Escritor e professor apresenta projeto de cartões postais poéticos e jornal literário como parte das celebrações pelos 300 anos de Fortaleza
No contexto das comemorações pelos 300 anos de Fortaleza, o programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, recebeu o escritor e professor Nonato Nogueira para uma conversa sobre memória, poesia e patrimônio urbano. A entrevista, conduzida por Luiz Regadas na edição de 6 de março, destacou iniciativas culturais independentes que buscam transformar a cidade em matéria de afeto, reflexão e criação literária.
A partir da entrevista exibida no programa, Nonato apresentou dois projetos articulados pela cena literária cearense: uma série de cartões postais com poemas sobre lugares marcantes de Fortaleza e o Jornal do Clube dos Poetas Cearenses, publicação digital dedicada à divulgação de autores e autoras do estado. Em ambos os casos, o eixo central é a defesa da cultura como gesto de resistência, memória e pertencimento.
Segundo o escritor, a ideia dos cartões postais nasceu no início do ano, quando o grupo passou a discutir uma maneira simples, acessível e poética de marcar os três séculos da capital cearense. A proposta se apoia em textos curtos, de até 15 linhas, escritos sobre espaços simbólicos da cidade, acompanhados por imagens dos locais homenageados.
“Nós pensamos em fazer uma homenagem aos 300 anos de Fortaleza de uma forma mais simples e poética.”
A iniciativa reúne poemas sobre pontos históricos e afetivos da cidade, como Praça do Ferreira, Praça José de Alencar, Cineteatro São Luiz, Praia de Iracema, Beira-Mar, Barra do Ceará, Parque do Cocó, Ponte Metálica, Praia do Futuro e outros territórios que ajudam a compor a memória urbana da capital.
Nonato explicou que cada cartão segue o formato tradicional do postal, com título, poema, nome do autor, imagem e identificação dos créditos fotográficos. O conjunto será apresentado ao público em uma exposição prevista para abril, em um sarau na sede da ADUFC, com a perspectiva de circular também por outros espaços culturais.
“A ideia é produzir cartões postais para homenagear a cidade a partir de seus lugares marcantes.”
A proposta não é apenas estética. Ela também funciona como uma forma de reativar a relação entre literatura e espaço urbano, convidando escritores e leitores a revisitar Fortaleza por meio da poesia. Ao transformar a cidade em linguagem, o projeto busca devolver visibilidade a lugares muitas vezes conhecidos apenas em sua superfície, mas pouco compreendidos em sua densidade histórica.
“Fortaleza, se você for registrar os lugares que fazem parte da história, é quase uma coisa infinita.”
Para Nonato, há uma riqueza muitas vezes subestimada no patrimônio material e simbólico da capital. Ele lembrou que Fortaleza reúne praças, prédios históricos, praias, monumentos e percursos que contam a trajetória da cidade e que podem ser reinterpretados pela arte.
“A cidade é belíssima, e essa é uma forma de homenageá-la de modo independente.”
O caráter independente é, aliás, um dos traços mais enfatizados pelo escritor ao longo da entrevista. Sem financiamento institucional robusto, os projetos nascem da articulação direta entre poetas, professores, fotógrafos e agentes culturais que se dispõem a construir coletivamente espaços de circulação da arte.
Além dos cartões postais, o escritor detalhou o funcionamento do Jornal do Clube dos Poetas Cearenses, uma publicação mensal distribuída gratuitamente em formato digital. O jornal aceita poemas autorais, acompanhados de minibiografia e foto do autor, e se propõe a divulgar a produção literária cearense, inclusive de escritores que vivem fora do estado.
“O objetivo do jornal é divulgar o trabalho de escritores cearenses.”
O Clube dos Poetas Cearenses, explicou Nonato, foi reorganizado em 2025 a partir de um esforço de retomada de uma entidade criada originalmente em 1969. A reconstrução desse espaço pretende restabelecer vínculos entre gerações de autores e fortalecer a circulação da poesia em meio às dificuldades enfrentadas pela produção cultural independente.
Nas páginas do jornal, além da publicação de poemas contemporâneos, há também homenagens a nomes importantes da literatura cearense, como Patativa do Assaré, Horácio Dídimo, Airton Monte, Francisco Carvalho e Mário Gomes. Trata-se, segundo o entrevistado, de uma forma de manter viva uma linhagem poética que não pode ser esquecida.
Ao comentar a importância da literatura na formação de crianças e jovens, Nonato foi enfático ao dizer que falta, nas escolas, uma política mais consistente de valorização da leitura e da arte. Embora reconheça a existência de experiências pontuais, ele avalia que a cultura ainda ocupa um espaço secundário diante de um modelo educacional excessivamente centrado em currículo e conteúdo.
“O que está faltando nas escolas é a motivação da leitura.”
Na avaliação do escritor, se houvesse mais bibliotecas ativas, saraus, encontros literários e acesso à produção de autores cearenses, a relação dos estudantes com a poesia e com a cultura local seria muito mais rica. Ele observou que muitos trabalhos existem, mas são isolados e dependem quase sempre do esforço individual de professores e artistas.
“A gente faz a nossa parte de forma independente, sem ajuda financeira.”
Esse esforço voluntário, segundo ele, aparece tanto na produção do jornal quanto na organização dos encontros do Clube dos Poetas. As reuniões, realizadas mensalmente na Casa de Juvenal Galeno, reúnem leitura de poemas, informes, apresentações musicais e debates literários em um ambiente aberto, sem exigência de filiação estética ou formal.
Outro aspecto sublinhado por Nonato foi a defesa da liberdade criativa. Para ele, a poesia não pode ser reduzida a um conjunto rígido de regras formais. Embora haja espaço para sonetos e composições metrificadas, o clube acolhe igualmente o poema livre, a experimentação e diferentes modos de escrita.
“A poesia em si não tem essa obrigação de métrica ou rima.”
Mais do que uma discussão técnica, essa visão aponta para uma compreensão democrática da literatura. Nonato sustenta que toda pessoa pode se aproximar da poesia, desde que haja leitura, escuta e abertura para a experiência estética.
“Eu acho que todo mundo é poeta. O que está faltando é o gosto pela leitura.”
Ao final da entrevista, o escritor convidou o público a conhecer de perto o Clube dos Poetas Cearenses, participando de seus encontros e acompanhando as publicações do grupo. Em sua fala, ficou evidente que os projetos apresentados não se limitam a homenagear Fortaleza em uma data simbólica. Eles também atuam como formas de resistência cultural em uma cidade onde a memória precisa ser continuamente disputada para não desaparecer sob o peso do esquecimento.
Ao transformar praças, praias, pontes e edifícios em matéria poética, o projeto de cartões postais reafirma que uma cidade não é feita apenas de concreto e trânsito, mas também de linguagem, sensibilidade e recordação. E, no caso de Fortaleza, essa recordação ganha força justamente quando artistas e educadores decidem registrá-la com autonomia, beleza e compromisso coletivo.
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