Advogado desmonta versão de André Fernandes sobre prisão de comerciante na Ceasa

Felipe Martins aponta ausência de flagrante, reúne depoimentos de trabalhadores e acusa deputado de usar vídeo editado para associar homem inocente ao tráfico

Da Redação

O advogado e ativista cearense Felipe Martins divulgou uma investigação em vídeo que desmonta pontos centrais da narrativa apresentada pelo deputado federal André Fernandes sobre uma ação realizada na Ceasa de Maracanaú. A partir da análise das imagens publicadas pelo parlamentar e de depoimentos de comerciantes, familiares e trabalhadores do local, Martins sustenta que Reginaldo, dono de uma lanchonete, foi preso e apresentado como participante do tráfico de drogas sem que houvesse flagrante ou apreensão de entorpecentes em seu estabelecimento.

A controvérsia começou depois que André Fernandes divulgou um vídeo no qual aparece acompanhando uma abordagem na Ceasa. O parlamentar afirmou ter participado da prisão de homens envolvidos com o tráfico e apresentou uma lanchonete como fachada para uma suposta boca de fumo. Na gravação, uma cena de aproximadamente três segundos foi usada para associar Reginaldo ao repasse de drogas.

Felipe Martins retornou ao local e ouviu pessoas que trabalham há anos ao lado do comerciante. Segundo os relatos reunidos pelo advogado, a imagem divulgada por André Fernandes não mostra uma entrega de entorpecentes, mas um ato cotidiano: Reginaldo devolvia o troco a um cliente que havia comprado uma garrafa de água.

Uma testemunha afirma que o vídeo foi cortado para excluir a compra e manter apenas o instante em que o dinheiro é entregue. Outros comerciantes confirmam a mesma versão e dizem conhecer Reginaldo há mais de uma década como trabalhador da Ceasa, sem qualquer relação conhecida com atividades criminosas.

A investigação de Martins também chama atenção para a inexistência de prova material contra o comerciante. Em nenhum trecho divulgado, Reginaldo aparece segurando drogas, recebendo entorpecentes ou realizando uma venda ilegal. Conforme o advogado, nenhuma substância ilícita foi encontrada dentro da lanchonete.

Para Felipe Martins, a edição transformou uma operação comercial comum em prova de um crime. O advogado afirma que a exposição produziu danos à reputação de Reginaldo, de sua família e do próprio estabelecimento, conhecido por trabalhadores que frequentam diariamente os galpões da Ceasa.

Comerciantes contestam narrativa de André Fernandes

No primeiro vídeo, Felipe Martins reuniu uma série de depoimentos em defesa de Reginaldo. Trabalhadores afirmaram que o conhecem há mais de quinze anos, que nunca presenciaram qualquer conduta criminosa e que a acusação causou revolta entre comerciantes da região.

Um dos entrevistados declarou que havia votado em André Fernandes, mas retirou seu apoio depois de assistir à gravação completa e conhecer a versão dos trabalhadores. Outro classificou o caso como uma tentativa de crescer politicamente às custas da reputação de um pai de família.

Martins afirma ter ouvido quase cem pessoas durante sua passagem pela Ceasa. Segundo ele, são trabalhadores identificados, com vínculos profissionais, redes sociais abertas e sem antecedentes criminais. A quantidade e a consistência dos relatos, argumenta, contradizem a tentativa de apresentar a reação dos comerciantes como uma mobilização artificial.

O advogado também questiona a presença de homens à paisana, alguns identificados como policiais, acompanhando a ação promovida por André Fernandes. Familiares de Reginaldo relatam que lanchonetes foram revistadas e que pessoas foram interrogadas de forma intimidatória, sem que lhes fosse apresentada ordem judicial.

Na avaliação de Martins, o episódio deve ser investigado pelo Ministério Público e pela Corregedoria da Polícia Militar. Ele sustenta que agentes públicos não podem ser mobilizados fora dos procedimentos oficiais para participar de ações destinadas à produção de conteúdo político nas redes sociais.

Resposta de André não enfrenta ausência de flagrante

Após a repercussão da investigação, André Fernandes publicou um vídeo com três argumentos em defesa de sua atuação. O deputado afirmou que qualquer cidadão pode dar voz de prisão, declarou que os dois homens detidos permaneceram em silêncio diante do delegado e disse que eles não foram libertados na audiência de custódia.

Felipe Martins reconhece que o artigo 301 do Código de Processo Penal permite que qualquer pessoa realize uma prisão, mas observa que a medida exige a existência de flagrante delito. Segundo ele, André Fernandes mencionou uma regra jurídica verdadeira para evitar o ponto decisivo: Reginaldo não foi filmado com drogas e nenhuma substância ilícita foi apreendida em sua lanchonete.

