Um mar humano toma as ruas do Irã na despedida de Ali Khamenei

Da Redação

As ruas do Irã foram transformadas em um imenso corredor de luto, mobilização popular e afirmação nacional durante as cerimônias de despedida do aiatolá Ali Khamenei. Multidões ocuparam avenidas, praças e centros religiosos em uma sequência de atos que atravessou Teerã, Qom, as cidades sagradas iraquianas de Najaf e Karbala e terminou em Mashhad, onde o líder iraniano foi sepultado. A dimensão exata do público é objeto de estimativas divergentes, mas imagens e relatos de diferentes agências internacionais confirmam concentrações massivas, com centenas de milhares de pessoas em Teerã e cerimônias sucessivas reunindo grandes multidões ao longo do percurso.

Khamenei foi morto nos ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel em 28 de fevereiro, numa ofensiva que abriu uma nova etapa da guerra contra o Irã. Quatro meses depois, o funeral mostrou que a morte do líder não produziu imediatamente a desorganização política ou o colapso simbólico que os adversários de Teerã poderiam esperar. Pelo contrário, o Estado iraniano transformou a despedida em uma demonstração pública de continuidade, resistência e desafio às potências responsáveis pelo ataque. A Reuters descreveu a multidão em Teerã como uma mensagem de que o Irã havia sobrevivido à guerra e permanecia disposto a influenciar a nova ordem regional.

O funeral, porém, não pode ser reduzido a uma cerimônia organizada pelo governo. A presença popular foi visível em escala extraordinária. Homens, mulheres, jovens, idosos e famílias inteiras ocuparam as ruas sob forte calor, muitos vestidos de preto e carregando bandeiras iranianas. Em Teerã, pessoas tentavam se aproximar do veículo que transportava o caixão, lançavam lenços e outros objetos para que fossem tocados junto ao féretro, numa prática religiosa associada à busca de bênçãos. Equipes posicionadas em caminhões dos bombeiros lançavam água sobre a multidão para aliviar o calor e autoridades pediam repetidamente que as pessoas evitassem empurrões.

A despedida de Ali Khamenei tornou-se, assim, muito mais do que o funeral de um chefe de Estado e líder religioso. Nas ruas, o luto se misturou ao nacionalismo, à identidade xiita e à revolta contra Estados Unidos e Israel. Cartazes, bandeiras e palavras de ordem transformaram as procissões em manifestações políticas. Em Teerã, participantes exigiram vingança pela morte de Khamenei e dirigiram palavras de ordem contra Donald Trump e o governo israelense. A dimensão política da cerimônia ficou evidente na combinação entre símbolos religiosos, referências à soberania iraniana e mensagens de enfrentamento aos responsáveis pela ofensiva militar.

A morte que deveria enfraquecer o Irã produziu uma demonstração de força

O assassinato de uma liderança central é uma das operações mais antigas da guerra política. A lógica é relativamente simples: eliminar o personagem que concentra autoridade, produzir uma crise sucessória, ampliar disputas internas e transmitir à população a percepção de que o Estado perdeu a capacidade de proteger até mesmo sua principal liderança. No caso iraniano, essa dimensão psicológica não pode ser separada da dimensão militar do ataque.

Ali Khamenei comandava a República Islâmica desde 1989. Durante quase quatro décadas, ocupou o centro de um sistema político complexo, formado por instituições religiosas, estruturas civis, forças militares, redes econômicas e organismos de segurança. Sua morte, portanto, representou um golpe profundo contra o Estado iraniano e abriu uma transição de poder ainda cercada de incertezas.

A ausência pública de seu sucessor, Mojtaba Khamenei, durante as principais cerimônias ampliou as perguntas sobre a nova liderança. Mojtaba não foi visto publicamente no funeral e, segundo diferentes relatos, permanece afastado da exposição pública após ter sido ferido no mesmo ataque de fevereiro. Sua ausência alimentou especulações sobre sua condição física e sobre a distribuição real do poder no interior do Estado iraniano.

Mas existe uma diferença entre uma crise de liderança e o colapso de um Estado. O que as imagens das cerimônias demonstraram foi justamente a capacidade das instituições iranianas de organizar uma despedida de enorme escala, atravessando diferentes cidades e inclusive o território iraquiano. O percurso levou o corpo de Khamenei de Teerã a Qom, depois às cidades sagradas de Najaf e Karbala, antes do sepultamento em Mashhad, próximo ao santuário do Imam Reza.

