Da Redação
Na IV Cúpula entre a CELAC e a UE, realizada em Santa Marta, Colômbia, os líderes latino-americanos e europeus aprovaram uma declaração conjunta de 52 pontos que reafirma a América Latina e o Caribe como zona de paz, destaca o multilateralismo e promete cooperação estratégica. Mas a declaração esbarra em contradições com a militarização crescente da região e a dependência externa.
O encontro e o posicionamento diplomático
Nos dias finais da Cúpula realizada em Santa Marta, Colômbia, cerca de 60 chefes de Estado e de Governo dos 33 países da CELAC e dos 27 países da União Europeia se reuniram para assinar uma declaração conjunta de mais de cinquenta itens. A prioridade anunciada: afirmar que a América Latina e o Caribe devem continuar sendo uma zona de paz permanente, acima das disputas de superpotências e das esferas de influência externas.
O presidente colombiano, que presidia a CELAC interinamente, fez questão de destacar que o evento reafirmou o compromisso com o diálogo multilateral em um mundo cada vez mais polarizado. Ele ressaltou que a soberania dos países da região, o respeito às normas internacionais e a integração birregional (Europa-América Latina) são mecanismos essenciais para enfrentar crises como mudança climática, pobreza, migrações e segurança.
Os eixos da declaração e a ambição birregional
Entre os pontos centrais do documento estão:
- A reafirmação de que a América Latina e o Caribe não podem ser palco de blocos militares ou de disputas de influência que não foram solicitadas pela região.
- A aposta no multilateralismo como único instrumento eficaz para tratar crises globais — desde a crise climática à segurança cidadã, passando pela economia digital.
- O fortalecimento da cooperação entre Europa e América Latina: investimentos em conectividade digital, transição energética, infraestrutura, redes elétricas interligadas, integração comercial.
- O compromisso com a paz e a segurança cidadã, com destaque para o combate ao crime organizado, ao narcotráfico e à influência externa que tenta desestabilizar a região.
- A declaração de que o Caribe, em particular, deve ser tratado como uma região livre de bases militares ou de esquemas de poder externo que promovam a militarização.
O simbolismo e os desafios práticos
A escolha de Santa Marta como sede tem valor simbólico: uma cidade caribenha histórica, que representa a interface entre a América Latina e o mar que conecta ao Caribe. O local serviu para marcar que a região não é só ator secundário, mas protagonista de suas próprias decisões.
Contudo, o simbolismo contrasta com a dura realidade: mesmo com esse compromisso, a presença militar externa na região — navios de guerra, frentes de combate às drogas patrocinadas por potências externas, bases não declaradas — segue em expansão. A declaração, nesse sentido, faz um alerta importante, mas depende da implementação rigorosa e da coerência diplomática e militar dos países regionais.
A atenção para o Sul Global
Do ponto de vista do Sul Global – especialmente América Latina e Caribe – esta cúpula ganha dupla dimensão:
- É oportunidade para reiterar que os países da região não aceitam ser subúrbios de disputas externas, mas querem ser sujeitos ativos.
- É momento de consolidar alianças que reduzam a dependência tecnológica, estratégica e militar dos blocos tradicionais do Norte. A cooperação com a Europa aqui funciona como alternativa e complementação — não apenas como alinhamento automático à agenda euro-americana.
Os riscos e contradições
Mesmo com o compromisso afirmado, vários riscos permanecem:
- A militarização crescente do Caribe e da costa norte da América do Sul, muitas vezes sob justificativas de “segurança hemisférica” ou “guerra às drogas”, coloca em xeque o ideal de “zona de paz”.
- A dependência econômica de capitais externos e os acordos comerciais assimétricos continuam limitando a autonomia real dos países latino-americanos. Prometer paz, cooperação e transição energética é um avanço — mas só será efetivo se vier acompanhado de mudança estrutural.
- A questão da coerência: declarar-se zona de paz não impede que países da região participem ou permitam operações militares externas, ou que aceitem bases ou acordos que comprometam a soberania. Portanto, o compromisso depende da vigilância cidadã e da ação política.
- A cúpula funciona como cenário diplomático grandioso, mas o teste está na implementação: investimento efetivo, financiamento, reformas, controle de infraestruturas e o fim de práticas de militarização encoberta. Se os textos ficarem em papel, o simbolismo vira ritual vazio.
Para o Brasil e o papel estratégico
Para o Brasil, que retornou à participação plena na CELAC em 2023, a cúpula representa um reforço de sua política externa de protagonismo regional. O país reafirma a ideia de que a Amazônia, a bioeconomia, a integração sul-sul e a transição energética podem colocar o Brasil no centro de uma nova ordem mundial de colaboração — e não de subordinação.
A cooperação Europa-América Latina anunciada pode abrir caminho para investimentos em infraestrutura, energia limpa, conectividade digital e redes de integração, o que favorece o desenvolvimento do país além do modelo tradicional de exportação de commodities.
No entanto, restam perguntas importantes: será que o Brasil e os países latino-americanos conseguirão usar essa cúpula para reduzir a dependência militar dos EUA, para impedir a militarização externa em suas costas e para consolidar uma posição que promova paz, mas sem submissão?
4 – Conclusão
A IV Cúpula CELAC-UE em Santa Marta dá ao mundo uma mensagem clara: América Latina e Caribe querem ser zona de paz — e não tabuleiro de superpotências. A cooperação entre Europa e a região retoma a centralidade de que há mais que interesse comercial: há autonomia estratégica.
Mas a declaração é apenas o início. A paz não será entregue por discursos; será construída por atos — diminuição da presença militar externa, cooperação genuína, redução de dependência econômica e defesa real da soberania.
Se a cúpula for só mais um evento diplomático, o texto vai se perder na retórica. Se for o primeiro passo de uma nova política de soberania, integração e justiça, pode marcar uma virada histórica para o Sul Global. O desafio agora é fazer com que a promessa de zona de paz se transforme em realidade nas costas, nas fronteiras e nos bairros latino-americanos.


