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A nomeação de Verônica Sterman: direito, política e controvérsia na alta corte militar

A segunda mulher no STM

Por Sara Goes – A indicação de Verônica Abdalla Sterman para o Superior Tribunal Militar (STM) tornou-se um marco histórico e político. Advogada criminalista de renome, com carreira consolidada na defesa de figuras públicas em processos de alta repercussão, Sterman foi escolhida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para ocupar uma das cinco vagas civis da mais antiga corte do país. Sua chegada simboliza não apenas a valorização da experiência civil no tribunal militar, mas também um passo decisivo na inclusão feminina em espaços de poder historicamente masculinos.

O anúncio, feito em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, foi um gesto calculado de comunicação política: ao lado da ministra Maria Elizabeth Rocha, nomeada também por Lula em 2007, Sterman passará a compor uma instituição bicentenária que durante quase toda sua história foi dominada por homens. Mas a trajetória até a aprovação final no Senado revelou que a conquista não viria sem embates — e expôs as fissuras do cenário político brasileiro.


Uma carreira moldada no direito penal

Formada em Direito pela PUC-SP, com especialização na FGV e estudos avançados em Direito Penal Econômico em parceria com a Universidade de Coimbra, Sterman construiu um perfil singular na advocacia. Sua atuação em defesa de políticos e autoridades perseguidos pela Operação Lava Jato projetou seu nome para além dos tribunais. Entre seus clientes, figuraram a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, e o ex-ministro Paulo Bernardo, ambos absolvidos após processos desgastantes.

Esse histórico consolidou a reputação de Sterman como advogada técnica, resiliente e de confiança. A fundação do escritório Abdalla Sterman Sociedade de Advogados reforçou seu protagonismo no campo criminal, além de sua atuação no Tribunal de Ética da OAB-SP. Sua especialização em crimes econômicos e empresariais dialoga diretamente com o perfil de casos que chegam ao STM, onde delitos como peculato, estelionato e tráfico de drogas superam os crimes estritamente militares.


O peso simbólico e estratégico da nomeação

Ao nomear Sterman, Lula perseguiu objetivos múltiplos. De um lado, sinalizou compromisso com a paridade de gênero, elemento central de sua narrativa política recente. De outro, colocou no tribunal uma advogada cuja trajetória se confunde com a defesa do próprio PT em tempos de perseguição judicial, transformando a escolha em gesto de lealdade e reconhecimento.

Mas a nomeação também tem implicações práticas: Sterman é civil, especialista em direito penal, e Lula declarou esperar que sua presença contribua para diferenciar com clareza “o que é crime militar e o que é crime comum”. Trata-se de uma sinalização direta às tensões vividas após 2016, quando setores das Forças Armadas ganharam proeminência no debate político e institucional.


A sabatina: quando currículo vira campo de batalha

O momento mais tenso do processo ocorreu em 13 de agosto, durante a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). O senador Carlos Portinho (PL-RJ) questionou a validade da informação sobre seu mestrado em Direito Processual Penal pela USP. O ponto: Sterman concluiu todas as etapas do curso, com créditos integralmente cumpridos e projeto de qualificação aprovado, mas não defendeu a dissertação. Em termos acadêmicos, isso significa que o mestrado foi concluído sem a outorga do título — uma distinção fundamental que o senador preferiu ignorar.

Portinho acusou-a de “maquiar” o currículo, amparando-se em reportagens e em um perfil de LinkedIn que ela negou administrar. Sterman rebateu: explicou que não concluiu a dissertação por causa de uma gravidez de risco e da doença terminal do pai, e que registrou a situação conforme orientação de seu orientador. “O que eu coloquei no meu currículo é a expressão da verdade”, afirmou.

A postura gerou incômodo entre os senadores e Portinho foi publicamente repreendido pelo presidente da Comissão, Otto Alencar (PSD-BA), que disse que o senador carioca foi “incisivo” e causou um constrangimento à advogada. Líderes partidários também criticaram a abordagem. Eduardo Braga (MDB-AM) e Omar Aziz (PSD-AM) pediram que os colegas votassem favoravelmente à indicação. Portinho, antes de deixar a sessão, afirmou que não tratou Verônica diferente de outros indicados e citou o caso do ministro do STF, Flávio Dino.