Essa geografia não foi casual. O funeral percorreu alguns dos principais centros simbólicos do xiismo. Teerã representou o Estado e a capital política. Qom, o coração da hierarquia religiosa iraniana. Najaf e Karbala conectaram a despedida ao universo xiita para além das fronteiras do Irã. Mashhad encerrou o percurso em um dos maiores centros de peregrinação religiosa do país.

O corpo de Khamenei atravessou, portanto, uma geografia política e religiosa construída ao longo de séculos. A mensagem era de continuidade. Um líder havia sido morto, mas a estrutura histórica, religiosa e nacional que sustentava o Estado permanecia de pé.

O funeral virou uma resposta política a Washington e Tel Aviv

Estados Unidos e Israel conseguiram eliminar a principal liderança da República Islâmica. Esse é um fato de enorme peso militar e político. Mas a guerra não é determinada apenas pela capacidade de destruir alvos. Ela também depende da interpretação que sociedades inteiras constroem sobre a destruição.

O funeral de Khamenei tornou-se parte dessa batalha pela percepção.

Para Washington e Tel Aviv, a morte do líder iraniano poderia ser apresentada como demonstração de superioridade militar e vulnerabilidade do sistema político de Teerã. Para o Estado iraniano, o mesmo acontecimento precisava ser transformado em martírio, agressão estrangeira e prova da necessidade de resistência.

As multidões ofereceram ao governo iraniano uma imagem extremamente poderosa para essa disputa.

Não era a imagem de um país silencioso após uma derrota. Eram avenidas ocupadas por pessoas carregando bandeiras, retratos e símbolos religiosos. A Reuters avaliou que o funeral funcionou como uma demonstração de desafio e unidade depois da guerra, enquanto a Associated Press registrou uma multidão em Teerã superior, em escala, à observada no funeral do general Qassem Soleimani em 2020.

Isso não significa que todos os iranianos apoiem a República Islâmica. Também não significa que as profundas contradições internas do país tenham desaparecido.

O Irã continua sendo uma sociedade atravessada por conflitos políticos, geracionais e sociais. Nos últimos anos, manifestações contra o governo mostraram a existência de setores profundamente críticos ao sistema. A presença de milhões ou centenas de milhares de pessoas em cerimônias públicas não permite concluir que existe unanimidade em torno da liderança política iraniana.

Mas cometeria um erro semelhante quem tentasse reduzir toda aquela mobilização a uma simples encenação estatal.

As ruas existiram.

As multidões existiram.

O luto existiu.

E, sobretudo, existiu uma reação nacional à morte de um líder iraniano em um ataque estrangeiro.

A guerra produziu um fenômeno conhecido em diferentes momentos históricos: sociedades politicamente divididas podem desenvolver mecanismos temporários de coesão quando percebem uma agressão externa. A oposição a um governo não significa automaticamente apoio ao bombardeio do próprio país. A crítica ao regime não transforma uma população em aliada das potências que atacam seu território.

Essa distinção é fundamental para compreender o Irã.

O erro de confundir oposição interna com disposição para aceitar uma intervenção estrangeira

Durante anos, parte da leitura ocidental sobre o Irã foi construída sobre uma expectativa recorrente: a pressão econômica, as sanções, o isolamento e as contradições internas acabariam produzindo uma ruptura capaz de derrubar a República Islâmica.

Essa expectativa se alimenta de problemas reais. O Irã enfrenta tensões econômicas, conflitos geracionais e forte contestação de setores da sociedade. O sistema político mantém mecanismos repressivos e limitações severas às liberdades civis. As mobilizações protagonizadas por mulheres e jovens mostraram a profundidade do descontentamento existente no país.

O erro está em concluir que esse descontentamento pode ser automaticamente convertido em apoio a uma ofensiva estrangeira.

A história demonstra repetidamente que identidades políticas são mais complexas. Uma pessoa pode rejeitar seu governo e, ao mesmo tempo, defender a soberania nacional. Pode desejar mudanças internas e considerar um ataque estrangeiro uma agressão. Pode participar de manifestações contra o Estado e, diante de bombardeios, interpretar a guerra como uma ameaça à própria sociedade.

O funeral de Khamenei expôs essa complexidade.

Entre os participantes das cerimônias havia apoiadores convictos da República Islâmica, religiosos, nacionalistas e pessoas mobilizadas pelo sentimento de luto. Reportagens produzidas nas ruas também encontraram vozes menos alinhadas ao governo e sinais de que as divergências sobre o futuro do país permanecem vivas. O que unia grande parte daquela multidão era a percepção de que a morte de Khamenei havia ocorrido durante uma guerra conduzida por potências estrangeiras.