“A única prova que você usou para caracterizar o suposto flagrante foi o corte de três segundos de um vídeo editado pela sua equipe”, afirmou Martins.

O advogado questionou diretamente o parlamentar:

“Onde está o flagrante, André? Onde estão as drogas apreendidas na lanchonete do seu Reginaldo?”

Martins também contestou a versão de que o comerciante teria permanecido em silêncio. Segundo ele, Reginaldo declarou na audiência de custódia que nunca comercializou drogas e que sequer compreendia o motivo pelo qual havia sido preso.

A permanência dos detidos sob custódia, por si só, também não comprova a acusação apresentada no vídeo. A audiência de custódia examina principalmente a legalidade da prisão e a necessidade de manutenção da medida cautelar, não substituindo a apuração do mérito do caso.

Deputado tenta atribuir depoimentos a pressão de facção

No segundo argumento, André Fernandes afirmou ter recebido informações de que integrantes do Comando Vermelho estariam ameaçando trabalhadores da Ceasa e pressionando pessoas a declarar que a operação havia sido falsa.

O deputado não apresentou provas dessa acusação no trecho respondido por Felipe Martins.

Para o advogado, a afirmação tenta criminalizar os comerciantes que aceitaram falar diante das câmeras e contestaram a versão do parlamentar. Martins destaca que entrevistou trabalhadores de diferentes empresas e galpões, muitos dos quais convivem com Reginaldo há anos.

“Ninguém ali recebeu dinheiro ou ameaça de facção para desmascarar o seu teatrinho”, afirmou.

Martins considera especialmente grave que um deputado federal associe pais e mães de família a uma organização criminosa apenas porque seus relatos enfraquecem o conteúdo publicado nas redes sociais.

Ao invés de explicar por que nenhuma droga foi encontrada na lanchonete ou apresentar imagens completas da suposta entrega de entorpecentes, André Fernandes lançou suspeitas sobre dezenas de trabalhadores sem oferecer elementos capazes de sustentar a acusação.

Felipe Martins rejeita tentativa de desqualificação

No terceiro ponto, André Fernandes evitou citar Felipe Martins pelo nome e referiu-se a ele como um “influenciador de esquerda”. Também afirmou que as acusações seriam respondidas judicialmente.

Felipe Martins classificou a tentativa de reduzi-lo a uma identidade política como uma forma de fugir do conteúdo da investigação. Ele afirmou ter convicções progressistas e orgulho delas, mas ressaltou que sua atuação no caso está amparada por quinze anos de formação acadêmica e trabalho no Poder Judiciário.

“É por causa dessa bagagem técnica e jurídica que eu consigo olhar para o seu vídeo e reconhecer as irregularidades praticadas contra os trabalhadores da Ceasa”, declarou.

A reação de André Fernandes não apresentou uma explicação para a edição do trecho usado contra Reginaldo, não mostrou drogas apreendidas no estabelecimento e não respondeu aos depoimentos de comerciantes que presenciaram a ação.

Martins também afirmou que não se sente intimidado pela ameaça de processo. Para ele, uma eventual ação judicial permitirá a produção formal de provas, o acesso às imagens completas e o esclarecimento da participação dos agentes envolvidos.

“Faço absoluta questão de encontrá-lo nos tribunais”, afirmou o advogado. “Lá o senhor não vai ter nenhum editor de vídeo para cortar as cenas mais desfavoráveis. Nos vemos na Justiça.”

Caso pode chegar aos órgãos de controle

Felipe Martins defende que a atuação de André Fernandes e dos homens que o acompanhavam seja apurada pelas instituições responsáveis. Entre os pontos que precisam ser esclarecidos estão a origem da operação, a identificação dos agentes à paisana, a existência de autorização oficial, as circunstâncias da prisão e a edição das imagens divulgadas nas redes sociais.

O material reunido pelo advogado altera o centro do debate. A questão não é apenas se um cidadão pode dar voz de prisão, mas se havia flagrante contra Reginaldo e se a imagem usada para acusá-lo foi apresentada fora de contexto.

Até agora, a resposta de André Fernandes não demonstrou que o comerciante estivesse em posse de drogas, não informou sobre apreensões realizadas na lanchonete e não rebateu objetivamente os testemunhos que descrevem a cena como a devolução do troco de uma garrafa de água.

A acusação divulgada pelo deputado alcançou milhares de pessoas. A investigação de Felipe Martins expõe o que o vídeo original não mostrou e cobra que a mesma atenção concedida à acusação seja dedicada aos fatos omitidos pela edição.