Da Redação
O aspecto mais interessante do recente artigo publicado pela Foreign Affairs não está na referência a Tucídides. Afinal, o historiador ateniense nunca deixou de ocupar lugar central na formação intelectual da diplomacia, dos estrategistas militares e das escolas de relações internacionais dos Estados Unidos. O que realmente chama atenção é outra coisa: a necessidade, cada vez mais frequente, de voltar a Tucídides. Esse detalhe aparentemente banal talvez revele muito mais sobre o estado atual da hegemonia americana do que o próprio conteúdo do artigo.
Os clássicos costumam retornar quando as certezas começam a desaparecer. Durante o auge da ordem unipolar construída após o colapso da União Soviética, Washington não precisava recorrer à tragédia ateniense para pensar a si própria. Tucídides era utilizado para compreender os outros, especialmente aqueles que poderiam desafiar a supremacia americana. A famosa “Armadilha de Tucídides”, popularizada por Graham Allison, tornou-se quase sinônimo da ascensão chinesa: o problema seria administrar o crescimento de uma potência emergente sem reproduzir a lógica que levou Atenas e Esparta à guerra.
Hoje, porém, a leitura parece ter mudado de direção.
Quando autores ligados ao próprio establishment passam a enfatizar a arrogância, a hubris e os erros estratégicos de Atenas, a pergunta deixa de ser apenas como conter a China. Passa a ser outra: será que os Estados Unidos começam a enxergar em si mesmos alguns dos traços que durante décadas atribuíram apenas aos seus adversários?
Essa mudança de perspectiva é extremamente significativa.
Tucídides jamais escreveu um tratado sobre o triunfo da força. Ao contrário do que sugere a leitura superficial do célebre Diálogo de Melos, sua obra inteira constitui uma reflexão sobre os limites do poder. Atenas não fracassa porque deixa de possuir riqueza, frota ou capacidade militar. Ela fracassa porque passa a acreditar que sua superioridade elimina qualquer restrição política, moral ou estratégica. É justamente a confiança produzida pelo próprio sucesso que a conduz ao desastre.
Não é difícil perceber por que essa reflexão volta a ganhar espaço em Washington.
Os últimos vinte anos produziram uma sucessão de acontecimentos que abalaram a autopercepção americana. As guerras do Afeganistão e do Iraque demonstraram que a maior máquina militar do planeta não consegue reorganizar sociedades complexas apenas pela força. A crise financeira de 2008 expôs vulnerabilidades do próprio capitalismo liderado pelos Estados Unidos. A ascensão tecnológica chinesa desmontou a crença de que inovação de ponta permaneceria monopolizada pelo Ocidente. A expansão dos BRICS, o crescimento dos mecanismos alternativos de financiamento internacional e o lento processo de diversificação monetária passaram a desafiar pressupostos que, durante décadas, pareciam inquestionáveis.
Nenhum desses eventos, isoladamente, significa o fim da hegemonia americana. Mas, juntos, produzem algo talvez ainda mais importante: a erosão da sensação de inevitabilidade dessa hegemonia.
É precisamente nesse contexto que Tucídides reaparece.
Não como resposta.
Mas como sintoma.
Quando uma potência dominante começa a revisitar os textos que descrevem o declínio de outra potência dominante, dificilmente isso acontece por mera curiosidade acadêmica. Os clássicos são frequentemente convocados quando o presente deixa de oferecer respostas confortáveis. Eles funcionam como espelhos históricos. E nenhum espelho interessa tanto às grandes potências quanto aquele capaz de revelar seus próprios limites.
Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo agora.
Mais do que um debate sobre a Grécia antiga, o retorno de Tucídides revela que a elite estratégica americana começa a admitir uma possibilidade que durante muito tempo permaneceu praticamente impensável: a de que a ordem internacional construída após 1945, consolidada depois de 1991 e frequentemente tratada como permanente, pode estar entrando em uma fase de transformação estrutural.
Essa percepção não implica aceitar um declínio inevitável dos Estados Unidos, nem anunciar automaticamente a ascensão definitiva da China. A história raramente se move dessa forma linear. O que parece estar mudando é algo mais profundo: a própria consciência de que o sistema internacional voltou a ser competitivo, multipolar e muito menos previsível do que foi durante a breve era unipolar.
Talvez, no fim das contas, o aspecto mais importante do artigo da Foreign Affairs seja justamente aquele que ele não pretende discutir.
O verdadeiro fato político não é a citação de Tucídides.
É a inquietação histórica que tornou essa citação novamente necessária.