É justamente nesse ponto que uma operação destinada a enfraquecer um adversário pode produzir um efeito contraditório. A eliminação física de uma liderança pode abrir uma crise sucessória, mas também pode oferecer ao Estado atacado um símbolo capaz de reorganizar sentimentos nacionais.

Khamenei morto tornou-se uma imagem política.

De Teerã a Mashhad, uma geografia de resistência

As cerimônias foram organizadas durante quase uma semana. O percurso começou em Teerã, onde ocorreu a maior concentração pública, e seguiu para Qom. Depois, o cortejo atravessou a fronteira com o Iraque e chegou a Najaf e Karbala, duas cidades fundamentais para a história e a espiritualidade xiitas. O trajeto terminou em Mashhad, cidade natal de Khamenei e sede do santuário do Imam Reza.

A passagem pelo Iraque ampliou a dimensão regional do funeral. Milhares acompanharam o cortejo em Najaf, mostrando que a influência simbólica da liderança iraniana não estava limitada às fronteiras nacionais.

A escolha das cidades também reconectou a morte de Khamenei à memória histórica do xiismo, profundamente marcada pelas ideias de martírio, resistência e injustiça. Em uma guerra de narrativas, essa dimensão religiosa possui enorme força mobilizadora.

Para os Estados Unidos e Israel, Khamenei era o líder de um Estado adversário e um dos principais responsáveis pela construção da estratégia regional iraniana. Para seus apoiadores, sua morte durante um ataque estrangeiro permite inseri-lo em outra narrativa: a do líder morto por resistir às potências que atacaram o país.

É essa segunda narrativa que ocupou as ruas durante o funeral.

O Irã não saiu da guerra sem feridas

Seria igualmente equivocado interpretar as multidões como prova de que o Irã atravessou a guerra sem consequências profundas.

A morte de Ali Khamenei alterou o centro do sistema político. A ausência pública de Mojtaba produz incertezas. Diferentes figuras civis, militares e religiosas passaram a ocupar maior espaço na condução do país. A nova distribuição de poder ainda está sendo construída.

A guerra também atingiu estruturas militares, lideranças e famílias ligadas ao núcleo do poder. O próprio funeral ocorreu meses depois da morte de Khamenei e em um ambiente de permanente tensão regional.

O país enfrenta agora o desafio de administrar simultaneamente uma transição de liderança, as consequências da guerra e as negociações envolvendo o Estreito de Ormuz e o programa nuclear. As cerimônias fúnebres não resolveram nenhum desses problemas.

Mas demonstraram algo que Washington e Tel Aviv precisarão considerar.

O Estado iraniano não desapareceu com Khamenei.

A sociedade iraniana não se dissolveu depois dos ataques.

E a morte do líder não produziu, até agora, a imagem de um país rendido.

Um mar humano e uma mensagem para o mundo

As imagens das ruas iranianas permanecerão como um dos registros mais marcantes desta guerra. Uma multidão vestida de preto avançando lentamente por Teerã. Pessoas tentando tocar o veículo que transportava o caixão. Bandeiras erguidas sobre as avenidas. Famílias enfrentando o calor. Palavras de ordem contra os Estados Unidos e Israel.

O funeral foi religioso. Foi político. Foi nacional.

Também foi uma operação de construção simbólica conduzida pelo Estado iraniano. Mas nenhuma análise séria pode ignorar a dimensão concreta da mobilização popular registrada por agências internacionais e jornalistas presentes nas cerimônias.

A morte de Ali Khamenei representou uma vitória militar para os adversários do Irã. Retirou do comando do país uma liderança que permaneceu no poder por quase quatro décadas e que teve papel central na construção da estratégia iraniana no Oriente Médio.

O funeral mostrou o outro lado dessa vitória.

Ao matar Khamenei, Estados Unidos e Israel também produziram um mártir para milhões de iranianos e ofereceram à República Islâmica uma narrativa poderosa de agressão estrangeira, resistência e sobrevivência nacional.

Durante dias, essa narrativa caminhou pelas ruas de Teerã, Qom, Najaf, Karbala e Mashhad.

O que se viu foi um mar humano.

E, no centro dele, uma mensagem dirigida aos adversários do Irã: um homem foi morto, mas o país que tentaram quebrar continua de pé.