Atitude Popular

“Eles têm um absoluto descompromisso com o real”

Quadro “Antes que acabe o mês”, no Democracia no Ar, reúne Sandra Helena e Victor Marques para analisar CPIs, guerra de narrativas, política externa e os sinais de uma eleição polarizada em 2026

O Democracia no Ar, apresentado por Sara Goes na Rádio e TV Atitude Popular, encerrou o mês com mais uma edição de “Antes que acabe o mês”, tradicional balanço crítico realizado sempre na última sexta-feira. O quadro reúne leitura de conjuntura, análise política e reflexão filosófica sobre os fatos que atravessaram o período, buscando ir além das manchetes e conectar acontecimentos, interesses e disputas em curso no Brasil e no mundo.

A análise, exibida pela Atitude Popular e retransmitida por uma rede de rádios e TVs comunitárias, contou com Victor Marques, professor da UFABC, e Sandra Helena, professora de Filosofia. O debate partiu de um diagnóstico duro sobre o ambiente político, marcado por cinismo, manipulação de fatos e uso intensivo de narrativas para capturar emoções e desorganizar a percepção pública.

“Autores de ficção” e o jogo da desmemória

Ao comentar o episódio de tumulto e tensão em CPI/CPMI, Sandra Helena apontou o que considera um padrão consolidado nas forças da direita e da extrema direita: a capacidade de negar o real, trocar de discurso conforme a conveniência e acusar adversários daquilo que praticam.

“A direita não tem nenhum compromisso com continuidade, coerência, consistência, nada. (…) Eles têm um absoluto descompromisso com o real”, afirmou Sandra.

Ela descreveu um método baseado em desmemória e emocionalidade, que se aproveita de repertório informacional limitado para sustentar versões e virar o jogo discursivo. O exemplo citado no programa foi a tentativa de transformar a própria confusão regimental e a contagem improvisada de votos em argumento contra a esquerda, enquanto se reivindica “democracia” para justificar manobras.

Nesse contexto, Sara ironizou a reação de uma parlamentar da extrema direita, que teria declarado “choque” com a violência do episódio e atribuído o tumulto à “incapacidade da esquerda de aceitar o voto democrático” — uma inversão que, para os debatedores, sintetiza a lógica de acusação espelhada que domina parte do debate público.

Da hipocrisia ao cinismo

A conversa avançou para um eixo conceitual que atravessou toda a edição: a passagem de uma política ainda regulada por “hipocrisias” sociais — aparências, limites formais e contenções — para um tempo de cinismo aberto, no qual a liderança autoritária se fortalece justamente por não aceitar freios.

Victor Marques explicou a ideia a partir de um paralelo com o fascismo contemporâneo: líderes autoritários se apresentam como “anti-inibição”, como figuras que não se submetem a regras de convivência, instituições ou linguagem pública. Ao mesmo tempo, quando necessitam ampliar base social, podem ensaiar um retorno estratégico à “hipocrisia” para parecerem “normais” e disputar o centro político.

“O fascismo faz isso também: quando precisa ganhar espaço, diz ‘nós somos normais’. Uma vez no poder, retoma o elemento anti-inibitório”, analisou Victor.

A leitura apareceu conectada à discussão sobre reposicionamentos eleitorais e tentativas de “normalização” discursiva de lideranças da direita, num cenário em que a disputa de 2026 já começa a se desenhar com nitidez.

Cuba, Conselho da Paz e a pressão geopolítica

Na parte internacional, Victor Marques afirmou estar particularmente preocupado com o estrangulamento econômico e energético de Cuba, que descreveu como uma peça central na rearticulação geopolítica do governo Trump. Ele falou em “sufocamento” e relatou um cenário de apagões e racionamento, defendendo que o Brasil deveria elevar a solidariedade e considerar iniciativas humanitárias e cooperação energética mais robusta.

“Nós deveríamos ter envio humanitário para Cuba e coragem de comercializar mais fortemente na área energética”, disse.

A conversa se estendeu ao que Victor chamou de ofensiva “neoimperialista” na região e ao risco de naturalização do absurdo no debate internacional. O caso mais emblemático, para ele e Sandra, é o chamado “Conselho da Paz” — descrito como um organismo com lógica empresarial e desenho personalista, associado ao plano de “reconstrução corporativa” de Gaza. A dupla apontou elementos que classificou como surrealistas, como a ideia de centralização vitalícia e a adesão de países a um arranjo visto por eles como humilhante e incompatível com qualquer padrão multilateral.

Sandra também manifestou inquietação com o encontro previsto entre Lula e Trump na Casa Branca, num contexto em que o Brasil busca reduzir fricções com os Estados Unidos. Para ela, a estratégia pode ser eleitoralmente calculada, mas causa desalento no campo progressista — sobretudo pelo contraste com posições mais firmes adotadas em outros momentos.

Argentina, Milei e a “chantagem eleitoral”

Ao tratar da Argentina, Victor sustentou que o governo Milei teria sido beneficiado por um cenário de chantagem econômica e por um cansaço social com a turbulência política, o que abre caminho para reformas duras, especialmente no mundo do trabalho. Sandra ressaltou o contraste com medidas progressistas em países como México e Colômbia, apontando como a pauta trabalhista ajuda a diferenciar, de forma didática, projetos de esquerda e extrema direita.

Na avaliação apresentada, a Argentina aparece como vitrine regional de um programa “sem mediações”, que combina neoliberalismo radical com autoritarismo e guerra cultural. A prisão de Cristina Kirchner foi citada como elemento de debilidade na reorganização do campo popular, que, segundo Victor, precisará reconstruir liderança e horizonte.

Brasil: reação social a retrocessos e o caso Marielle

No bloco dedicado ao Brasil, Sandra destacou a decisão judicial em Minas Gerais envolvendo estupro de uma menina de 12 anos, tratada inicialmente como “consensual” sob alegação de vínculo afetivo e anuência familiar — e valorizou a reação social, que pressionou por recuo e revisão.

O tema do feminicídio também atravessou sua fala, com referência à escalada de casos e à insuficiência de pactos institucionais sem medidas efetivas. Sandra defendeu que homens precisam assumir papel mais ativo na luta e alertou para o risco de a extrema direita tentar transformar até mesmo essa tragédia em arma narrativa contra o governo.

A condenação de acusados como mandantes do assassinato de Marielle Franco também foi comentada. Sandra disse preferir se orientar pela satisfação da família diante do resultado, ainda que parte de analistas e juristas sustente que há pontas soltas e dúvidas sobre a total elucidação do caso.

2026: polarização consolidada e risco real de disputa apertada

No encerramento, Victor Marques afirmou ver consolidada a liderança da extrema direita sobre a direita tradicional e, com isso, a consolidação de um candidato competitivo no campo conservador. Segundo ele, Lula segue como referência do campo progressista e a ausência de candidaturas de esquerda alternativas poderia até ampliar chances no primeiro turno — mas não elimina o risco de um segundo turno “duríssimo”.

“A direita não está enfraquecida, pelo contrário: ela é majoritária no Brasil (…) podemos ganhar por pouco e podemos perder por pouco”, alertou.

A edição terminou com agradecimentos, anúncio do próximo encontro do quadro no fim de março e menção a atividades acadêmicas futuras de Victor e Sandra, que prometem aprofundar debates sobre liberalismo, socialismo e populismos contemporâneos.

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