidamente entre integrantes do Tribunal Superior Eleitoral. Segundo informações divulgadas pelo Brasil 247, ministros da Corte afirmaram que o episódio guarda semelhanças com casos anteriores de disseminação de informações falsas sobre o sistema de votação, lembrando tanto a cassação do ex-deputado Fernando Francischini quanto a inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A avaliação é que a propagação de desinformação sobre as urnas eletrônicas pode produzir efeitos jurídicos relevantes, sobretudo quando realizada por agentes públicos em contexto eleitoral.
Embora ainda não exista notícia de abertura de procedimento contra Flávio Bolsonaro, a reação de integrantes do tribunal demonstra que o episódio foi acompanhado com atenção pela Corte.
O precedente de 2022
O episódio também remete ao encontro realizado em julho de 2022, quando o então presidente Jair Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para atacar, sem apresentar provas, a confiabilidade das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral brasileiro.
Na ocasião, Bolsonaro utilizou a estrutura da Presidência da República para apresentar uma série de alegações posteriormente classificadas pela Justiça Eleitoral como falsas ou distorcidas. O episódio foi um dos principais fundamentos utilizados pelo TSE para condená-lo por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, decisão que o tornou inelegível por oito anos.
Embora o encontro promovido por Flávio Bolsonaro tenha ocorrido em circunstâncias diferentes e sem o uso da estrutura da Presidência, a repetição do discurso diante de representantes estrangeiros inevitavelmente despertou comparações com aquele episódio.
O TSE sob nova presidência
A repercussão do caso ocorre em um momento distinto daquele de 2022. O Tribunal Superior Eleitoral é atualmente presidido pelo ministro Kássio Nunes Marques, indicado ao Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro.
Esse novo cenário levou analistas políticos e integrantes dos bastidores de Brasília a questionarem se a estratégia adotada por Flávio Bolsonaro buscaria medir a reação da atual composição da Justiça Eleitoral diante de novos ataques ao sistema de votação. Até o momento, porém, não há elementos que permitam concluir que essa tenha sido a intenção do senador, nem manifestação pública da presidência do TSE sobre o episódio.
O que os fatos demonstram é que, após voltar a levantar suspeitas sobre as urnas diante de diplomatas, Flávio Bolsonaro alterou o discurso no dia seguinte, afirmando confiar no sistema eleitoral brasileiro, mas sem mencionar as urnas eletrônicas nem revisar as declarações que deram origem à controvérsia.
Sempre em pauta
As declarações de Flávio Bolsonaro ocorreram em um momento de pressão política sobre sua candidatura à Presidência da República. Embora seja o principal nome da oposição após a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, o senador aparece atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas principais pesquisas de intenção de voto divulgadas nas últimas semanas e ainda enfrenta dificuldades para consolidar uma ampla coalizão partidária em torno de seu projeto eleitoral.
No campo político, Flávio também se aproxima de uma etapa decisiva. A convenção nacional do PL, responsável por oficializar as candidaturas do partido para as eleições de 2026, deverá definir a estratégia da campanha e o grau de apoio das demais legendas do bloco conservador à sua candidatura.
Foi justamente nesse contexto que o senador voltou a colocar o sistema eleitoral no centro do debate nacional. Um dia depois de atacar as urnas eletrônicas diante de diplomatas estrangeiros, passou a afirmar que confia no sistema eleitoral brasileiro, mantendo, contudo, silêncio sobre as informações falsas apresentadas no encontro.
Analistas de comunicação política observam que a produção contínua de fatos de grande repercussão é uma estratégia frequentemente associada ao ex-conselheiro de Donald Trump, Steve Bannon. A lógica consiste em manter o debate público permanentemente ocupado por temas de forte polarização, deslocando a atenção de assuntos considerados desfavoráveis à campanha.



