Da Redação
Boicote dos Estados Unidos à cúpula de Joanesburgo expôs a estratégia de Donald Trump para enfraquecer fóruns multilaterais e bloquear iniciativas do Sul Global que desafiam a hegemonia norte-americana.
A cúpula do G20 de 2025, em Joanesburgo, marcou um dos episódios mais explícitos da ofensiva de Donald Trump contra qualquer forma de governança global que não esteja subordinada aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. A ausência deliberada do governo norte-americano — que proibiu a ida do vice-presidente, do secretário de Estado e de qualquer autoridade de alto escalão — foi interpretada por líderes e analistas internacionais como um ato calculado de sabotagem. A intenção era esvaziar simbolicamente o encontro, deslegitimar a presidência sul-africana e enfraquecer o avanço de agendas estruturantes conduzidas por países do Sul Global.
O boicote não foi uma decisão isolada. Ele se insere em uma linha de ação coerente adotada pelo governo Trump desde o retorno ao poder: atacar instituições multilaterais, inviabilizar fóruns coletivos e impor tarifas, ameaças e punições a países que desenvolvem políticas externas independentes. O episódio em Joanesburgo expôs esse movimento de forma cristalina. Ao adotar a narrativa infundada de “perseguição contra brancos na África do Sul” como justificativa para sua ausência, Trump transformou uma teoria conspiratória doméstica em argumento diplomático, desqualificando o anfitrião e procurando gerar constrangimento sobre a legitimidade do próprio G20.
Durante o encontro, ficou evidente que a estratégia norte-americana buscava minar diretamente o avanço de agendas que ampliam a autonomia de países emergentes: redução da desigualdade, transição energética, ampliação de financiamento multilateral, reforma da governança global e fortalecimento da cooperação Sul-Sul. Esses eixos contrariam a visão de mundo de Trump, que enxerga a multipolaridade como ameaça à supremacia estratégica dos EUA e como risco para a influência norte-americana nas cadeias de valor, no sistema financeiro e na ordem de segurança internacional.
A ausência do governo norte-americano foi acompanhada de uma ofensiva retórica antes, durante e depois da cúpula. Representantes de Washington tentaram descreditar o encontro, alegando falta de “neutralidade”, enquanto setores midiáticos alinhados ao trumpismo passaram a difundir a ideia de que decisões tomadas sem os EUA seriam irrelevantes. Em paralelo, think tanks vinculados à extrema-direita norte-americana intensificaram campanhas nas redes sociais para associar a presidência africana do G20 a “radicalismo ideológico” e “hostilidade ao Ocidente”, uma narrativa destinada a justificar o isolamento diplomático voluntário.
Esse ataque constante ao G20 ocorre em sinergia com outras ações unilaterais do governo Trump ao longo de 2025. As tarifas impostas ao Brasil e a outros membros dos BRICS, as ameaças de sanções a ministros de tribunais superiores estrangeiros e as tentativas de punir comercialmente países que fortalecem relações com China, Rússia, Índia e África do Sul fazem parte do mesmo pacote de coerção. O objetivo é impedir que economias emergentes diversifiquem seus parceiros e abandonem a dependência estrutural de Washington.
Na prática, o boicote norte-americano acabou surtindo efeito inverso ao pretendido. A ausência dos EUA abriu espaço para que Brasil, Índia, África do Sul e outros países do Sul Global articulassem uma agenda comum com mais liberdade, sem pressão direta norte-americana. A declaração final, aprovada sem Washington, reforçou compromissos com desenvolvimento sustentável, clima, inclusão digital, combate à pobreza e reforma das instituições financeiras internacionais. Para muitos observadores, foi um momento emblemático: o G20 mostrou que é capaz de funcionar mesmo quando a superpotência central tenta travar sua atuação.
Ainda assim, o episódio expõe uma disputa de fundo muito mais profunda. O governo Trump tenta restaurar uma ordem unipolar que já não existe, utilizando ferramentas econômicas, diplomáticas e comunicacionais para bloquear qualquer rearranjo de poder global. Em vez de participar do debate internacional, os EUA têm preferido impor sua vontade através de ameaças, coerção ou sabotagem institucional. A estratégia é clara: se o fórum não reforça a hegemonia norte-americana, deve ser desacreditado, esvaziado ou destruído.
Para o Sul Global, a lição de Joanesburgo é contundente. O avanço da multipolaridade não virá sem resistência, especialmente de governos que enxergam a ascensão de países emergentes como ameaça direta aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos. Contudo, também evidencia que a ordem internacional já não gira exclusivamente em torno de Washington. Mesmo ausentes, os EUA não conseguiram impedir que o G20 deliberasse, avançasse e emitisse um posicionamento global.
O conflito simbólico de 2025 abriu uma nova fase: o embate entre o projeto de mundo multipolar — plural, cooperativo, distribuído — e a tentativa trumpista de restaurar uma hegemonia unilateral baseada em coerção, tarifas e intimidação. A cúpula de Joanesburgo deixa um recado claro: o mundo mudou, e boa parte dele não está disposta a esperar a permissão dos Estados Unidos para construir o próprio futuro.











