Atitude Popular

O banho de Michelle Bolsonaro e a chegada de Lampião no inferno

Por Sara Goes

Tenho cultivado uma pequena reputação entre os que me leem por escrever com certa competência sobre nojeira. Talvez porque o bolsonarismo tenha transformado degradação moral, escatologia e brutalidade em linguagem cotidiana durante anos. Mas, diante da imagem de Jair Bolsonaro despido durante o banho relatado por Michelle Bolsonaro em uma postagem publicada por ela nas redes sociais nesta terça-feira, 6 de maio, resolvi poupar meus leitores. Michelle já cumpriu essa função sozinha. O que me interessa não é a cena fisiológica. É aquilo que ela comunica.

Na publicação feita em seu Instagram, Michelle afirmou ter ajudado Bolsonaro no banho e passado creme em suas costas para evitar escaras causadas pelo período de internação. Disse também que, enquanto cuidava do marido, foi atravessada pelo pensamento de que talvez não tenha no futuro um companheiro que cuide dela da mesma maneira. A postagem mistura referências religiosas, desgaste físico, devoção conjugal e a imagem de um homem fragilizado dependente dos cuidados da esposa.

Mas a legenda publicada por Michelle opera em outra camada. Ali, naquela combinação cuidadosamente construída de fragilidade, religiosidade e sacrifício feminino, ela não aparece apenas como esposa cuidadora. Surge administrando publicamente um espólio político em decomposição.

O banho, o pijama, o cabelo molhado, a mão inflamada, o corpo cansado e a paz espiritual formam uma encenação precisa de autoridade moral. O cuidado íntimo deixa de ser apenas intimidade e passa a funcionar como ritual político. Ao transformar a decadência física do marido em narrativa pública de devoção, Michelle reorganiza afetos com a eficiência de quem compreendeu antes daqueles brutamontes que lágrima também é comunicação.

Em “A chegada de Lampião no Inferno”, clássico cordel de José Pacheco publicado nos anos 1920, Lampião morre e desce ao inferno carregando a fama violenta construída no sertão. Sua chegada provoca tumulto imediato. Os demônios entram em pânico, Satanás perde o controle da situação e o inferno inteiro passa a reagir à presença de alguém que conhece profundamente a lógica da brutalidade. Lampião não surge como simples condenado. Ele atravessa os portões impondo presença, reorganizando forças e produzindo um desconforto que o próprio inferno já não consegue administrar.

Michelle conhece o inferno bolsonarista por dentro. Aprendeu sua linguagem religiosa, sua estética de perseguição, seus mecanismos de vitimização e sua capacidade de transformar ressentimento em identidade política. Mas há um deslocamento em curso: Michelle já não parece interessada apenas em proteger Jair Bolsonaro. Ela começa a administrar a sobrevivência do bolsonarismo diante do esgotamento físico, político e simbólico do próprio marido.

A postagem funciona como um rito de passagem porque Bolsonaro aparece menos como liderança ativa e mais como corpo fragilizado, dependente e isolado. E, na política, controlar a intimidade do líder ferido significa também controlar parte importante da narrativa sobre sua sucessão. Michelle parece compreender isso perfeitamente. Ao expor o cuidado doméstico de maneira pública, ela retira dos filhos, dos aliados e até da militância o monopólio emocional sobre Bolsonaro. O corpo do ex-presidente torna-se território administrado por ela.

Durante anos, Michelle foi apresentada como a parte delicada de um projeto político especializado em brutalidade, uma espécie de aromatizador evangélico colocado ao lado do cheiro permanente de pólvora. Essa leitura já não dá conta dos movimentos recentes. Michelle deixou de atuar apenas como escudo espiritual da família e passou a ocupar um espaço de contenção moral de um grupo frequentemente atravessado por impulsos autodestrutivos.

Isso ficou evidente no confronto com André Fernandes no Ceará. Quando o deputado tentou construir protagonismo próprio a partir de uma aproximação com Ciro Gomes, Michelle reagiu publicamente de forma dura, expondo limites que não poderiam ser ultrapassados sem desgaste para o núcleo bolsonarista. Naquele momento, deixou temporariamente o papel de intercessora espiritual da família para assumir algo mais próximo de uma corregedoria informal do bolsonarismo cearense. O gesto parecia menos motivado por divergência eleitoral imediata do que por uma necessidade de reafirmar autoridade simbólica sobre aliados que começavam a operar por conta própria enquanto o patriarca se enfraquecia.

Mas Michelle também demonstra selecionar cuidadosamente quais homens do entorno devem ser enfrentados e quais ainda podem ser preservados dentro da reorganização do espólio político da família. Com Eduardo Bolsonaro, as tensões aparecem de forma mais difusa, sobretudo quando o deputado flerta com alternativas sucessórias que escapam ao controle familiar ou sinaliza simpatia por arranjos políticos capazes de reduzir a centralidade do sobrenome Bolsonaro. Eduardo carrega impulsividade demais para alguém que tenta administrar uma herança em estado delicado, e Michelle parece perceber isso.

Com Flávio, porém, a dinâmica é diferente. Michelle jamais produziu contra ele constrangimentos públicos semelhantes. Num clã em que quase todos parecem falar como se estivessem transmitindo uma live às três da manhã para comentar o Apocalipse, Flávio ganhou utilidade justamente por parecer menos inflamável. Isso não significa ausência de disputa, mas revela que Michelle parece agir a partir de critérios políticos bastante claros sobre quem ameaça a estabilidade do grupo e quem ainda pode ajudar a preservá-la.

É exatamente essa combinação entre religiosidade performática, disciplina emocional e cálculo político que torna sua figura mais sofisticada do que o bolsonarismo original. O velho olavismo e o “projeto Damares” dependiam do choque permanente, da histeria moral e da brutalidade discursiva como método de mobilização. Michelle representa outra etapa desse processo. Uma etapa mais silenciosa, mais estética e emocionalmente mais eficiente, capaz de suavizar a barbárie através da imagem da mulher que suporta tudo em nome da família, da fé e de uma missão divina.

Talvez o trecho mais revelador da postagem seja justamente aquele em que Michelle afirma temer não ter, no futuro, um companheiro que cuide dela da mesma maneira. A frase parece melancólica, mas opera politicamente como preparação de permanência. Ao falar da própria solidão futura enquanto cuida do corpo fragilizado do marido, ela começa a construir a figura da sobrevivente antes mesmo da morte política definitiva de Bolsonaro.

É por isso que a cena do banho adquire dimensão maior do que aparenta. Enquanto passa creme nas costas do marido para evitar escaras, Michelle também trabalha para impedir que o bolsonarismo entre em decomposição antes da transição que ela própria parece administrar.

No cordel de José Pacheco, o inferno entra em desordem quando Lampião atravessa a porteira. No bolsonarismo, talvez o verdadeiro problema tenha começado quando Michelle percebeu que não precisava mais carregar o balde de água benta. Bastava administrar o incêndio.

E, sim, cumpri o que prometi no início deste texto. Evitei transformar estas linhas em mais um mergulho na sebosidade fisiológica da família Bolsonaro. Mas talvez nem eu, que há anos mergulho no balde de enxofre político desse clã, consiga dar conta de todas as camadas escondidas naquela postagem de Michelle Bolsonaro.

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