Ao final, o plenário aprovou sua nomeação por 51 votos a 16. A vitória expôs a fragilidade das acusações e consolidou a leitura de que se tratava mais de disputa política do que de um real problema de qualificação.


Maternidade, ciência e política: um padrão de exclusão

O episódio da sabatina não pode ser lido apenas como um embate individual. Ele reflete a penalização da maternidade como fator de exclusão em ambientes de alta competitividade.

No Brasil, dados do movimento Parent in Science mostram que 81% das pesquisadoras mães percebem impacto negativo ou muito negativo da maternidade em suas carreiras acadêmicas. Entre 50% e 54% delas assumem sozinhas o cuidado dos filhos, e cerca de 30% acabam abandonando a pós-graduação diante da impossibilidade de conciliar estudos, pesquisa e responsabilidades domésticas.

Esse fenômeno, conhecido como “efeito tesoura”, revela como as mulheres são maioria na entrada da pós-graduação, mas sua presença despenca nos cargos de maior prestígio. A maternidade é o ponto de inflexão mais decisivo desse processo. Mesmo avanços recentes, como a Lei nº 14.925/2024, que ampliou a licença-maternidade para bolsistas e obrigou universidades a prorrogar prazos acadêmicos, não resolvem a falta de infraestrutura de cuidado, como creches, nem a cultura da produtividade ininterrupta.

No Senado, esse histórico foi invisibilizado por Portinho, que reduziu a experiência de Sterman a um suposto “currículo maquiado”. Ao insistir que “não há mestrado”, ignorou a realidade de milhares de mulheres brasileiras: cursos concluídos sem defesa final, abandonos e atrasos forçados pela maternidade.


Das altas cortes ao interior: o desafio invisível da política para mulheres

O dilema não está apenas nos tribunais superiores. No dia 18 de junho, na Câmara Municipal de Cariús, no interior do Ceará, a vereadora Orbelia Costa (PP) foi a única a votar contra a mudança do horário das sessões, transferidas das 17h30 para as 10h da manhã. Sua justificativa expôs o desafio silencioso que atravessa a trajetória de inúmeras mulheres na política: conciliar mandato, maternidade e tarefas domésticas.

“Pra mim é inviável. Falo isso porque sou dona de casa, tenho filhos… e embora para os demais vereadores esse horário seja favorável, pra mim não é”, declarou.

Enquanto parte dos moradores defendeu que o novo horário favorece os trabalhos internos, outros alertaram que pode afastar a população das sessões, já que boa parte trabalha pela manhã. O gesto de Orbelia trouxe à tona uma pergunta crucial: será que o sistema político brasileiro está de fato preparado para acolher mulheres, mães e cidadãos com rotinas diversas?

Assim como na sabatina de Sterman, em que a maternidade foi usada como pano de fundo para questionamentos sobre sua carreira acadêmica, o caso de Cariús mostra que a vida política ainda opera sob padrões que naturalizam a exclusão. Do Senado às câmaras municipais, as mulheres enfrentam a mesma barreira: provar em dobro seu direito de estar ali.


Um retrato do Brasil de hoje

A história de Verônica Abdalla Sterman transcende a biografia individual. Ela condensa três camadas fundamentais do Brasil contemporâneo: a luta das mulheres para ocupar espaços de poder, a permanência da polarização política como herança da Lava Jato e o delicado equilíbrio entre poder civil e militar.

O paralelo com a vereadora Orbelia Costa mostra que essa luta se repete em diferentes níveis, do tribunal militar à política municipal, e sempre com o mesmo eixo: o custo de ser mulher em ambientes moldados para homens.

Se Sterman enfrentou a distorção de seu currículo e a exposição de sua vida pessoal, Orbelia enfrentou o peso de um calendário legislativo incompatível com a vida de mãe e trabalhadora. Esses episódios deixam claro: a democracia brasileira ainda precisa ser redesenhada para incluir plenamente as mulheres, não apenas em número, mas em condições reais de participação.

Até lá, cada nomeação, cada voto solitário e cada resistência se tornam mais do que atos individuais — são marcos de uma luta coletiva pela equidade.

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