Atitude Popular

“A gente continua aqui exigindo a revogação desse decreto”

Indígenas e ribeirinhos mantêm ocupação em Santarém e cobram que o governo revogue o Decreto 12.600, que abriu caminho para a concessão da hidrovia do Tapajós

A resistência indígena e ribeirinha em defesa do Rio Tapajós foi tema do Democracia no Ar desta terça-feira (10/02), programa da Rádio e TV Atitude Popular que recebeu o líder indígena Walter Kumaruara, do Baixo Tapajós. Na entrevista, ele detalhou a mobilização que já soma cerca de 20 dias de ocupação e protestos em Santarém, no oeste do Pará, liderados por povos originários e comunidades ribeirinhas. As informações desta reportagem têm como base a entrevista concedida ao programa.

No centro do conflito está a exigência de revogação do Decreto nº 12.600, editado em 2025 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que incluiu projetos hidroviários no Programa Nacional de Desestatização. Para as lideranças locais, a medida abre caminho para a concessão à iniciativa privada de trechos estratégicos de rios amazônicos, como o Tapajós, o Madeira e o Tocantins, afetando diretamente territórios, modos de vida e a soberania das comunidades tradicionais.

Ocupação na Cargill e o estopim da crise

Segundo Walter Kumaruara, a ocupação ocorre na área da Cargill, em Santarém, por entender que a dragagem e a reorganização da navegação do Tapajós atendem sobretudo aos interesses do escoamento de commodities, especialmente soja e milho. “A gente tá aqui hoje somando 20 dias de ocupação, sem resposta do governo federal”, afirmou.

O estopim da mobilização foi a tentativa de avançar com um processo de dragagem do rio — intervenção que altera o leito para permitir a passagem de grandes embarcações — sem consulta prévia às populações afetadas e sem debate público amplo. Para os povos do Tapajós, trata-se de uma obra de alto impacto ambiental e social, capaz de comprometer a pesca, a qualidade da água e a própria dinâmica do rio.

“Não foi pedido suspensão. Foi pedido revogação”

Um dos pontos mais enfatizados pelo convidado é que a mobilização não considera suficiente a suspensão de procedimentos administrativos anunciada pelo governo. Na avaliação do movimento, a criação de grupos de trabalho e a interrupção temporária de editais não resolvem o problema estrutural.

Não foi pedido a suspensão do edital. Foi pedido a revogação do decreto”, disse Walter.
O pedido é revogação, revogação, revogação.”

Para ele, enquanto o decreto permanecer em vigor, a ameaça continua, pois o marco legal segue autorizando a transformação do rio em rota logística sob lógica empresarial.

Privatização do rio e impactos no cotidiano

Ao longo da entrevista, Walter descreveu o Tapajós como fonte de vida para povos indígenas, pescadores e ribeirinhos. Segundo ele, a concessão da hidrovia pode significar restrições à pesca, controle de circulação, cobrança de pedágios fluviais e exclusão das populações locais do uso tradicional do rio.

As famílias vão precisar pagar pedágio, vão começar a frear as pessoas que pescam nesse rio”, alertou.

Ele também relatou situações já vividas na região, onde comunidades são proibidas de pescar em áreas próximas a portos privados, evidenciando o que considera um processo de perda gradual de direitos.

Críticas ao governo e silêncio político

Walter Kumaruara fez críticas diretas ao governo federal, afirmando que a decisão contraria compromissos históricos com os povos originários e gera frustração entre movimentos sociais que tiveram papel central na eleição presidencial.

A maior parte dos votos desse presidente veio dos movimentos sociais. Hoje ele assina um decreto que coloca nossas vidas em risco e não quer nem conversar com a gente.”

Durante o programa, também foi apontado o contraste entre a mobilização de setores progressistas em torno de causas internacionais e o silêncio diante de conflitos internos, como o que envolve o Tapajós. Para o líder indígena, a falta de posicionamento público amplia o isolamento da luta.

Mobilização segue e apelo por solidariedade

Apesar das dificuldades, Walter afirmou que a ocupação continua, reunindo indígenas, ribeirinhos, famílias inteiras, jovens e idosos, enfrentando sol, chuva e escassez de recursos. Ele ressaltou que novas comunidades e povos de outras regiões já se articulam para fortalecer o movimento.

Ao final, o líder indígena convocou a sociedade a acompanhar a luta, compartilhar informações e se solidarizar com a defesa do Tapajós, reforçando que a pauta não é partidária, mas em defesa do rio, da vida e dos direitos dos povos que sempre viveram ali.

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