Da Redação
Medo da polícia trumpista provoca corrida pela volta ao Brasil e expõe a falência da fantasia cultivada pela extrema direita: o país que seria “paraíso da liberdade” virou cenário de perseguição, xenofobia e deportações em massa.
Por anos, uma parte do bolsonarismo transformou os Estados Unidos em altar ideológico, símbolo de prosperidade, liberdade absoluta e terra prometida para quem “trabalha duro”. Mas 2025 está terminando com um espetáculo involuntariamente cômico: o mesmo grupo que passava anos dizendo que o Brasil era “um inferno socialista” está agora lotando filas de consulados, aeroportos e grupos de WhatsApp em desespero para voltar correndo ao país que juravam desprezar.
A razão é simples e devastadora: o governo Trump 2.0 intensificou políticas agressivas de vigilância, deportação e encarceramento de imigrantes, atingindo não apenas latinos, mas também aqueles brasileiros que acreditavam que a idolatria política os protegeria mágicamente. Para muitos deles, a “terra da liberdade” se revelou a terra das sirenes, das abordagens policiais, das batidas migratórias e do medo cravado no estômago.
Famílias relatam que não conseguem mais levar crianças à escola sem receio de cruzar com agentes federais. Profissionais que viviam na informalidade se escondem dentro de casa. Gente que passou anos rindo do termo “xenofobia” agora experimenta na pele o que significa ser tratado como intruso descartável. A fantasia não resistiu ao contato com a realidade.
E o contraste é cruel.
A mesma turma que berrava contra o STF, que chamava o Brasil de ditadura, que dizia que “só nos Estados Unidos existe liberdade”, agora está descobrindo que o sheriff de Trump não quer saber de camiseta patriota, bandeirinha de Israel, avatar com arma ou postagem exaltando o “american way of life”. A máquina policial dos Estados Unidos não diferencia o “conservador trabalhador” do migrante comum; leva todo mundo que estiver fora da linha legal, sem conversa, sem palanque, sem live.
Muitos brasileiros relatam cenas de humilhação, deportação acelerada, prisões improvisadas e interrogatórios agressivos. E o que mais assusta é a sensação de vulnerabilidade total. Nos Estados Unidos, a polícia de imigração age com brutalidade burocrática, não com o romantismo tosco que certos grupos brasileiros projetam no país. Lá, o policial não quer saber se você assistiu documentário conspiratório, se você acha Trump um gênio ou se você acredita que a Terra é plana. O que importa é o status legal. E se você não tem, a porta de saída é automática.
O mito desmoronou.
A fuga de brasileiros expõe uma verdade que muitos evitavam encarar: não existe promessa de inclusão para quem serve apenas como massa ideológica. O discurso de Trump nunca foi sobre acolher latinos conservadores, e sim sobre fortalecer um nacionalismo branco, policialesco e excludente. A fantasia de uma “aliança natural” entre a direita brasileira e o trumpismo sempre foi delírio colonial projetado por quem nunca entendeu a política real dos EUA.
Agora, com medo, muitos estão voltando.
No retorno, o silêncio é constrangedor. A bravata patriótica some. A arrogância de “lá é que é país de verdade” evapora. E o que sobra é a constatação óbvia que sempre esteve ali: os EUA não são e nunca serão lar seguro para quem entra pelas brechas, para quem vive sem documentos ou para quem acreditou que uma estética política garantiria tratamento diferenciado.
A ironia final é que muitos desses brasileiros voltarão justamente para o país que, segundo eles, “não prestava”. O país que tem SUS, que permite estudo gratuito, que não deporta criança, que não manda polícia militarizada para prédios residenciais caçar gente que fala outra língua. O país onde seus filhos poderão circular sem medo e onde o Estado, com todos os problemas, não transforma imigrantes em criminosos automáticos.
O bolsonarismo vendeu o “sonho americano”. Trump entregou o pesadelo real.
E agora, de mala na mão e orgulho ferido, muita gente está descobrindo que o Brasil que desprezavam é o único lugar onde podem viver sem olhar para trás a cada sirene.


