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Aiatolá declara “guerra sagrada” contra EUA e Israel

Da Redação

Após assassinato de Ali Khamenei, liderança religiosa iraniana convoca resposta global, amplia dimensão do conflito e eleva risco de guerra generalizada no Oriente Médio.

A guerra iniciada pelos ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel contra o Irã entrou, neste 1º de março de 2026, em uma nova e extremamente perigosa fase. A declaração do aiatolá Makarem Shirazi de uma “guerra sagrada” contra Washington e Tel Aviv marca uma inflexão histórica no conflito, deslocando-o do plano estritamente militar para uma dimensão político-religiosa de alcance global.

Segundo informações divulgadas por agências ligadas ao Estado iraniano, Shirazi — uma das mais influentes autoridades religiosas xiitas do país — afirmou que a morte do líder supremo Ali Khamenei deve ser vingada e que essa vingança constitui um “dever religioso” para muçulmanos em todo o mundo . A declaração não é retórica isolada: ela se insere em uma tradição político-religiosa do Irã na qual decisões de líderes espirituais possuem impacto direto sobre mobilização social e estratégica.

O contexto que antecede essa declaração é decisivo. Em 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel lançaram uma ofensiva massiva contra o território iraniano, atingindo centenas de alvos e eliminando parte significativa da cúpula político-militar do país, incluindo o próprio Khamenei . A operação, descrita por autoridades norte-americanas como necessária para conter ameaças, teve como consequência imediata uma ruptura total do equilíbrio regional.

A resposta iraniana já havia sido intensa nas primeiras horas após os ataques, com lançamentos de mísseis contra bases militares dos Estados Unidos no Golfo e contra alvos israelenses. Mas a declaração de “guerra sagrada” introduz um novo elemento: a possibilidade de expansão do conflito para além dos Estados diretamente envolvidos, mobilizando redes políticas, religiosas e militares em diferentes países.

Esse movimento não é trivial. Historicamente, a ideia de jihad — ou guerra sagrada — no contexto iraniano está associada a momentos de ameaça existencial ao Estado e à ordem política interna. Em janeiro deste ano, o próprio parlamento iraniano já havia advertido que qualquer ataque ao líder supremo seria interpretado como uma declaração de guerra contra todo o mundo islâmico . A morte de Khamenei, portanto, não apenas confirmou esse cenário, como acionou um gatilho previamente anunciado.

Do ponto de vista geopolítico, a declaração de Shirazi transforma o conflito em algo qualitativamente distinto. Até então, tratava-se de uma guerra entre Estados, ainda que com forte assimetria de poder. Agora, o conflito assume características de mobilização transnacional, com potencial de envolver milícias, grupos aliados e populações em diferentes regiões.

Esse tipo de escalada é particularmente perigoso porque dissolve fronteiras tradicionais do campo de batalha. Bases militares, rotas energéticas, embaixadas e até infraestruturas civis passam a ser percebidas como alvos legítimos dentro de uma lógica ampliada de guerra.

Além disso, a dimensão simbólica da declaração é central. Ao enquadrar o conflito como uma luta entre opressão e resistência, a liderança iraniana busca reorganizar a narrativa global, apresentando o país não apenas como vítima de agressão, mas como polo de resistência do mundo islâmico e, por extensão, do Sul Global.

Essa estratégia encontra ressonância em diversos contextos internacionais. Em um sistema global marcado por desigualdades estruturais de poder, episódios como o ataque ao Irã reforçam a percepção, especialmente fora do eixo ocidental, de que o direito internacional é aplicado de forma seletiva. A declaração de guerra sagrada, nesse sentido, também opera como instrumento de disputa narrativa.

No plano militar, os desdobramentos são imprevisíveis. A combinação entre retaliação estatal e mobilização religiosa amplia exponencialmente o risco de ataques em múltiplas frentes. Países que abrigam bases norte-americanas ou que mantêm alianças estratégicas com Israel tornam-se automaticamente zonas de risco.

No plano político, o conflito aprofunda a fragmentação da ordem internacional. Enquanto países do Sul Global condenam os ataques e defendem a diplomacia, aliados dos Estados Unidos tendem a legitimar a ação como necessária para conter ameaças. O resultado é um sistema internacional ainda mais polarizado e instável.

A declaração do aiatolá Shirazi, portanto, não é apenas uma reação emocional à morte de Khamenei. Ela representa um ponto de ruptura. Um momento em que a guerra deixa de ser apenas uma disputa entre Estados e passa a assumir contornos civilizacionais, simbólicos e ideológicos.

O mundo entra, assim, em uma fase ainda mais volátil. E, a partir de agora, qualquer análise do conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel precisará levar em conta não apenas a lógica militar, mas também a potência mobilizadora de discursos que transformam a guerra em causa — e a causa em guerra.